Publicado em 14/11/2006 07:37

O Caçador de Velórios

Inhumas já teve inúmeros personagens folclóricos. Quem não se lembra do Cambeta, do Berra-Boi. Bola Sete

Inhumas já teve inúmeros personagens folclóricos. Quem não se lembra do Cambeta, do Berra-Boi. Bola Sete, Cocão? Só os bem mais velhos, claro. Depois teve o Liga; o Tidim, que segundo se comentava na época, aliviava os meninos no fundo do Cine Inhumas; e o Codema? Gritavam as crianças: Cadê Codema? O que ele respondia é melhor não dizer. E o Chico Taboca? Uma história! Hoje o Bacuri e o Mudinho. O Edgar! Ah, o Edgar!... É desse que eu quero falar, mas antes, vamos nos lembrar da representação feminina: Maria Peteca, Maria dos Cachorros, Maria Nanica (essa eu inventei agora, porque achei o número de mulheres muito pequeno). Gozado, porque só Maria?

Muito bem. Vamos falar do Edgar, nosso personagem de hoje. O Edgar tomava suas cachaças e ficava na Rua Goiás, na Praça São Sebastião fazendo discursos. Não é que sua oratória tinha uma lógica? Ele falava do passado, como se o fato estivesse acontecendo naquele momento. Gostava de falar de política. Getúlio Vargas e J. K. eram seus ídolos preferidos. Muitos acreditavam que ele era muito instruído e que tinha ficado lelé da cuca de tanto estudar. Era, segundo alguns, até formado em Direito.

Em velório é que ele era mesmo notado. Aliás, não perdia um. Podia ser de pobre, de rico, de pessoa simples ou importante, que o Edgar estava lá. Ele e o André Pacheco, mas esse já é outro caso.

De forma que, qualquer velório realizado na cidade tinha a presença garantida e marcante do Edgar. Em qualquer ponto da cidade, sem exceção. Podia ser um casebre lá nos cafundós, que ele ia. Por outro lado, não se fazia de rogado, se fosse num palácio (maneira de dizer) lá estaria ele, firme e forte. Nem tão firme assim, diga-se de passagem.

Chegava falando alto, com seu andado de alcoólatra, a voz arrastada, pastosa, entortando a boca para pronunciar as palavras: boa noite, pessoal! Sempre era recebido cordialmente e com o devido respeito. Na verdade era esperado. Quando demorava a chegar, alguém comentava: Uai! O Edgar ainda não apareceu! O interlocutor respondia: Vai aparecer logo, com certeza. E de fato sempre aparecia. Podia demorar, mas aparecia. Sabe aquelas expressões que não faltam a nenhum velório, como: pra morrer basta tá vivo; tá tão bonito!; era uma pessoa boa; Deus que lhe dê o conforto?... Assim também era ele. Era tão estimado, que, quando de seu falecimento foi velado na casa do Deputado Roberto Balestra.

Certa feita faleceu um nipônico na cidade e um religioso lá da religião deles, começou uma reza em Japonês, sem tradutor. O homem ficava na cabeceira do falecido e falando e ninguém entendendo nada. Ninguém, vírgula, por que o Edgar entendia tudo, tanto que respondia da outra extremidade, imitando o homem. Se o homem tremia a voz, ele fazia o mesmo. Como ninguém ousou interromper, ficou assim, um falava de um lado e o outro respondia do outro e tudo terminou bem.

Nunca discriminou nenhum defunto e ia a todo velório, como já foi dito. Podia ter vários na cidade, que ia a todos. Passava a noite, mas que ia, ia.

Velório, no entanto, é igual a qualquer festa. Tem festa que você vai por obrigação social. Outras, por prazer. Tem festa que a gente não perde por nada deste mundo. Quem gosta de velório também é assim. Existe velório que não é para ser perdido por nada.

O Edgar, alcoólatra e muito humano, também tinha seus sentimentos e preferências. Aquela foi uma noite de muitas mortes. Poder-se-ia dizer que a bruxa estava solta naquele dia. Mortes por acidente, morte matada, enfarto. Foi uma mortandade democrática, porque atingiu igualmente a todas as camadas sociais. Evidentemente que morreu mais pobre do que rico, mas é porque pobre existe em maior número mesmo. Inhumas parecia Antares, quando do incidente.

Edgar andou a noite inteira de velório em velório. Chegou no último, já de manhã. Era de uma pessoa importante, que já havia ocupado vários cargos políticos. Cidadão de bens, como se diz. Ao chegar, deparou com aquela pompa e uma verdadeira multidão de gente vindo e indo. Café, leite, refrigerantes, biscoitos variados, salgados, tudo exposto em uma mesa, a ser servido à vontade. Ele aproximou-se do caixão, deu uma estacada e falou com sua voz pastosa e compassada de bêbado: Gente do céu! Um defuntão desse aqui e eu perdendo tempo com aquelas merrecas!?

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

Carlos Roberto
25/04/2007 10:08

Inhumas vice goiano 1964/65

Olá. É possível informar quem foi o(s) treinador(es) do Inhumas vice- campeão goiano em 1964 e 1965 ?
Luciana
24/11/2006 10:22

Fantástico

Davi, adorei... e dei muitas risadas pq morei 17 anos em Paraiso do Tocantins, a minha cidade natal. Sabe que lá tem um cara desse jeito tb? Sério! Ele vai a todos os velórios e quando ele não aparece o pessoal tb fala: kd o Fulano? Ele tem um apelido meio inusitado que eu não sei explicar o pq, rs. Aos domingos vou a missa com meus pais e como sempre ele está lá na igreja sentado no primeiro banco, praticamente ajudando o padre a celebrar a missa. Na hora do ofertório ele pede 1,00 ao meu pai p/ colocar no altar e o mais engraçado é que quando a missa acaaba ele vai no nosso banco e diz assim ao meu pai: Lima, minha mãe disse que é p/ vc me levar em casa. Meu pai leva ele todos os domingos. E vc acha que ele aceita que deixe-o na esquina na rua? Não. Tem que deixar bem em frente a porta da casa! rs... Mas ainda bem que existem pessoas assim, pq me divirto a beça com ele. Parabéns pelo artigo. Um abraço
...
15/11/2006 23:19

...

Simplicidade e objetividade, pontos marcantes e sempre encontrados nos textos deste colunista. Caprichos gozados de uma pessoa que sabe como passar uma boa historia. Enfeites do dia-a-dia, humores, fantasias, realidade e até mesmo devoção são os pontos sólidos e terrenos destes nobres escritos. Simplicidade em viver e em redigir a vida, objetividade em chegar ao ponto, à um sonho, à uma vida. Pontos muitas das vezes esquecidos pela comodidade, mas que reina, mesmo as vezes minguado, mas que sempre reina, no coração deste nobre escritor e de muitos outros. Uma essencia vangloriada, um dom, que nas entrelinhas, colabora nao só para nosso saboroso gosto de leitura, mas um dom que colabora para um despertar de uma vida melhor. Obrigado, Davi.
Wemerson Charlles da Fonseca Fraga
14/11/2006 13:16

(...)

que tenha entendido o que qus dizer.
Wemerson Charlles da Fonseca Fraga
14/11/2006 13:16

(...)

Adoro o que Vª. Exª escreve . Posso dizer uma coisa sincera? ... Escreve muito bem. Adoro suas crônicas no tudoIN, o sr. é um dos poucos que escrevem de verdade nessa cidade. Porque o senhor não publica um livro com crônicas? ... Bem não tenho uma liguagem tão rebruscada mas espero
Renan Alves Melo
14/11/2006 12:04

...

Davi Isaias, como sempre um cronista com algo a mais, um contista com algo a mais, um verdadeiro e autentico escritor. Digno de leitura, atencao e reflexao. (perdoe-me a falta de acentuacao, mas o teclado nao colabora) Inhumas precisa de cultura, e seus textos tem cultura a oferecer. Nao imagina o quanto me honra ser colunista de um mesmo veiculo que o senhor. Admiracao, hoje e sempre.
Cristiano M. da Silva
14/11/2006 09:47

o que dizer?

Dr. Davi Isaias! Simplesmente, fantástico. Sem mais.