Publicado em 25/02/2008 09:12

A égua de raça

Quando aquela professora entrava na sala de aula, parecia uma égua de raça, de tão imponente e bonita.

Quando aquela professora entrava na sala de aula, parecia uma égua de raça, de tão imponente e bonita. Quase todos os alunos a admiravam (principalmente, lógico, os rapazinhos). Ela tinha um jeito especial de andar, de falar, de cruzar as pernas quando se sentava... Os alunos machinhos diziam que ela era um colírio para os olhos. Já as meninas achavam a professora uma exibida.

Ah, perdão. De olho na egüinha, quase me esqueço de explicar: ela lecionava português.

Durante uns tempos, a matéria de português andou às maravilhas naquele colégio. Entretanto, um diretor recém-chegado botou olho gordo na tal professora: "- Que gracinha! Por que a gente não sai junto numa noite?"

A situação se complicou. A moça queria dar aula e não dar para o diretor. Uma diferença enorme. Vai daí, o recusado conquistador começou a exigir que todos os exercícios corrigidos pela "bonitona" (como passou a chamá-la) fossem à sua mesa para avaliação. E discordava das correções da professora, marcando com interrogações de tinta vermelha. Se o aluno escrevia cuspiu no prato que comeu e ela corrigia para cuspiu no prato em que comeu, o diretor riscava a segunda hipótese. Outro aluno pôs record no trabalho, que a professora corrigiu para recorde. Novamente o comandante da escola discordou, anotando que a palavra é inglesa e todos da TV Globo pronunciam "récord". A perseguida mestra afirmou que a Globo estava errada; mostrou o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, de Francisco da Silveira Bueno, editado pelo Ministério da Educação, onde se registra o seguinte: "Recorde, s.m. Primazia; primeiro lugar numa classificação...; (Recorde é forma legitimamente portuguesa)".

A coitada também se zangou quando, em outro caderno, viu a frase "o serviço começou de 4h", que corrigira para "às 4h" e o chefão desconsiderou. Inconformada, ela ficou braba: "- Como é que o senhor interpretaria se eu lhe dissesse, em vez de levantei às 4h, lhe dissesse levantei de quatro?"

O bonitão afastou do cargo a revoltada, que chorou muito no primeiro dia. No segundo, a fêmea de raça enxugou as lágrimas e reclamou na Secretaria de Educação, conseguindo que uma comissão analisasse a sua competência no magistério. Deu certo pra ela; já o diretor deu com os burros nágua, sendo transferido para outro município. Ele, que gostava de cortejar professoras bonitas, passou a desprezar as gostosas. Afinal, cachorro mordido por cobra tem medo de lingüiça.

A égua de raça, para felicidade geral, continuou ensinando e encantando os garotos no mesmo curral.

Como é bom aprender português!...

Valdemes Menezes

Valdemes Menezes

Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco Voador
Radicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.

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Lista de Comentários

placidina Lemes Siqueira
06/06/2008 21:07

"Invasão do Brasil" deveria ser reeditado para...

Invasão do Brasil deveria ser reeditado e distribuído em todos os países que falam a língua portuguesa e numa versão em outros idiomas com distrbuição no mundo inteiro. A biografia do autor? Seria feita pela Júlia, sua mulher; eu cooperaria na revisão gramatical. Placidina Lemes Siqueira - placi.dina@hotmail.com - 06/07/2008
Carlos Eduardo
25/04/2008 19:03

Francamente

Literatura de idoso que escorrega pela cama da não-poética. Isopor maior que uma redação infantil. Onde está a arte? Já sei! Foi à Europa!
Rogério Antonio Rezende
23/03/2008 17:25

Maravilhosa Crônica

São pessoas cristicas e criativas que elevam a arte! O Sr. foi fascinante no texto desenvolvido. Valeu!!! Continue Criativo!!! Cordialmente Rogério Rezende www.rezendeaires.com.br
ILSON REIS
29/02/2008 19:57

Excelente Artigo!!

Gostei do seu artigo, Valdemes Menezes, alguns chefes acham, que são donos do mundo e pode assediar as suas colaboradoras no seu local de trabalho, e acham que elas vão se submeter aos seus caprichos, mas está professora, foi honrada e soube contornar a situação ao seu favor!