Publicado em 23/07/2007 17:13

A VIAGEM

A primeira vez que fui conversar com o Abelardo, fiquei desapontado...

A primeira vez que fui conversar com o Abelardo, fiquei desapontado. Falo do pai, vereador por nove vezes. Era assim que eu falava. Um dia ele me confidenciou que gostava da maneira que eu o tratava, Abelardo Pai. Não apreciava a maneira que outros diziam, Abelardo Velho. É que, sendo dois, como diferenciá-los? Então ficou assim: Abelardo Pai e Abelardo, o prefeito. Conhecia-o desde quando eu era menino. Em Inhumas, quem não o conhecia? Mas, conversa mesmo, foi a primeira.

Eu era estudante de Direito e o José Pacheco, presidente da Subseção da OAB. Corria pelo país, a campanha pelas eleições diretas para Presidente da República. Diretas Já, era o lema. Como a OAB era uma das signatárias do movimento, o Pacheco me chamou para fazermos o trabalho em Inhumas. Planejou umas visitas às autoridades. A primeira delas foi ao Abelardo, então vereador. Nos recebeu cordialmente em sua casa. Depois de rápido colóquio, o Pacheco lhe explicou o motivo de nossa visita e o conclamou a levantar conosco aquela bandeira. Ele foi rápido no gatilho:

- Pacheco, topo não. Se tiver eleição direta, quem ganha são os PTs - e explicou - o Brizola, o Lula. Quero não. Gosto demais de meus filhos!

Conclui meu curso, fui trabalhar como advogado. Muito tempo depois, o Abelardo, o filho, rapaz novo, tornou-se advogado também e foi trabalhar comigo no escritório. Naquela época o Mezach, meu irmão, foi candidato a vereador pelo PT. Pedi voto para o Abelardo, o filho. Este consultou seu pai, que respondeu: Você tem que votar em quem está lhe dando a mão. Vote no irmão do Davi.

Fui presidente da Subseção da OAB por três mandatos e o Abelardo Filho participava da diretoria, inclusive, numa destas como vice-presidente. Depois ele foi eleito prefeito de Inhumas e eu seu vice.

Com tudo isto, meus laços de amizade com Abelardo, o pai, foram se estreitando. Com tantos anos na política, sua vida tornou-se um manancial de causos. Publiquei recentemente uma crônica sobre ele, mas poderia publicar várias. Um dia ele me contou, sentado no banco, enfrente a Panificadora Santana do amigo Washington, como fazia campanha para vereador. Na época, a população urbana e rural se equivaliam. Ele gostava de pedir votos na roça. Chegava na casa do camponês e já ia dizendo:

- E aí, cumpade, como foi a luta hoje?

- Dura, cumpade.

- Cumpade, tenho um pinga boa aqui.

- É mesmo?

- Traga um copo.

A pessoa trazia o recipiente, ele punha uma talagada, dava para o sujeito que bebia a metade e ele bebia o resto. Saindo, ainda escutava.

- Sê viu, mué? O home é sem seca memo. Bebeu meu resto. Cuma qui num votá nele?

Companheiro, isto é o que ele era. Bom vereador tinha que tirar gente da cadeia. Certo dia a polícia prendeu um seu compadre por excesso etílico. Foi chamado e atendeu de pronto. Ponderou à autoridade que liberasse o homem. Este estava relutante, e dizia que era por causa da reincidência. Também não poderia desmoralizar os policiais. Que tivesse paciência, que de manhã o preso ia embora. Ele não se abateu e falou:

- Tudo bem, doutor. Não quero interferir no seu trabalho. Mas eu posso ficar aqui no corredor?

- Perfeitamente.

Ele saiu, comprou uma garrafa de pinga, colocou debaixo da blusa e voltou. Foi até a cela do amigo. Sentou no chão do outro lado da grade. Tirou a água que passarinho não bebe e disse:

- Cumpade, tirar você eu não consegui, não, mas vou passar a noite aqui com o amigo - abriu a garrafa, tomou uma golada e a passou para o outro, que fez o mesmo. Assim foi até o dia amanhecer e os dois foram para casa.

No último dia 16 o Abelardo Pai viajou. Ele me confidenciara que iria visitar uns amigos que há muitos anos não via. Estava com saudades.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

Cristiano M. da Silva
30/07/2007 03:00

um outro título

Então, Dr. Davi, desta vez farei coro do lado das opiniões desfavoráveis. Entretanto, tal qual um advogado do diabo. Daquele mesmo diabo narrado por Machado de Assis, em suas Histórias sem Data e outros contos. Machado que aliás tinha certa opinião incontestável sobre os títulos de textos. Curiosamente minha oposição aqui anunciado é justamente quanto ao título que poderia ser um outro melhor: Uma viagem. E, esta sugestão aproveita a carona de Machado para não dar explicações sobre si mesma. Contudo, que bom seria se todo inhumense pudesse ser homenageado assim, pela viagem que realmente nos interessa, essa viagem em que a pena do poeta nos faz imortais. Que bom seria se todos nós pudéssemos fazer essa viagem de poeta, para suportarmos a falta de quem se vai. um forte abraço! Elogiar o texto seria cair na banalização da redundância.
Davi Isaias
26/07/2007 21:58

a viagem

Obrigado pelos comentários. Para quem escreve, é sempre importante ouvir a opinião dos outros. Não só as favoráveis, mas, inclusive, as contrárias. Grato a vocês que leram e comentaram.
jose ralfo da silva
24/07/2007 21:22

a viagem

prezado companheiro! com certeza sua narrativa sobre esta viagem nos deicha taciturnos quanto ao nosso embarque mas infelismente esta viagem e inevitavel um dia estaremos fazendo parte desta listagem e vsa demostra muito talento em narrativas desta natureza, gostaria muito de ouvir algum fato folclorico sobre o legendario homem de bronze (doreli jose garcia ) tendo em vista ser ele muito conhecido em nosso meio sempre ostentando o nome desta conceituada cidade . obrigado por ter se lembrado da minha pessoa estarei sempre atento as suas mençoes. jose ralfo
Leonardo Daniel Ribeiro Borges
24/07/2007 09:08

Saudade

Bela crônica do Dr. Davi. Todos nós partiremos um dia e o que fica é a saudade, a amizade não morre com o corpo e lá do outro lado que o descanço venha em forma de luz, paz e esperança. Também fiquei triste com esta despedida e eu que não conhecia muito sobre a vida do Abelardo, Pai pude saber mias sobre o bom homem que foi.