Publicado em 20/12/2006 08:11

NOITE FELIZ

NOITE FELIZ. Tive uma infância muito pobre, porém, não fui uma criança infeliz. Não creio que a felicida

Tive uma infância muito pobre, porém, não fui uma criança infeliz. Não creio que a felicidade esteja na riqueza, mas sim, nas pequenas coisas. Um passeio para ser bom, não precisa ser a um lugar distante, caro. A alegria não está no lugar, mas no passeio em si. Vive-se bem quem está satisfeito com o que possui. Há pessoas que são donas quase que do mundo e são infelizes, outras... Vou parar por aqui, porque esta crônica está parecendo manual de auto-ajuda.

De todas as datas comemorativas existentes, duas foram as minhas preferidas: o Dia das Mães e o Dia de Natal.

Quando criança a gente ficava contando até chegar vinte e cinco de dezembro. Passava uma data natalícia e já estava pensando na próxima para dali a um ano.

Natal é a data dos presentes, das grandes festas, bebedeiras, mas conosco não havia nada disso. Eu via os outros meninos com seus presentes, não tinha inveja e não sabia nem mesmo qual era o dia de ganhá-los, se vinte e quatro ou vinte e cinco. Nunca ganhei, quando criança, um presente de Natal. Também nunca me fez falta.

O que eu gostava mesmo era da festa realizada na Igreja Metodista. Nos dias que antecediam a data máxima da Cristandade, a gente ia para os ensaios. É que na noite de Natal havia apresentações de teatro, cujas peças eram denominadas de dramas. Era a melhor coisa do ano, pelo menos para mim.

Com a Cleide, que seria futuramente minha esposa, ensaiei por vários anos consecutivos, sem, no entanto apresentar, o drama do Pastorzinho. Donde vens tu, pastorzinho, tão alegre e tão feliz? Venho de um...

Quando pequeno eu tinha muita dificuldade em pronunciar certas palavras. Lembro-me de que a Maria Cristina, filha do Dr. Cristiano, passava por mim na Praça São Sebastião, onde meu pai tinha um engenho de cana e me dizia: fala branco. Eu repetia: banco. O r não saía de jeito nenhum. Então ela completava: fala cru. Eu repetia, mas o r insistia em não sair. Ela ia embora dando gargalhadas com suas colegas de colégio e eu ficava intrigado, imaginando o porquê das risadas se eu falara igualzinho a ela.

Voltando as apresentações natalinas, naquele ano eu deveria recitar um poema infantil, que dizia assim:

É Natal,

Estou contente,

Meu rostinho istrotraduz,

Vou dar hoje de presente,

Meu coração a Jesus.

Eu ficava encafifado, pensando: o que será que quer dizer esta palavra istrotraduz?

Somente depois de muitos anos, porque ninguém me explicou, também nunca perguntei e tive que descobrir sozinho, que a expressão era, isto traduz.

Fato é que, quando eu falava o poema, o seu Pedro Assunção, sua esposa Umbelina, seu Cláudio, meu Tio Luiz, Tia Aurora, seu Melquíades, seu Raul, dona Conceição, minha mãe e os demais riam muito e eu lá, inocente como sempre.

No entanto, o pior aconteceu mesmo foi com minha irmã Marta. Ela ensaiou o tempo necessário e, como sempre teve voz boa, boa representação, sem dúvida seria a grande revelação da noite. Seu poema se chamava, aliás, todos os poemas começavam assim: É Natal. Ela deveria dizer: É Natal. A abóbada do céu era só luz...

No dia da festa ela subiu no palco, estufou o peito, quase rasgando o vestidinho de chita novo e falou bem alto e bem forte:

É NATAL. Pausa para prender a atenção do público. Depois continuou com ênfase:

A BOBADA DO CÉU ERA SÓ LUZ...

A turma segurou o riso, menos o Dr. Cristiano que não agüentou e ririririririririiiiiii..., com a mão na boca. Os demais não suportaram e caíram na risada. Ela desceu do palco, e não teve quem a fizesse voltar. O jeito foi a dona Margarida, que era a regente, colocar o coral para cantar NOITE FELIZ.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

Pr. Douglas Gregório
15/12/2010 10:56

Poema "Diálogo de Pastores"

Diálogo dos pastores

Pastora: Donde vens tu pastorzinho,
Tão alegre tão feliz?

Pastor: Venho de ouvir no caminho
Um coro santo que diz
Ter nascido o Salvador,
Pelo divino favor,
Num presépio de Belém.
Vem tu pastora também,
Ver o menino Jesus,
Banhado de pura luz.

Pastora: Num presépio de estalagem?
Mas que misera equipagem do Messias de Israel?

Pastor: Sim, cavalos e tropel
São pra reis do mundo só.
Deus lembrou que somos pó
Em toda nossa vaidade,
E veio com humildade
Pousar numa manjedoura.
Veio como rei, pastora,
Mas rei dalma e coração
Numa nova criação

Pastora: Não percebo, não concebo
Esse rei maravilhoso!
É incrível, impossível
Pensamento mais formoso

Pastor: Sem demora vem pastora,
Vamos ver o sumo bem.
Na loucanda miseranda
No presépio de Belém.
Vamos vê-lo, conhecê-lo
Adorá-lo muito ao pé,
No futuro te asseguro,
Fá-lo-emos pela fé.

Pastora:Pois vamos alegres,
Cantemos a glória,
Do Rei da vitória,
Do Príncipe da paz!

Pastor: Pois vamos alegres,
Louvar o menino
Que é Mestre divino
Que benção nos trás

Deus abençoe a todos! interpretem este poema em suas igrejas!
Gostaria de receber este texto completo, pois participei também qdo. era criança e agora me converti e lembrei dele
Rosimeire Antonieta Carvalho Neves Ahy Ribeiro
12/09/2008 15:06

crônica donde vens tu pastorzinho...

Gostaria quem me enviasse por email essa crônica que eu acho mtolinda e que inclusive cheguei a fazer uma apresentação na minha igreja, qdo era criança juntamente com meu irmão. Mto obrigada e que Deus o abençoe.
Cleide
20/06/2007 15:28

Donde vens...

Fiquei feliz em localizar , pelo google , um início de um texto que interpretei há muitos anos no teatro da igreja Batista de Maranguape. Infelizmente, qdo acessei esta página, o texto não estava mais aqui. Me manda , se for possível. Ficarei grata se também me informar o nome do autor...etc. O texto diz: - Donde vens tu pastorzinho , tão alegre e tão feliz ? - Venho de um .....