Publicado em 26/10/2006 00:39

Fome de Beleza

A busca infinita pela beleza corporal perfeita e ideal pode trazer sérios problemas à saúde mental.

Poder, fama, sucesso, glamour, felicidade, relacionamentos amorosos estáveis estão totalmente ligados à beleza. E beleza está totalmente relacionada com um corpo perfeito, sem estrias, sem celulites, e sem"os quilinhos" a mais. Barriga nem pensar! O belo é ser magra. O "chique" é estar na moda; e a moda exige estar impecável.  Este é o pensamento que tem escravizado a maioria das mulheres e também alguns homens neste século.  A ditadura da beleza e a paranóia da estética têm roubado a juventude de muitos adolescentes, tornando suas vidas vazias e suas buscas cada vez mais frustrantes, pelo fato de que o ideal é sempre o inatingível e os limites são cada vez menos respeitados.

 

Sem medir esforços os adolescentes começam a busca por uma imagem corporal perfeita e não imaginam que no final desta estrada, ao invés do sucesso sonhado e esperado, vão parar numa clínica e alguns no cemitério. Com as famosas dietas milagrosas, começam a perder peso e a colocar cada vez mais, metas pra serem atingidas. Mas junto com este processo começam a perder também emoções. Perdem o senso da realidade e a capacidade de se comportarem de forma saudável em relação à própria saúde, chegando até a não se reconhecerem no espelho por apresentar uma auto-imagem distorcida e uma auto-estima fragilizada. O sentimento de angustia seguido de solidão, fracasso, vazio, impotência, inutilidade, imperfeição, depressão, vontades e comportamentos suicidas se tornam amigos inseparáveis de muitos destes adolescentes; e a esta altura, tendo estes fantasmas como companheiros, não conseguem mais descriminar o ideal do real, e nem o saudável do nocivo. Não sabem destinguir a fome física da fome emocional; ou seja, da necessidade emocional escondida e mascarada por trás do comportamento alimentar. Vale tudo pra conseguir o troféu da beleza.

 

Estes caminhos levam os adolescentes a entorpecerem suas mentes e embriagar seus sentimentos tornando suas faculdades mentais empobrecidas, fazendo com que seus pensamentos e comportamentos se tornem nada mais do que critérios que preenchem requisitos para classificação de Transtornos relacionados à imagem corporal.

 

A etiologia destes transtornos tem causas variadas, mas sabe-se que as dificuldades emocionais não trabalhadas cooperam para o desenvolvimento e a instalação de comportamentos que mantêm os transtornos.

 

Encontramos do lado oposto da vaidade excessiva os obesos e os comportamentos que os mantém neste quadro. A história do desenvolvimento da obesidade e a sua manutenção também estão bastante relacionadas à saúde emocional. Quem nunca escutou o velho jargão: "Como muito quando fico ansioso!" O prazer aprendido que o individuo descobre com a absorção das grandes quantidades de "alimentos proibidos" o impede de identificar o que está por trás da tal ansiedade. Não é só a beleza que oferece troféus a quem decide buscá-la. A obesidade também oferece ao individuo ganhos secundários para aqueles que conseguem mantê-la.

 

O excesso de gordura veste o individuo como uma armadura, uma capa protetora pra que seus medos, dificuldades existenciais e sexuais possam permanecer sem a necessidade de serem descobertos e mexidos.  Também pode esconder um anseio profundo de ser percebido, notado, a fim de compensar a rejeição. Por isso é difícil fazê-los entender que não só o peso afeta esses aspectos da vida, mas também como os aspectos da vida não trabalhados influenciam o peso.

 

O papel do Profissional Psicólogo se faz importante na vida de todos os pacientes portadores de Transtornos Alimentares e Obesidade, ajudando-os a percorrer caminhos de volta para uma reestruturação de valores, conceitos e idéias que vão contribuir para o desenvolvimento de uma identidade equilibrada e uma auto-estima saudável e segura. Pra que isto seja possível, é necessário percorrer o caminho do "desaprender"! Desaprender hábitos, comportamentos e valores distorcidos que estavam instalados na personalidade dos indivíduos e que ditavam as formas e regras para que as crenças fossem mantidas sob forma de obsessões e compulsões.

Hercílio Júnior

Hercílio Júnior

Graduação em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás.
Especilizações nas áreas de Psicologia Jurídica e Psicanálise Clinica.

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Lista de Comentários

Olívia
01/03/2007 15:45

Falta de cultivar outros valores

Hercílio gostei muito do seu texto. Vejo que as pessoas têm se preocupado cada vez mais com a aparência física, esquecendo muitas vezes da harmonia necessária entre interior e exterior.