Publicado em 06/07/2007 23:12

A beleza do ser

As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Esta frase de Vinícius de Morais ficou famosa e causa

As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Esta frase de Vinícius de Morais ficou famosa e causa polêmica até hoje. Mas, o que é beleza? Para o Dicionário Aurélio, é: muito agradável, muito gostosa. Às vezes, pode gostosa e não ser bela ou vice-versa.

A graça feminina muda com os tempos e hoje, por exemplo, é muito questionável a beleza das modelos. Acho magras demais. Não gosto.

Ao contrário da beleza, tem a feiúra. Quem são as feias? São aquelas, a quem o poeta pede perdão. A escritora Raquel de Queiroz é bem mais complacente, quando diz: se você ainda tem olhos para enxergar feiúras no seu suposto amado, se tem a cabeça para lhe descobrir defeitos, é porque não ama.

Também penso assim. Na verdade, não acho ninguém horrível. Penso que existem realmente as belas, fantásticas, desenhadas a pincel, que fogem a qualquer padrão de normalidade e as outras, as normais. Umas mais bonitas, outras menos, mas nenhuma feia em demasia.

Vamos transportar a discussão para o mundo animal. Sou apaixonado por animais. Fico horas contemplando um pássaro. São os mais lindos do reino, sem dúvida. Neste campo, me desculpem as fêmeas, mas os machos são mais bonitos. Vejam as penas coloridas do galo, do marreco, do faisão, do pavão...

Agora, tem uma ave que eu tento ver beleza nela e não consigo. Pode ser que seja influência de sua má-fama de agourenta, de maus presságios. É o urubu. Quando estou pescando os observo com maior atenção. É que lá, eles chegam mais próximo em busca de comida. Normalmente a gente joga resto de peixes e, vem eles e vários gaviões para disputar o petisco. Carcarás são os mais comuns.

Os urubus vão chegando, pousam numa árvore próxima e descem para o chão. Quando em terra não caminham, mas dão uns pulinhos, como querendo chegar mais rápido. Brigam pela comida. Observo, procuro ver beleza, mas, suas penas negras não brilham. São magros, esqueléticos. A cabeça é feia e o bico não é gracioso. Uns são de tudo preto, outros possuem a cabeça vermelha. São úteis, mas não belos.

Lá no Lago Sereno, no Rio Cristalino no Mato Grosso, tem, inclusive, um manqueba. Caminha arrastando uma das pernas. Sempre que ele se aproxima, vem um outro e o repele com violência. Ele então voa para longe, para voltar em seguida. Não são todos que o discriminam, mas apenas um.

Outras vezes observo-os lá nas alturas. Voam em círculo, que vai mudando de lugar, como se fosse uno. Não batem asas, planam no ar. São verdadeiras asas deltas levadas pelo vento. É gostoso. Para o Aurélio, beleza é ser gostosa. Fico horas e horas contemplando-os. Acho lindo. São lindos.

Igual na história de Bariani Ortêncio. O Velho despertava antes dos urubus e saía para o relento de orvalho, reparando o horizonte, o clarear, os bichos preparando para levantar vôo. Quando chovia a noite, eles ficavam esperando o sol sair e, como velhas rezando, asas abertas, enxugavam as penas. Não se fechavam para o nascente, como nos outros dias. Voavam em círculos sob o domínio dos olhos do velho, galgando as alturas no bater das asas, procurando as camadas de ar favoráveis, e planavam por muito tempo, sem perder altura. Um ou outro punha-se em formato aerodinâmico, as asas em V, e mergulhava para o solo num zumbido estridente, descrevendo, depois, curva ascendente. Era o espetáculo para o velho amigo, que se embevecia.

Por este lado, vejo que são bastante bonitos. Graciosos e elegantes. No ar não há ave mais bela do que urubu. Dizem, que o amor cega. Que, para quem ama, o feio, bonito lhe parece. Para a coruja, os filhotes mais lindos da natureza são os seus.

Não é verdade que o amor provoca cegueira e nem que o feio se torna bonito, para quem ama. Na verdade, o amor possibilita a visão da beleza que todos possuem, mas que somente quem ama vê.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

neimar carlos
12/07/2007 11:14

viva o ser

Davi Isaias brilha com seu rico conteúdo existe um teor cultural tremendo no seu texto, e para finalizar deixo um fragmento de Manuel Bandeira: Se queres encontrar a felicidade de amar esqueça sua alma, a alma que estraga o amor, deixa seu corpo envolver com outro corpo, os corpos se entendem, as almas não.