Publicado em 17/05/2006 23:34

A alma dói; o corpo sente...

Como andam seus relacionamentos? Quantas pessoas você conhece verdadeiramente?

  

 Há doenças piores que as doenças;

Há dores que doem, além do corpo, além da alma;

Mas que são mais dolorosas que as outras;

Há angustias sonhada, mas são tão reais que parece que a vida as traz;

Há sensações sentidas só por poder imagina-las

E são sentimentos tão nossos, mais nossos do que da própria vida;

Há tanta cousa que, sem existir, EXISTE!

Existe demorosamente.

E demorosamente somos nós, somos nós!

(Pessoa, Fernando. Modificado: Junior, Hercílio. 2006).

 

                 Vivemos hoje num mundo que se sustenta sem a fala! Não me refiro ao ato de falar. Mas da fala em si. A fala do que se é. Do conteúdo que a fala traz consigo. Quem fala, expressa, e quem expressa quer tornar-se conhecido, quer partilhar! E porque não falamos? Porque não partilhamos? Arrisco dizer talvez porque não há quem ouça, e quem se disponha a compreender o que é dito. Mas sempre há quem escuta. E escutar é arriscado porque se corre o risco de ouvir só o que se quer, e não o que se é.

 

                  Nascemos no mundo dos afetos e das palavras; pelo menos era pra ser! Não apropriamos dos afetos e das palavras de uma vez. Ao nascer, o universo das palavras nos é apresentado, e mediante a uma adequadação da linguagem, passamos a nomear coisas, a interagir com os outros. E é da palavra e dos afetos, da sua troca com o ambiente, e do convívio com os outros sujeitos que podemos nos perceber VIVOS no mundo. Por isso não poder dizer o que se sente, NÃO SE COMUNICAR AFETIVAMENTE, NÃO FALAR, seriam atos de TRAIÇAO À VIDA. Só quando coloca pra fora o que se pensa, o que se sente, o que imagina, além do que se vive, é que o individuo se FAZ SUJEITO, se FAZ ALGUEM, ALMA VIVENTE!

 

                  De alguma forma percebemos que as nossas vidas parecem ter a mesma qualidade dos nossos relacionamentos. Somos aproximadamente tão felizes quanto felizes são nossos relacionamentos. Um ser humano solitário é uma contradição em termos. A existência de um ser humano isolado dos outros é como uma planta tentando sobreviver sem sol e sem água. Nenhum novo crescimento pode ocorrer, e a vida que existe começa a murchar, e lentamente morrerá. Existir é existir com um outro ou outros. A qualidade de nossa existência humana depende de nossos relacionamentos.

 

                  O Universo da Fala foi substituído pelo OLHO, olho pelo olho; ou seja, as pessoas não param mais para ter um tempo de qualidade com o outro. Para perceber o outro e deixar ser percebido. Simplesmente olham e interpretam a sua maneira o que vêem. O resultado disso são relacionamentos superficiais, mascarados, quebrados, interrompidos. Almas angustiadas, feridas, solitárias, mesmo estando rodeada de pessoas. Gente sem conteúdo, sem identidade, buscando ídolos, referenciais fora porque os da própria casa morreram, não dialogam não se percebem e ainda os ensinam a mentir e a representar com um simples pedido quando o telefone toca: _ Diga que não estou! Gente sem conhecimento de si. Sem amor próprio, sem amor pelo que se é! Gente vendendo suas almas, seus corpos, ao que se diz: bel prazer; mas ao amanhecer permanecem ali, sujeitos, sem objetivo, sem direção, sem rumo, sem perspectivas e sem identidades.

 

                  E como cantou o poeta: ... Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação.; é exatamente assim que caminha a geração. É comum ouvir as pessoas falando sobre baladas, festas, drogas, futebol, moda, aventuras... Mas ninguém fala de si, do que os leva a se comportar assim. Do que precisam. Do que sua alma tem sede. Do que sua alma busca. Ninguém conhece ninguém. Cada um com sua máscara no palco da vida representando o existir, disputando quem é o melhor e quem pode mais.

 

                  Os dias passam, mas as feridas ficam. Chegam então ao consultório e dizem: _ Dr. Tenho uma dor aqui. Aponta com o dedo. Já fiz todos os exames e não deu nada. O medico disse que é emocional. Como pode ser emocional se eu sinto no físico?

 

                   A ALMA DOI; O CORPO SENTE!

 

                  Cada dia aumenta mais o numero de pessoas com sintomas, doenças somáticas. Quase 80 das pessoas que são medicadas por causa de enfermidades sentidas no seu organismo, não sabem a etiologia da sua doença. Se tivessem aprendido a se expressar, a trabalhar as angustias da alma, trabalhar seus sentimentos, se comunicar, se conhecer, a não levar as cargas, as culpas que não são suas, a administrar a ira, a raiva, o ódio, a inveja, a angustia, a decepção, a traição, o medo, as perdas, o rancor; hoje estariam livres da depressão, de tumores, de síndromes, da dependência química, da delinqüência juvenil, das patologias sociais... .

 

                  Sempre resolvem seus temores na mesa de um bar, sufocando assim o grito e o lamento de uma alma faminta de amor. Não que divertir não faça parte das nossas historias, mas saber se alegrar e divertir sem a necessidade de se mascarar e de representar, faz bem a alma e ao corpo.

 

                  É tempo de cuidar de si. É tempo de olhar para si. Não com um olhar egoísta. Mas olhar para reavaliar.

 

                   Como andam seus relacionamentos? Quantas pessoas conhecem você verdadeiramente? Quantos amigos de verdade você conquistou? Pessoas que você entra no mundo delas e elas no seu? Com quem você compartilha seus temores, sua existência? Em quantas pessoas você confia, e quantas pessoas podem confiar em você? Em quantos ambientes você entra sem ter que mascarar seu eu verdadeiro? Quão feliz você tem sido na trajetória do seu existir?

 

                  Talvez as respostas para todas estas perguntas estejam na forma como você tem gastado os seus dias e em como você tem construído seus relacionamentos.

 

                  Eu os convido a mudar hoje! Decida se revelar! Decida cuidar de você! Decida conhecer você! Decida prestar atenção em você. Decida perceber o outro! Decida valorizar o outro. Decida compreender o outro, não interpretá-lo. Decida amar você! Decida amar o outro.

 

                  Dê um passo para liberdade e para a paz interior. Só você pode fazer isto por você. Decida fazer este percurso mesmo que para isto você tenha que perder algumas coisas, afinal o mais importante é não se perder de si próprio, e fazendo isto as pessoas o amarão de verdade, pois amar uma mascara é só uma questão de tempo.

 

                  Decida FALAR!


Hercílio Júnior

Hercílio Júnior

Graduação em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás.
Especilizações nas áreas de Psicologia Jurídica e Psicanálise Clinica.

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Lista de Comentários

KARINA BALLERINI DE LUCA
26/11/2006 08:13

ADOREI!!!!!!!!!!1

Juninho, meus parabens pelos seus artigos, vc não só é lindo como tbm tem uma luz especial. Gostaria muuuuuuuuito de poder conversar mais com vc. karina