Publicado em 29/05/2006 17:51

Família Ambiciosa

Continuação das desventuras em série de Olympio Faissol Pinto.

Família Ambiciosa

 

Marina, Arakén e o sonhador do espaço. Os três irmãos recebem forte influência de Olympinho e Martha. A vida na casa é marcada por dois estilos: o da família Faissol, da mãe, de tradicional queda para o sucesso e o poder, conseguindo as coisas com determinação e cavalheirismo; e o do pai, da família Domingues Pinto, impecável pela devoção ao trabalho e à disciplina.

 

 Negócio é estudar, produzir e vencer. O jovem Olympio, durante dois anos, até 1946 faz o ginásio no Colégio Estadual de Uberlândia/MG.

 

Felizmente, o temor da guerra acaba. Para o Brasil, uma cicatriz de 451 mortos. Tomara que não haja outra estupidez.

 

Para Ituiutaba, uma  surpresa agradável: o aeroclube ganha o primeiro avião, doado pelo português José Joaquim da Cunha, que chegou ao Brasil como professor, enfrentou as roças dando aulas e ficou rico. Hoje é fazendeiro. Entusiasmado pela região que o enricou, dá seu troco de agradecimento: doa um avião ao aeroclube. Para lev-lo ao Rio de Janeiro e oficializar a doação no Ministério da Aeronáutica, pousa no pequeno aeroporto da cidade a "Raposo Tavares", aeronave de Assis Chateaubriand (o todo-poderoso dos Diários Associados).

 

Com o piloto carioca, o eufórico presidente do aeroclube e o prefeito encaminham o doador para a viagem ao Rio:

 

 -Senhor José da Cunha, o senhor é um grande amigo de Ituiutaba...
-De fato, e também do aeroclube. Sei que o senhor é um admirador da aviação. Como presidente do aeroclube e como o senhor aceitou ir ao Rio...
-Com imenso prazeire.
-...pedimos que o levassem de avião.
-!...Eu não ando de avião.
-Mas!...
-Vou de automóvel com muito prazeire.

 
O piloto retorna ao Rio, sem passageiro. José da Cunha, com amigos, segue de automóvel, enfrentando com prazer um mundaréu de estradas de chão, para receber sua aquisição na Aeronáutica, quando ará discuso pela Rádio Nacional.

 

Dia despois, de volta, a diretoria do aeroclube o leva para mostrar o novinho e recém-chegado avião de treinamento, já batizado com o nome de sua lusitana terra natal, "Vila de Fafé". Ele bate o olho e corrige na hora:

 

-Não é "Fafé". E Fafe, sem acento.

 

O pintor apaga o acento, ficando "Vila de Fafe". José da Cunha suspira aliviado. Está feliz.

 

Na casa de Oympinho os filhos pressionam:
-Pai, vamos para um centro grande, uma capital....

 

O pai, dono do mais moderno gabinete dentário da região, apesar de ser filho de Machado/MG, gosta de Ituiutaba, do aeroclube, dos amigos é respeitado e admirador, tem vida estável... mudar pra quê?

 

A resistência paterna cede. Acaba mandando OFP concluir o ginásio no Colégio São Vicentede Paula, em Petrópolis/RJ, onde termina o curso em 1948.

 

E a saga Faissol de Martha não deixa por menos: nem que seja apenas para os filhos, é preciso correr atrás dos sonhos. Mudam-se para o Rio de Janeiro, a capital da República... um centro grande.

 


Tocha Humana

 

Em 1950, já morando no Rio, em Botafogo, e cursando o Científico no Colégio Andrews, o irrequieto OFP, bom nadador e mergulhador, quer ser "aqualoco".

 

Um amigo previne:

-Olympio, Olympio... larga mão disso. Acha que aqualouco e só pular do trampolim? Esse povo é maluco. Você vai passar vergonha.

-Eu topo.

 

E lá vai ele se candidatar a maluco, por um clube famosos, o Fluminense. Faz todos os testes. O técnico anotando os pontos de mergulho, nado, cambalhota. Exige que ele salte em conjunto; será capaz? Ele salta... e não passa vergonha. É admitido no grupo dos aqualoucos do Fluminense.

 

Nos dias de exibição a quadra enche. Uma filmadora registra as acrobacias e uma empresa cinematográfica distribui as cópias para os cinemas do país. A galera delira. Também pudera:trajando bermudões e longas camisetas cavadas, listradas, fingindo pavor, os rapazes brincalhões(às vezes três, às vezes cinco) se amontoam no trampolim e pulam juntos, esquisitamente agarrados uns nos outros, fazendo cambalhostas e... tibum na piscina!

 

Igualzinho nessa manhã ensolarada.

 

O povo aplaude e ri. Agora, atenção. Silêncio... É o número da "tocha humana". Um círculo relativamente pequeno é preparado e preso por ligas metálicas um pouco acima da água. Um funcionário trisca nele um isqueiro. O fogaréu toma conta do círculo. As labaredas quase se tocam no centro.

 

Olympio sobe correndo para o trampolim. Agachado, descansa, mostra a língua, depois fica de pé, põe a mão no peito esquerdo, olha e olha lá pra baixo, faz careta.... O público aguarda calado a maluquice.

 

Ele salta!... Cai, cai e arremete certinho no meio do fogaréu. Excelente salto. Palmas, muitas palmas da platéia. Fim de espetáculo.

 

Algumas mocinhas e uns rapazinhos invadem a quadra. Mas cadê ele?! Não voltou à tona!Tamanha demora parar retornar de um mergulho no meio do fogo!... É, lá está seu corpo, imóvel, no fundo da piscina. Quem vê fica assustado: terá morrido? E por que não bóia? Um momento... enfim, de braços abertos e de bruços, iual morto, vem subindo. Em torno da piscina se forma pequena multidão. A expectativa é grande.

 

Ei, ele está vivo!

 

Com largo sorriso e respirando fundo, dá pulos imitando golfinho. Alívio geral.

 

Uma jovem se aproxima:

 

-Que susto! O que é que você estava fazendo lá no fundo nesse tempo todo?

 

Ele responde ofegante:

 

-Experimentando meu poder de concentração debaixo dagua.

 

Clube Militar e Choques Políticos

 

Getúlio Vargas é o presidente da República e o doutor Olympinho é o seu dentista. Também atende às Forças Armadas em seu gabinete no Clube Militar, num prédio da Cinelândia, centro do Rio.

 

Linha telefônica, fruta rara pros cariocas, não o foi para Olympinho. Conseguiu fácil para seu apartamento na praia de Botafogo. Afinal, o Presidente pode precisar do seu dentista quando menos se espera.

 

Olympinho trabalha e produz muito, como as abelhas. Saga de Domingues Pinto.

 

Em casa, Martha continua aquele esteio, firme, serena, resoluta. Sabe o que quer. Saga de Faissol.

 

Marina, Arakén e Olympio são bons filhos, estudiosos e gostam de lazer. Compram uma lancha. Como encontram dificuldade para batiza-la, o pai dá seu palpite: "Ituiutaba". Não foi aprovado.

 

Em 1953, o aqualouco da casa passa em vestibular na Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil.

 

Quem não o conhece, pensa que ele errou de curso, tamanho o seu interesse por cálculos matemáticos. Passa horas rabiscando, elaborando fórmulas, desenhando objetos estranhos.

 

No Fluminense, continua encantando com suas diabruras aquáticas e o número da tocha humana.

 

Seu irmão, Arakén, não liga. Tem sua própria meta, talvez a advocacia.

 

Probleminha com a Marina, morena enxuta. O velho Olympio não se importa que ela namore (o rapaz certo, evidentemente), que siga sua veia artística em qualquer curso superior que escolher no entanto, ora! Acha que toda mulher deveria também fazer um curso de culinária, aprender receitas de doces...

 

1954. Olympio encerra a carreira de aqualouco.

 

A imprensa e a política fervilha. A Rádio Nacional, a mais importante do país, noticia de tudo sem atacar o Governo. Seu diretor-geral, Victor Costa, mantém a empresa (da Presidência da República) em alto nível. Respeitado e prestigiado, Victor Costa tem até telefone em seu automóvel particular, um Rolls-Royce que lhe foi cedido pelo seu ex-proprietário, o presidente Vargas. Chama atenção o número da placa desse carro: 9

 

Enquanto a Rádio Nacional cuida de levar divertimento ao povo com seus programas de auditório, enaltecer grandes vozes, manter orquestra de música popuar e uma orquestra sinfônica, outros meios de comunicação incendeiam ódios. Carlos Lacerda, eficiente jornalista, dono da Tribuna da Imprensa, ataca o governo com tudo que pode. E tanto esbraveja que acaba sofrendo um atetado felizmente ficando apenas ferido. Para mal do s pecados e do Governo Federal, Gregório Fortunato, um gauchão negro, fiel amigo do Presidente e chefe da segurnaça pessoal de Vargas, acusado de mandante do atentado ao jornalista, vai preso. É o estopim da crise política.

 

Em 23 de agosto, por manifesto à nação, 27 generais exigem a renúncia do presidente.

 

Na manhã de 24 de agosto, a bomba: Vargas suicida-se com tiro no peito, deixando a seguinte carta-testamento: "Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade. Saio da vida para entrar na História".

 

Chocado, doutor Olympinho fica nesse dia muito sério, não conseguindo disfarçar os olhos vermelhos. Não atende a ninguém no seu consultório no Clube Militar, principalmente general.

Valdemes Menezes

Valdemes Menezes

Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco Voador
Radicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.

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