Publicado em 21/12/2008 11:33

É outra história

Ele segue visivelmente cansado, arrastando pelo cabresto o jumento, que serve de transporte para a mulher buchuda. Por onde passa cruzando entre os carros, ouve-se o som ensurdecedor das buzinas. Povo sem educação esse da cidade grande, pensa contrariado.

Ele segue visivelmente cansado, arrastando pelo cabresto o jumento, que serve de transporte para a mulher buchuda. Por onde passa cruzando entre os carros, ouve-se o som ensurdecedor das buzinas. Povo sem educação esse da cidade grande, pensa contrariado. Não desiste, haverá de encontrar algum lugar decente.

Ela vai em cima do animal, aborrecida. Está enfastiada em demasia. Também pudera, já andaram tantos quilômetros. Que marido mais teimoso aquele dela. Só aquela cidade serve, outra não. Tentou por várias vezes que parassem nalgum povoado, mas ele não concordara. Não, mulher de pouco fé, por ventura não sabes que está escrito que será em Belém? Agora aquela barulheira de carro, o povo nas calçadas rindo deles! Aquele cansaço! O medo de ser atropelada a toda hora! Que coisa! Que sina!

Finalmente parece ter encontrado. Aparenta ser bom. Ele puxa o asno que sobe na calçada, mas não quer pisar na grama. Não pise na grama, diz a tabuleta. Ele insiste, zanga com o animal, mas este resiste. Empaca. Dá-lhe uma chicotada na anca e ele finalmente obedece. É amarrado em um pinheiro do jardim. Você fica aí em cima me esperando, diz à mulher. Se ela pudesse descer, deitaria ali mesmo na grama, com aquele barrigão. Não teima, no entanto. Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vossos próprios maridos.

Ele caminha rumo ao hotel. É um prédio muito grande. Olha para cima e fica encantado. Quantos andares? Só contando. Nunca vira nada igual. Como é alto! Avança pela passarela e penetra no prédio. Ainda na porta de vidro, que para seu espanto, abre sozinha como num passe de mágica (ou será milagre?), um porteiro vestido a caráter (para ele, um soldado), o interpela. Diz que quer se hospedar ali. Pensa em barrá-lo, mas não é de sua competência decidir quem hospeda ou não. Encaminha-o ao atendente, que fica visivelmente impressionado com sua vestimenta estranha e acima de tudo, suja da longa viagem. Pelo visto não poderá pagar pela hospedagem. Para desestimulá-lo sem ser deselegante, fala o preço à vista sem o desconto de praxe. Para seu espanto e desgosto, não discute, aceita-o com humildade. No entanto, mesmo que pague, não poderá ser hospedado naquele hotel. Será desagradável para os turistas vindos de longe. Melhor seria dizer que está lotado. Então dirá: não há lugar para eles na hospedaria. Mas não cabe a ele, decidir que fica ou não. Melhor chamar o gerente.

O gerente é acionado e vem imediatamente. Fala cortês com o viajante. Explica a impossibilidade de atendê-lo. Fica preocupado porque ele não reclama. Se descobrir que tem vaga e não fora aceito, poderá trazer complicações. Estas coisas de discriminação, que hoje em dia anda em voga. Quem sabe, busca é isso mesmo, motivos para entrar com uma ação de indenização por danos morais! Os outros hóspedes que aguardam atendimentos, alguns até falando em inglês, demonstram surpresa e desagrado com o aspecto esquisito do homem. Impacientam-se com a demora. Como decidir? Melhor chamar o dono.

O dono é acionado e vem imediatamente. Procura ser educado. Indaga seu nome, ele diz se chamar José. Pede para ser apresentado à sua esposa, como forma de saírem do recinto, para conforto dos clientes. Vão até o jumento, que parece não gostar do elogio que lhe faz. Também deve estar exausto. Olha para a mulher e pergunta com ironia, se se chama Maria. Para seu espanto, responde que sim. Um homem chamado José, puxando um jumento que carrega no lombo uma mulher grávida chamada Maria, nos dias de dar à luz. Ainda por cima, é dezembro! Um pinheiro! Hum!

Volta para dentro do hotel e cochicha com o gerente. É para providenciar para eles a Suíte Presidencial. Este, assustado, confere na lista e Informa que está reservada para um estrangeiro que está prestes a chegar. Cancela! Decreta. Não discute. E com o animal, o que faço? Permanecerá amarrado no jardim? De maneira alguma. Leve-o para minha fazenda e mandem tratá-lo o melhor que puderem. Dêem-lhe da melhor cevada. Nem o garanhão deve ter trato superior! E tem mais, providencie roupas limpas para o casal, mas não mude o estilo. Quanto à mulher, veja uma maternidade, para que possa dar à luz com dignidade. Vou ligar no CAIS imediatamente. Ficou louco? Não serve. Tem que ser a melhor da cidade, custe o que custar. Mas senhor!

Diante da estupefação do gerente justifica-se. Você é muito jovem para entender. Estamos mudando a história.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

mara arantes
11/12/2009 04:34

o canto do pracista

olá Davi, vc advogou para o meu pai. Estou escrevendo a história da vida dele.gostaria muito que vc lesse. Pois como advogado vc sabe que o sr. nelson arantes foi um homem que morreu íntegro. ficarei feliz de vê-lo acessar meu conto. mara