Publicado em 18/11/2006 11:06

Como enganar o IBAMA

Brasileiros, tremei, porque o caso a seguir é de arrepiar; principalmente para quem ama o Brasil.

1ª Cena: as verduras

Às 23 horas de uma segunda-feira, cinco caminhões carregados de verduras, cada um por si, partem de Anápolis. Hilas (nome imaginário de origem grega, que significa bosque, madeira) não tem parceiro; dirige sozinho. Todos vão se encontrar em Jaraguá, num posto de gasolina. É o início de penosa viagem ao Pará. No posto de gasolina de Jaraguá (GO) tomam "rebite" (cada um ingere quatro ou cinco comprimidos de Duralit, com água mineral com gás ou conhaque; evitam a cerveja, porque qualquer bebida alcoólica gelada corta o efeito. O medicamento é vendido mediante receita médica nas farmácias, e normalmente indicado para pessoas obesas, um comprimido por dia. No entanto, informa o motorista Hilas, qualquer posto de gasolina de estrada fornece a droga, vendida a quinze reais por vinte comprimidos).

Embalados pelo rebite, os caminhoneiros vão cumprindo seu trajeto em Goiás: Goianésia, Barro Alto, trevo de Uruaçu, Campinorte, Santa Teresa, Porangatu... às 6 horas da manhã de terça-feira vão parando em Talismã/TO, para carimbar a nota fiscal. Distantes uns dos outros, eles prosseguem: Gurupi, Aliança... acelerando até o posto fiscal de Fátima, para outro carimbo de nota e... epa!, o caminhão é para carga máxima de 15.000kg, porém, cada veículo está com quase 18.000kg de verduras. O fiscal deixa passar (ufa!), porque a balança não registra o peso; é a tal de "balança solar", comum no Tocantins, que só funciona se houver sol; como no horário o bendito estava encoberto, a balança ficou comportadinha.

Próxima parada: posto de gasolina de Guaraí, para outro rebite.

Duas da tarde, Paraíso do Tocantins. Ali, sim, estacionam para esticar as pernas e comer. "Apenas para não doer a boca do estômago", conta Hilas, porque, em face do efeito da droga-remédio, ninguém tem fome, nem preguiça, nem cansaço, nem sono.

A viagem continua. É preciso abastecer. Chegam a Nova Olinda, ainda no Tocantins, por volta de oito horas da noite. Conforme o determinado pela empresa, o momento de chegar ao destino, o Pará, está vencendo. E pela primeira vez os choferes ficam cansados. É necessário se alimentar... e cada um tomar mais 3 rebites. É o que fazem em Nova Olinda.

Fortalecidos, e dirigindo os veículos a quilômetros uns dos outros, rumam para Araguaína/TO. Passam por lá quase no fim do "Jornal Nacional", da Globo, antes das nove da noite, único horário apropriado para evitar o policial rodoviário Fonseca, que todos temem (ele só se desgruda de seu posto, às vezes, para assistir o Jornal. Não quer se aposentar, não aceita propina, veículo com excesso de carga é retido e não permite "transburgos", isto é, transferir o excesso de peso para outro veículo; e outra: ele pára caminhões até debaixo de chuva).

Prosseguem a Darcinópolis, com as cabeças dominadas pelos rebites, seguindo na rodovia Transamazônica, sentido Tocantins/Pará. No posto fiscal da Ribeira/PA negociam a NF por cem reais, para não se recolher a 2ª via da NF.

Liberado, Hilas toma o rumo de Marabá/PA, agora com outro receio: o de ser assaltado, pois o roubo de carga na região é comum, principalmente nos 25 quilômetros de estrada de chão, com subidas fortes. No entanto, Hilas continua firme no volante, porque acredita na proteção divina.

A preocupação continua. Está próximo do horário de entregar a carga de verduras. Mas ele consegue chegar ao destino na madrugada de quarta-feira, por volta de 02h40. Começa a descarregar às sete horas da manhã; termina ao meio dia.

Final ? Ainda não. Mulher ? Nem pensar; não dá tempo nem sobraria dinheiro.

2ª Cena: a fruta proibida

Depois de almoçar num posto de gasolina, início de nova e difícil aventura. O caminhoneiro liga a uma madeireira, perguntando se a "fruta proibida" está pronta; com a resposta de um "sim", nosso amigo vai pegar madeira no "Gaúcho", a 240 quilômetros de Marabá, em estrada de chão. A "fruta" é a castanha-do-pará, que não pode ser derrubada. E lá vai ele, o Hilas, e carrega (convindo lembrar que o peso de seu caminhão, a tara, é de 7.500 quilos, ou 15.000 quilos brutos, com total de 22.500 quilos. Absurdamente, entretanto, nosso amigo caminhoneiro aceita transportar, por ordens de seu patrão empresário, 28.000 quilos líquidos da madeira proibida, num total de 35.500 quilos, ou seja, tonelagem para carreta e não para caminhão-truque (haja maltrato para as rodovias!).

Às quatro da tarde o caminhão está carregado. Mas não sai da madeireira. Hilas espera anoitecer. Só às 22h00 toma o rumo de Marabá, quando, no trecho, não existem fiscais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

De Marabá a Ribeira, com rebites no organismo e negociação com algum fiscal, o transportador leva dois documentos: uma falsa TPF (a nota emitida pelo Ibama) e uma nota fiscal da madeireira registrando o produto, ora como "guajará", ora como "massaranduba", quando, na verdade, debaixo da lona, a madeira é a castanha-do-pará.

Hilas consegue negociar o retorno: pagando cem reais, carimba-se a nota tendo por destino o Tocantins; atravessa de balsa em Esperantina/PA, onde, conforme ele, "fura" o posto fiscal, sempre temendo a polícia ambiental. Mais adiante, em Votorantins, ele pára, desce do caminhão... e não carimba a nota; ele se aproveita do tumultuado número de transportadores, achando os fiscais que o seu documento já fora conferido.

Outra vez esperando anoitecer, em Darcinópolis/TO. Temendo o Ibama, esconde o caminhão com a preciosa carga nos fundos de um posto de gasolina. À noite ele zarpa, alcançando Araguaína. Como sempre, com receio do incorruptível policial Fonseca. Liga o radioamador (os veículos da empresa são equipados com esse aparelho), perguntando ao colega de trecho "se os botas-pretas estão dando borrachadas", isto é, prendendo. Se a resposta for "negatocha" é porque pode seguir. Deu negatocha.

No resto do trajeto, invariavelmente à noite, é parando e seguindo, parando e seguindo, para descansar o pé do acelerador. Sempre sem mulher.

Hilas garante que todo posto fiscal do Tocantins é "furado", ou seja, consegue evitar conferência de mercadoria e carimbo na nota fiscal.

O final é Brasília. Lá, acostumado às idas e vindas, conta que o Pará é um Estado sem lei, onde a propina é possível, ao contrário do Tocantins. Esclarece que o dono da madeireira só vende a castanheira à vista, ciente do risco de perder a fruta proibida para o governo. Ele acha que, se o Ibama quiser agir com eficiência contra as derrubadas irregulares dessa madeira nobre, deveria ir direto às madeireiras, preferencialmente. Apesar de ter ouvido dizer que também alguns fiscais embolsam grana de madeireiras para liberar as proibidas castanheiras.

Enfim, baseado nos fatos que o Hilas me contou, urge separar o joio do trigo, eliminar a erva daninha, fortalecer o bom caráter com a dignidade dos homens de bem, e castigar os corruptos endinheirados, não com a cadeia, mas com a tomada de seus bens. Muita coisa iria endireitar neste rico Brasil.

Valdemes Menezes

Valdemes Menezes

Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco Voador
Radicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.

COMENTÁRIOS

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Lista de Comentários

werrtylannaf
20/10/2008 15:24

sei não

boa tarde? quando eu crscer vou ser fiscal do ibama. e tenho 11 anos, se alcalme q já estou chegando dr. valvedemes....
Luciano Silva Roriz
23/11/2006 20:10

Viagem pela literatura

Boa noite, caro Dr. Valdemes ,de antemão te parabenizo pelo título de cidadania dado pela Câmra em Goiania. Mas tuas histórias nosl evam pelo universo da boa Literatura que nos dias de hoje floresce em poucos, é uma viagem gratificante em meio a tantos dissabores a atualidade, ah gostaria de saber se pode ler o sintético trabalho que lhe entreguei ha alguns meses? Gostaria de ouvir sua valiosa crítica.Parabéns pelo texto sobre o IBAMA!! Prof. Luciano Silva Roriz
DAVI ISAIAS
22/11/2006 07:49

COMO ENGANAR O IBAMA

Doutor Valdemes, só não acredito que o homem fez esta viagem toda sem mulher. Sem dinheiro... doutor!...