Publicado em 12/11/2006 12:55

Futuro do Pretérito

Esperei que a noite caísse e a lua cheia guiasse meus pensamentos, aguçando o sentimento...

Esperei que a noite caísse e a lua cheia guiasse meus pensamentos, aguçando o sentimento de paz. Pasmo, vislumbrei um mundo de pessoas abstratas, interagidas numa prática sem fundamento. Lamentei que a vida fosse vida no caos em que se vivia. Olhei ao redor e nada era pior do que assistir vidas ceifando vidas, uma aberração humana, sem freio e prazo de validade. A paz já não conseguia pedir que fosse esperada, apenas sussurrava uma canção aforística.


Os horrores do nosso dia-a-dia são insignificantes diante do que vi. Olhei a bela para não sentir a fera. Avistei o ponto X e sem evitar, sofri calafrios diante da tribulação. Ousado, calcei as botas da coragem, descendo as ribanceiras do desfiladeiro inalterável.


A fumaça poluidora cobria as paredes do horizonte, um barulho ensurdecedor que também era cúmplice de uma visão fantasmagórica. Era o mundo. As pessoas que se exterminavam, açoitadas pela evolução e tecnologia, que não foram direcionadas aos fins pacíficos.


Deparei com adulto chorando o passado e jovem enlouquecido e eufórico, amando os acontecimentos. Meninos trajando fuzis, feito andróides, fanáticos, e meninas nuas com etiquetas de liquidação, sem idade, sem ilusão. Vi o casamento sepultado e o mundo virtual sendo idolatrado. A lei usando duas insígnias; esquerda e direita, e a dúvida entre o certo e o errado. Em se tratando de Legislativo, Executivo e Judiciário, havia apenas fachada.


Filha amamentando mãe quando a fome rezava seus instintos mais brutais. Água e comida eram trocadas por favores apavorantes, entre eles, o mais predominante, era o sexual. Homens se castravam, temendo ver um filho submetendo-se ao seu mesmo destino. Os filhos dominavam os pais e ambos escravos da mesma sociedade sinistra.


O pó já não voltava ao pó... Haviam sido edificadas as casas da esperança no espaço dos campos-santos. Os corpos congelados eram por alguns utilizados como alimento, pois a peste, praga e as mais atrozes moléstias reinavam em todas as direções da rosa-dos-ventos, impunes pela medicina e ciência que tomaram outro caminho. Excluindo o homem, todo ser vivente havia sido dizimado. As matas eram artificiais, esculpidas por talentos, onde em cada detalhe, percebia-se o desespero que martelava ainda, a consciência de alguns. O oxigênio gerado por máquinas tinha seu elevado valor.


Ali era sempre noite, as luzes embaçadas, sempre acesas. O sol não transpunha a camada atmosférica poluída. Na verdade, dia e noite eram diferenciados em duas circunstâncias condicionais; durante o dia, o oxigênio era liberado pelo governo e durante a noite, o mesmo era bloqueado. Viam-se manifestos religiosos constantes, clamores para que o sofrimento fosse amenizado e os dias abreviados.


Imensos telões de TV eram erguidos nas esquinas. Traziam informações em tempo real de acordo com a necessidade dos habitantes. A terra estava superpovoada, uma aglomeração a qual era uma só cidade. A temperatura beirava aos cinqüenta graus, justificando o fato de cada transeunte estar seminu.


Em passadas largas e visivelmente horrorizado, cruzei outra avenida e no seu extremo havia um gigantesco galpão, como ou maior que um estádio de futebol. E estava escrito em seu letreiro: ÚLTIMA IDADE. Anexo, uma CASA DA ESPERANÇA.


A maioria das pessoas entrava no processo da calvície ainda adolescente. Outra grande quantidade nascia com defeito físico, uma aberração humana.


Passando por outra avenida vi árvores com suas estruturas imponentes e aromas artificiais, bem como esculturas diversas; cães, gatos, pássaros, e o mais surpreendente; borboletas pintadas nas paredes de casas e enormes edifícios, em cores chamativas, erguidos com um material indecifrável. Senti uma enorme dor observando tudo aquilo, que simbolizava o egoísmo e a desgraça humana. A natureza estava cem por cento destruída.


Pequenos aparelhos sobrevoavam o espaço. Teriam no máximo dez centímetros quadrados e emitiam luzes muito forte, sendo vistas a quilômetros de distância. Chamavam-nos flashes. Exibiam uma única cor de luz por vez, alertando sobre o nível de oxigênio presente. A luz azul determinava, ainda que pouco, o nível normal. A amarela alertava a baixa nos reservatórios e risco para os que sofriam de problemas respiratórios. E por último a vermelha vinha informar que os dutos de condução do oxigênio haviam sido fechados na central do governo. Quando o alerta entrava em amarelo, as pessoas já providenciavam seus reservatórios portáteis que eram transportados nas costas para aqueles que saiam às ruas.


A tecnologia avançara inacreditavelmente, entretanto já não trazia tantos benefícios. A população vivia meio que hipnotizada sob seu efeito e a radiação matava subitamente a todo instante.
Não haviam veículos motorizados, visto que as fontes de combustível esgotaram. Os transportes eram realizados em pequenos círculos movidos a pedais.  Caminhava-se horas, dias e meses por uma rua sem chegar ao seu final.


Continuei caminhando... Avistei um flash emitindo luz amarela. Isso significava que naquele perímetro a respiração se tornaria difícil. Andei mais rápido, ansioso por sair dali. Senti a falta de oxigênio e mesmo assim segui adiante. Dobrei outra esquina, perscrutei o lugar encontrando duas crianças. Estavam sentadas num canto da viela, uma arma ao lado e concentradas na alimentação. Não suportei olhar. Elas estavam atarracadas à dentadas num corpo humano. Enojei-me ao ver. Virei o rosto para a esquerda e desesperei ao me deparar com uma cena ainda pior; uma mulher nua, dando a luz.


Estava absorto em desilusões diante dos acontecimentos, quando ouvi um choro. Sentia-me nu de qualquer adjetivo relacionando-me à palavra humano. Que lindo! Em meio a tanta tragédia e falta de perspectiva de vida, uma vida surgindo! Ainda se poderia ter alguma esperança...


Ouvi o segundo choro seguido de um grunhido. O que estaria acontecendo? Voltei-me para ela e então não contive o vômito. Minha cabeça parecia estar rodopiando, dificultou a respiração e eu me joguei de joelho no chão, perplexo ante o cenário. Pensei em gritar, mas me dei conta de que estava em outro mundo, num mundo incomunicável. Observava uma atitude animalesca por parte daquela jovem mulher que devorava seu filho recém-nascido, num gesto de tamanha normalidade e alheia à minha presença, onde eu próprio já me sentia um animal. O sangue do bebê escorria-lhe pescoço abaixo tingindo os seios de crime. Sua fome era um misto de loucura e dor que nem para os lados olhava, e antes mesmo que percebesse, um dos garotos saltou sobre ela de arma em punho... Ouvi o disparo, como se mirado em minha alma. Naquele instante a angústia sufocava-me e senti o desejo de ser o alvo do projétil. Queria morrer a ter que presenciar tal violência.


O corpo dela resvalou ao solo retratando a desvalorização da vida. Seu olhar petrificado, mas também com uma expressão de contentamento, pois estava morrendo após ter saciado a fome, mesmo que tivesse lhe custado a própria vida e a de seu filho, parecia um vazio eterno.
O garoto arrebatou bruscamente uma perninha que a mãe ainda segurava, lavando-a logo à boca...
Nesse instante apareceu um casal, fardados. Certamente seriam policiais ou agentes do governo. Sacaram suas armas e assassinaram a sangue-frio os dois meninos. O cheiro de pólvora reinava na viela. Interrogativamente, mirei com o olhar os policiais e eles fingiram não me ver, saindo em seguida.


Aproximei-me da mulher caída, retirando o garoto que ainda estava com o corpo sobre suas pernas. A mão do recém-nascido estava com os dedos entreabertos sobre o ventre da mãe, certamente num gesto de desespero, um pedido por socorro, um clamor que seus ancestrais não quiseram ou não puderam realizar enquanto fosse tempo.


O ar que se respirava naquela região era inquietante, tirânico, lúgubre. Ajoelhei-me diante dos cadáveres, a alguns pensamentos da insanidade... Lívido diante de um prélio onde era obrigatório desfazer-se do corpo para não assassinar a alma. O mal era aleitado, cultuado, destemeroso e asfixiante sob meu olhar. Não vi escudo de opções a volver atos de barbaridades.


No chão fiquei, prostrado em meus vômitos, calado em minha dor, retorcido em minha ânsia, a expelir lágrimas das quais os olhos do mundo não tiveram em seu passado, sendo bandidos em suas obrigações.


Já estava certo de que, ao botar meus pés adiante, viriam os abutres semi humanos a devorar os corpos... Quanto valia um seio daquela jovem mãe? Quanto valia um minúsculo dedo da mãozinha daquela criança? Quanto vale meu pensamento e o seu, apavorados diante do caminho que estamos trilhando? Que a vida permeasse o vácuo e espaço, ainda assim desconheceríamos os propósitos de cada ser. Não havia tempo de me solidarizar, embrenhar na esperança de um milagre, pois o elucidado parecia infinito.


Fui caminhando e olhando vez ou outra para trás. Apareceu outro garoto e aproximou-se dos cadáveres, abocanhando o seio esquerdo da mulher. Levantou a cabeça, respirou fundo enquanto devorava aquela parte anatômica. Voltei-me para frente e segui caminho até deparar-me com alguns jovens fazendo sexo, empilhados numa calçada. Aproximadamente dez jovens de ambos os sexos... E em meio ao sexo, o saciar da fome; uma garota bebia avidamente a urina de outra. À direita, algo pior, relacionado a fezes humanas... Não! Gritei dentro de mim. Não presenciaria uma cena tão bestial. Fiz meia volta e comecei a correr avenida afora, desorientado, amedrontado. 
Drogas e sexo eram toleráveis a qualquer hora e em qualquer lugar. Compartilhava-se a miséria e aflição nas fraturas expostas de cada um que gemia hospitalizado em conseqüências e destinos. Flor era apenas nome, vontade, era destino; querer, submeter-se; viver, matar.


Trêmulo e indignado, voltei ao desfiladeiro iniciando a subida para meu mundo.


Já era madrugada quando observei a lua a mais de meio céu. Sentei-me curvando o corpo e meti a cabeça entre as pernas. Então tive o estranho desejo de que o espermatozóide que conduzira-me ao útero tivesse se acidentado no caminho, para que ali, naquele instante eu não vertesse minhas lágrimas e nem me condoesse entranhas adentro pelo fato de ser gente. Não seria por um IBOPE, nem pela intenção de tornar-me um MÁRTIR ou um GENTLEMAM, mas sacrificaria minha própria vida para que o futuro de todos não tivesse esse desfecho.


O silêncio agora imperava absoluto e eu estava só, confabulando meus pensamentos com minha razão de ser um paz, quando como num passe mágico avistei um flash... Estaria no meu mundo? Um segundo flash foi o brilho do luar de encontro ao meu semblante marejado de tormentos.                                  

Ivan Zarur

Ivan Zarur

Inspirado pelas suas professoras, aventurou-se no mundo da Literatura aos sete anos de idade. Seus primeiros trabalhos publicados foram em forma de cordel: "O Velho Ricardino" e "Não conseguiu e para o Céu subiu". Com "Mundo e Mudanças" venceu o Festival dos Campeões de Itaberaí-Go.
Publicou vários trabalhos na revista Diadema Real, da Editora Cristã Evangélica do Brasil, entre eles, "Transformação", "Coisas da vida", "Mãe" e "Pastor Amado". Minha BIOGRAFIA completa, bem como outras de minhas obras estão disponíveis no meu site: www.zarur.no.comunidades.net

COMENTÁRIOS

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Lista de Comentários

Renan Alves Melo
14/11/2006 12:08

...

Antes de mais nada, parabens pela excelencia de seus textos (perdoe-me a falta de acentuacao, mas o teclado nao colabora, mais uma vez). Ha algum tempo que o presente site carecia de literatura, e vc e resgatou, para nossa alegria. Continue tecendo o imaginario com essa perfeicao. Admiracao, hoje e sempre...