Publicado em 10/09/2007 15:50

AMANDO EM SETEMBRO

Envolto numa névoa estranha, estava acontecendo. Naquela data, não me deixou quieto nem o velório de minha...

Envolto numa névoa estranha, estava acontecendo. Naquela data, não me deixou quieto nem o velório de minha avó paterna, que morreu louca. Meu quarto ficava num palácio, com pajens e tudo. Não me importei com o ambiente fúnebre, nem liguei para os nobres que chegavam para bajular meu gordo pai.

Cada vez mais estranha, a névoa me inquietava e me enchia de saudade... saudade daquela bailarina do Teatro São João, no Rio, a loira francesinha Noemi. Ela é fogo!

Às oito horas da noite bati palmas no quarto. Entrou o criado e eu lhe disse, em voz baixa, para trazer a minha capa negra e o meu chapéu de abas largas. Vendo que eu ia sair, ele me advertiu, com respeito, que a minha saída seria um escândalo... melhor usar o alçapão da Sala dos Pássaros, disfarçado no assoalho, sob um tapete. E usei o alçapão, saltei para o andar térreo, abri uma das portas do fundo e me mandei pra a rua.

No Largo do Rocio, num sobrado, uma luz acesa lá em cima (é o quarto dela!). Bati na porta. Noemi surgiu na sacada; gesticulei para abrir a porta. Ela já conhecia minhas doidices. Pouco depois eu me entreguei nos seus braços e nos amamos. Ela, pequena, fascinante e doce. Eu, com dezessete anos de idade, fogoso no meu primeiro amor.

Meu pai, um rei, descobriu, e tratou de arranjar um tenente da sua guarda para se casar com a Noemi; despachou os dois para Pernambuco. Ao saber, sofri um ataque.

Outra névoa. A loirinha francesa Noemi me machucou muito, mas, obrigado a respeitar meu pai, acabei me casando na Áustria, sem nunca ter ido lá, apenas representado pelo arquiduque Carlos.

Meus passos parecem lentos. Devem ser em direção à minha mulher austríaca, aquela que querem que eu ame e que me ajude a dirigir o meu reino.

Mais névoa e mais tempo que se passa. Estou de espada na mão, apesar de ter vivido encontro de amor, em setembro de flores brasileiras. Apesar de nascido em Portugal, prefiro, ei!, prefiro a causa brasileira.

Pulando da cama, levei o maior susto: sonhei que eu era D. Pedro I, filho de D. João VI e neto de D. Maria I, a louca, rainha de Portugal. Sonhei que amei e escolhi o Brasil, só me deixando decepcionado, hoje, certos jovens de boné na cabeça que ouvem sem reverência nosso imponente Hino Nacional.

Valdemes Menezes

Valdemes Menezes

Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco Voador
Radicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.

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