Publicado em 16/08/2006 13:41

DIAGNÓSTICO: BATEDEIRA

Quando criança nos cultivávamos uma horta, cujas verduras eram vendidas nas ruas...

Quando criança nos cultivávamos uma horta, cujas verduras eram vendidas nas ruas de Inhumas, para ajudar no sustento da prole e, criava porcos e galinhas para complementação da renda familiar, que era bem pequena, diga-se de passagem.

Embora eu ajudasse na plantação, o cuidado com os animais ficava ainda por minha conta, muito mais por gosto, que propriamente por obrigação. Creio que surgiu daí, meu esmerado entendimento sobre criação de porcos, dificuldades e doenças. Penso até em escrever um livro a respeito do tema.

Diagnosticar a doença de um porco não é difícil (espero que nenhum veterinário leia), é mais ou menos igual gente. Aliás, meu pai, quando matava um capado, quando estava com ele aberto, cuidando das vísceras, sempre filosofava: Matarás um porco e conhecerás teu corpo.

A comparação com humanos é porque, quando alguém morria sem assistência médica, o que era o mais comum na época, a resposta, diante da pergunta óbvia nestas ocasiões: morreu de que?, era sempre a mesma: morreu de repente. Eu ficava encabulado com a capacidade matadeira dessa doença, DE REPENTE. Como morria gente de repente. Morria muito mais gente de repente, do que morre hoje de enfarto. Mas este não é o meu assunto de hoje, estou divagando. Volto ao tema.

Eu falava da doença que mais mata porco, principalmente capados, em especial os de meia-ceva. Isso naquele tempo, porque confesso que estou meio desatualizado, e, evidentemente que me refiro a porco caipira.

Doença que mata caipira não é a mesma que mata os da cidade. Caipira morre até de verminose. Volto ao tema de novo, senão vão pensar que estou falando de música.

Quando um porco adoece no chiqueiro, principalmente se está um pouco gordo (não estou falando de futebol), meia-ceva, como se diz, a gente dá uma olhada e logo diagnostica: é batedeira. E é batedeira mesmo. O animal fica com a respiração ofegante e seu torax fica assim batendo compassadamente, como se tivesse recebendo marteladas vindas do seu interior.

Batedeira, na verdade, é rinite aguda seguida por uma atrofia crônica dos cornetos e deformidade facial, tendo como agentes patológicos as bactérias Haemoplilus bronchiseptus (Bordetella bronchiseptica) e em menor escala, Pausteurella multocida tipo B. Caso o leitor esteja pensando que eu não sei essas coisas, está redondamente certo, porque, quem me passou essas informações foi o amigo médico-veterinário José Francisco.

Certa feita, nós já morávamos ali na Vila América, enfrente ao Juarez da TELEGOIÁS e minha mãe veio me dizer que havia um porco doente no chiqueiro. Fui visitá-lo e procedi o exame cuidadosamente, como deve ser. Olhei os olhos, a boca, pedi que pusesse a língua para fora etc. Quando fui auscultar seu coração com a própria mão (você não queria que eu tivesse estetoscópio!), não tive dúvidas, era batedeira. Fui à loja e comprei as injeções apropriadas.

Quando fui ministrar o medicamento, não achei ninguém disponível para auxiliar-me e tive que me virar sozinho mesmo. Para facilitar a recuperação do paciente, fugir da friagem de seu habitat, ele estava solto no quintal. Aproximei-me dele e vi que estava realmente mal. Respirava com dificuldade. Como seria fácil dominá-lo por causa de seu estado de saúde, levei a mão para segurá-lo pela perna, mas, para minha surpresa, ele saiu num carreirão de fazer medo. Preguei atrás e, corre daqui, corre dali, ele muito gordo, cansou e eu o peguei e fiz a injeção indicada. Terminei e o soltei e ele não se levantou, deu um suspiro e morreu.

Quando cheguei dentro de casa, alguém me perguntou pelo porco. Respondi que havia morrido.

- Morreu de que?

- De repente - respondi.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

Eduardo Rolemberg
04/02/2009 10:13

batedeira

Gostaria de saber mais detalhe de como tratar a batedeira.
obrigado