Publicado em 13/12/2006 11:22

(re)Lembranças de giz

Tempos depois, quando a encontrei numa rua escura...

Tempos depois, quando a encontrei numa rua escura, seus olhos brilhantes refletiam a mesma alma de anos atrás, o rosto mudou, assim como o cabelo tornou-se alvo, mas a alma não. Era a mesma. Um breve acenar, distante e eterno foi o bastante para que o tênue tempo envilecesse.

Era ontem, aqueles cabelos negros, sua pele branca e jovial, sorria, falando. Falando talvez tudo o que sei até hoje. Seu colete branco escondia a infância solitária que passara na casa de pais adotivos, que a amavam, apenas. Descobri que seu olhar era o mesmo. Seu olhar era velho. Olhei de novo para trás e vi que continuavam os mesmos olhos e olhares. Velhos. Isso me intrigava... Aquele ermo olhar era mesmo o de Nilda. Tia Nilda. Hoje seria mais uma estranha de todas as estranhas e estranhos que passaram despercebidos por mim, não fosse aquele olhar. Tia Nilda era uma pessoa bela, enigmática. Era uma poesia gente. Anjo. Fosse então olhar de anjo, velho, tia Nilda também não seria diferente.

Os abecedes ganhavam cada dia um pouco de mim. Não à toa. Culpa de tia Nilda Pereira - que caiu da bananeira! ...

Relembranças me emocionam. Certa vez, de tamanha admiração por ela, comprei óculos iguais aos seus e fui lusco à escola. Imagine. Eram óculos incertos e grandes, nem modernos, nem antigos. Talvez protegessem seu olhar. Penso que seu olhar velho também significasse sabedoria, experiência. Mesmo que não, isso nunca lhe faltou. Talvez fosse isso o que tinha a oferecer. A mim ofereceu o que pôde. Os noventa e noves nas provas e todos os acentos descontados. Era mesmo sábia. Conseguiu mostrar que nada pode ser perfeito. Difícil de entender para meninos problemáticos de sete anos de idade. Lições. De vida e de abecede.

Haviam se passado muitas coisas e pessoas, estava pouco mais amadurecido. Tinha, porém, a mesma alma, tão carente de um beijo ao final do dia, de abraços, de elogios. Pequena alma cheia de sonhos estrelados e inconcebíveis de criança. Saudades. Nem ao menos disse meu nome de novo quando nos vimos. Fre-de-ric-co...

Lembro que Nilda nunca se casou nem tinha cara de quem namorasse ou tivesse muitas paqueras. Não teve. Das poucas vezes que a vi depois daquele ano, estava sozinha. Ela e seus olhos velhos não se casaram, não tiveram filhos, nem adotaram criança alguma. Ser solitária era seu destino.

As aulas não eram tão fáceis, os alunos de sete anos problemáticos às vezes tinham oito, nove, onze anos. Não tinham pais, mães, nada. Bem, tinham uma escola pública e Tia Nilda. Alguns ex-alunos de Tia Nilda formaram-se médicos, arquitetos, jornalistas, professores. Outros faxineiros, garis, ajudantes de obras. Destes ela se orgulha. Se orgulha muito. Tia Nilda nunca visitou ninguém na cadeia. Nem seus ex-alunos problemáticos de sete anos que já estiveram lá. Ela não se orgulha deles. Pode apenas ter uma pena de mãe, daquelas que tocam os mais abissais recantos da alma. Às vezes chora.

Sei que incerta data levou um murro. Murro de verdade. Um soco. Outrora levou um tapa em um lugar não citável. Sofria tanto com aqueles garotos e garotas que certo dia, de tanto gritar, foi dar aula muda. Sua voz esvaiu-se em tantos gritos. Uma semana muda. Sempre pareceu assim às outras professoras, nunca foi chamada a atenção, nem foi uma revolucionária, anarquista ou aderiu a algum movimento rebelde para parecer mais inteligente e inconformada para os demais. Nem greves. Não. Em greves sentia falta de seus alunos, e seus alunos, ainda que não soubessem, de seus olhares velhos e de seus gritos.

Momentos de descontração naquele ano de escola foram poucos, não sei se pelas regras ou pela nossa imaturidade. Um deles foi quando tia Nilda, chegou com os braços fartos e seu colete alvo e bem lavado, manchado. Trazia mangas. Uma aula de mangas. Comemos e comemos. Vomitamos. O sorriso de Nilda, revelado apenas em breves segundos no fim de cada aula, podia ser apreciado naquele dia por mais tempo. Longos minutos...

Tia Nilda marcou minha história. E eu agora, percebo que lágrimas abundantes descem por meu rosto de olhar distante, atemporal. Percebi que Nilda já desaparecia em meio à penumbra da rua escura. Percebi-me triste. Eram sufocadas gotas de lágrimas envelhecidas. Desapareci eu também da lembrança de segundos eternos e sussurros de minha alma afogada. São relembranças, lembranças de giz.

 

*Texto premiado com Medalha de Prata no II Concurso Gente Miúda de Conto - Medalha Monteiro Lobato, promovido pela Academia PanAmerciana de Letras e Artes (APALA) e selecionado para a antologia do mesmo.

Emerson Fraga

Emerson Fraga

Estudante do 3º ano do ensino médio do Colégio OLY.
Colunista e colaborador do Jornal Mercadão, da seção de cultura do site TUDOIN e do site litetrário Garganta da Serpente. Soma 26 prêmios artísticos, científicos e literários. 1º e 2º Lugar no III Concurso Nacional de Conto de Cordeiro (RJ)/Troféu Lygia Fagundes Telles. "Medalha de Ouro" pelo 1º Lugar Juvenil no III Concurso de Poesias "Letras do Divino", em Itanhaém-SP. "Medalha de Prata" pelo II Concurso Gente Miúda de Conto - Medalha Monteiro Lobato, promovido pela Academia PanAmericana de Letras e Artes. 1º Lugar Juvenil do VI Concurso Kelps de Poesia Falada (2007). Selecionado para antologia do IV Concurso Nacional de Literatura de Caçu nas categorias conto e poesia. Campeão da XXXI SACEM em conto, crônica e fábula. Premiado no Concurso Literário Internacional - Prêmio Cidade de Conselheiro Lafaeite (MG) na categoria crônica. Vencedor do concurso de texto e imagem ambiental "Minha Cidade é Meu Planeta", promovido pela Revista Época e British Council. Vencedor nacional de texto na 4ª Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente. Delegado brasileiro no Fórum Internacional Estudantil 2007, em Londres.

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Lista de Comentários

cleber silva ferreira
31/12/2006 00:33

=(=":"=)=

É ele tem um talento admirável mas tambem né quem é né? Mas tambem ele vai ser Jornalista tem que começar cedo desde pequeno you is big crazy
Cristiane Rodrigues
22/12/2006 15:37

Achei ótimo...

Parabéns!!!Achei ótimo seus artigos continue assim se desenpenhando ao máximo. Se depender de mim sempre que escrever irei deixar meu depoimento.
JOSÉ CARLOS HENRIQUE
19/12/2006 21:46

...

Como sempre você nos surpreende com um belíssimo texto.Ainda com pouca idade consegue captar emoções tão esquecidas neste mundo louco e ensandecido como o de hoje.Parabéns por tratar de um tema tão importante quanto a arte de educar.Realmente isto precisa ser discutido, debatido e emocionar.Sou suspeito como seu professor de falar de sua pessoa.Mas os outros também falam por mim.Parabéns!
Divina D Fonseca
18/12/2006 23:07

...

Gostei muito e acho que todos jovens deveriam seguir este exemplo. Parabens!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
francinelly
18/12/2006 22:46

........

Esta excelente!Parabens continue assim, você vai longe.!!!
Tony Fraga
18/12/2006 21:37

És Admirável

É louvável tua atidide de eneltecer uma pessoa digníssima do nosso respeito e admiração; a professoara. Admirável a forma como tu escreves. Estou certo que um dia, não muito distante daqui, teremos o prazer de constatá-lo na elite brasileira literária. Parabéns!
Camila
16/12/2006 13:46

òtimo artigo

òtimo artigo seu charlles, mt bom, vc tem dom de escrever, tem não sei como se diz, eh mt interessante o modo como vc lida com elas... Parabéns!
muriely de souza fonseca
15/12/2006 14:17

continue sempre assim

falar de voce e facil dificil e ser como voce, parabens pela sua nova materia.
cleijane ribeiro da fonseca
15/12/2006 14:14

parabens

bom sou um poco leiga em literatura mas se os feras ai em cima deu o depoimento a seu favor entao eu assino embaixo, e aproveitando a oportunidade quero lhe parabenizar por mais esta materia e que voce continue abrilhantando cada vez mais o site do tudoin, e isso ai parabens
Marilha Santana e Silva
15/12/2006 13:59

..so ele..

E dificil falar o quanto essa pessoinha tem talento, estudei com ele e vi que a palavra estudo pra ele nao e brincadeira, como para outros, gosto muito dele, um amigo para todas as horas. Wemerson quero te dizer que lute por tudo que deseja na vida com muita garra e perseverança, continue sendo essa pessoa maravilhosa que e te adoro!
Cristiane Ribeiro
15/12/2006 13:49

...

O que dizer desse menino...... Dedicado, Wemerson Charlles consegue atender às expectativas que se tem em relação a grandes autores da literatura brasileira. Ainda muito jovem, mas muito a oferecer de bom e culto, é uma boa pessoa e um bom autor, que sabe expressar seus sentimentos e idéias de forma bonita e admirável. Parabéns!
Renan Alves Melo
13/12/2006 15:21

...

É impossível se negar que Wemerson Charlles é uma promessa do universo literário. Apesar de sua pouca idade, seus textos falam de um autor maduro e consciente daquilo que sabe fazer melhor: escrever. A profundidade que permeia do comum é uma característica marcante sua, e que deve ser considerada nos muitos elogios que merece. Além de tudo, ainda é um amigo verdadeiro, uma pessoa humilde, um ser humano erforçado. Seu brilhantismo e carisma fazem de você uma pessoa especial. Parabéns por mais esse texto. Aguardo o próximo com ansiedade. Ate mais...