Publicado em 22/04/2007 09:17

O PIÁ E O DRAGÃO

Recentemente estive em Curitiba. Foi minha primeira visita à cidade, que é realmente maravilhosa...

Recentemente estive em Curitiba. Foi minha primeira visita à cidade, que é realmente maravilhosa, para confirmar sua fama. Fiquei hospedado na casa do Hélio e sua esposa Bete, um casal maravilhoso e fui tratado como rei e minha filha Paula como princesa.

A casa é um sobrado e eu dormia no quarto em cima. À noite, quando os outros viam televisão, eu ia para meu quarto ler e logo ouvia passos de alguém subindo pelas escadas. Sabia que era ele. Gabriel, um menino de apenas nove anos (piá, é assim que os paranaenses se referem a criança), inteligente e meu amigo. Chegava perguntando: onde está o Seu Davi? Eu respondia: Estou aqui, Gabriel, pode entrar. Ele entrava, sentava em minha cama, eu fechava o livro e ficávamos conversando por longo tempo. Ele adora falar sobre carro, o que nada entendo. Certo dia ele me perguntou se eu gostava de escrever livros. É que eu havia levado para seus pais dois livros de minha autoria. Perguntei se ele gostava de ler. Ele, com a franqueza das crianças (ou piá), respondeu que não. Só leio gibi. Falei que continuasse lendo gibi, que é bom também.

Penso que a leitura deve ser agradável. É um erro o professor determinar que toda a turma leia um mesmo livro. O que é bom para um, é horrível para outro. Conheço gente que aprecia a leitura, é pessoa dotada de cultura e que não gosta de Grandes Sertões, Veredas, de Guimarães Rosa. Se não gosta, não leia, leia somente o que lhe dá prazer, mas leia.

Quando eu era jovem militante de esquerda, minha maior frustração era não conseguir ler O Capital, de Karl Marx, só que eu não confessava isto nem sob tortura. Seria ridicularizado. Fato é que eu não conseguia, como nunca consegui ler, mas tentei várias vezes. Hoje não, leio somente o que me dá satisfação.

Mas o que eu quero falar não é sobre leitura, é sobre futebol.

Certo dia falei ao Gabriel que gostaria de assistir a uma partida de futebol, antes de vir embora. Combinamos que no domingo, iríamos ao Estádio Couto Pereira, ver Coritiba e Cascavel. Não sei, e ele não soube explicar-me, porque é Coritiba e não Curitiba, como a cidade. Ele apenas exigiu que eu torcesse para o Coxa, como o time é conhecido. Tentei ponderar que o Coxa é verde, como o Goiás, mas ele não quis nem saber de meus problemas. Assumi o compromisso com ele, mas sob uma condição. Quando a torcida gritasse: Verdão-e-ôoo, verdão-e-ôoo... eu ficaria calado. Ele concordou e ficamos combinados.

Quando chegou o grande dia, lá vamos nós para o estádio. O Gabriel, seu pai Cidinho, seu avó Hélio e eu. No trajeto liguei para meu filho Raul, contei para onde íamos e perguntei para quem eu deveria torcer. Ele disse que para o Cascavel, que é time mais fraco. Falei para o Gabriel, só por brincadeira, que meu filho dissera para eu torcer para o Cascavel, ele respondeu de pronto:

- Mas você vai torcer é para o Coxa. Não é ele que manda em você, é você que manda nele. Rimos.

O jogo começou, o Coritiba ganhou de três a um de virada. Quando a torcida gritava verdão-e-ôoo..., eu olhava para ele e ele fazia sinal de tudo bem. Gabriel ficou feliz e eu também por vê-lo satisfeito.

Na saída do estádio comprei uma camisa do Coxa e partimos. No retorno seu pai lhe disse:

- Filho, quando você for à Goiás, terá que torcer para o Atlético - Ele respondeu com determinação:

- Eu sei. Lá eu torço para quem ele mandar.

Nesta altura eles já sabiam que sou torcedor do Atlético Clube Goianiense.

Na última quarta-feira o Atlético Paranaense esteve em Goiânia jogando e perdendo para o meu Atlético por três a um, jogo válido pela Copa do Brasil. A partida de volta será em Curitiba nesta próxima quarta.

Portanto, quando o Atlético goiano estiver jogando lá na Arena da Baixada, pressionado pela apaixonada torcida xará, dentro do Caldeirão fervendo, os jogadores podem ter certeza que não estarão sozinhos. No meio do povo, caladinho, sem indumentária, estará um piá, torcendo pelo Dragão Campineiro. Muitos não entenderão seu ato, mas estes não sabem o que é amizade.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

COMENTÁRIOS

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Lista de Comentários

Roberto
26/06/2007 16:16

Li tudo e muito rápido

parabéns muito bacana
Elisangela
04/05/2007 10:43

Orgulho de mão

Sou mão do Gabriel, garoto protagonista da linda crônica do Sr Davi, fiquei muito orgulhosa e emocionada ao ler o texto e saber que um adulto consegue ler nos olhos de uma criança a sua essência, obrigada Sr Davi pelo carinho dispensado a meu filho e minha família. Um abraço Elisangela
gabriel antoniassi marrocos de andrade
30/04/2007 13:07

sou amigodo davi

gosto muito do davi eu chamo ele de seu davi seu amigo e meu tambem
Cristiano M. da Silva
22/04/2007 11:41

como sempre...

Doutor Davi, como sempre, fantástico! Agora, quanto as diferentes grafias dos nomes do Clube e o nome da capital Paranaense, sei de algumas versões abaixo descritas. O interessante é que a mudança fonética, nesse caso, não altera gravemente o significado da palavra, né?! Bom, logo abaixo há bons assuntos para conversar lá com seu amigo piá. Só um detalhe, essa conversa de ficar calado na hora do verdão ê, ô! Sei não! Todo Dragão tem lá um tiquim de periquito!!! Eis as versões então: Porque quando o time foi fundado, a cidade se chamava Corityba. Que, por sinal, é um nome dado pelos índios que habitavam a região e vem de Coreu ou Curi que significa pinhão e Tuba ou Tyba, muito. Curitiba, terra de muito pinhão Na época a capital do Paraná recebia o nome com duas grafias: Coritiba e Curityba. Muitas cartas, jornais e documentos daquela época, até hoje existentes na biblioteca de Curitiba, usavam normalmente a grafia Coritiba e esta foi a adotada para o nome do clube. Embora cause alguma curiosidade, já não provoca confusão, e todos sabem que o nome inspirou-se na capital do Paraná. Também as cores, verde e branco, são uma referência as da bandeira do estado. A primeira assembléia foi realizada em 21 de Abril de 1910, após o clube ter solicitado todas as regras do esporte no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nessa assembléia, o nome do clube foi alterado para Coritiba, antigo nome da capital paranaense e que foi mantido mesmo com a mudança de nome da cidade. Foi nessa assembléia também que aconteceu a votação para a primeira diretoria, composta pelo presidente João Viana Seiler e seu vice Arthur Hauer, primeiro e segundo secretário José Júlio Franco e Leopoldo Obladen respectivamente, primeiro e segundo tesoureiro Walter Dietrich e Alvim Hauer respectivamente e capitão Fritz Essenfelder. Antigamente a cidade de Curitiba se chamava curitibanos e existia um time com esse mesmo nome, ai foi fundado o Coritibanos. Quando a cidade passou a se chamar Curitiba, o Curitibanos mudou para o nome de Curitiba e o Coritibanos mudou para Coritiba