Publicado em 26/10/2006 10:37

Palavras que perderam ênfase

A turbulência política az com que muitos agentes da vida pública queiram ser diferentes dos demais...

São palavras que, em suas origens, eternizam com a mesma representação na linguagem, no entanto, no decorrer do tempo, vão perdendo o significado. Permanece a etimologia, mas têm a interferência da semântica.

A turbulência política, motivada pelos escândalos sucessivos faz com que muitos agentes da vida pública queiram ser diferentes dos demais. Utilizam a linguagem para essa dessemelhança pretendida. Entretanto, no rol do número avançado de candidatos para as três esferas de poder, com eleições acontecendo de dois em dois anos, e disputas proporcionais e majoritárias, é muito difícil o eleitor distinguir quem é ético, moral ou se utilizam da transparência dos atos. Com isso, a pregação, por parte de muitos, é dizerem que são éticos, morais e transparentes. Os discursos, nessa linha, ficam tão maçantes, que estas palavras perdem tanto o valor que o verbo transparecer torna-se apenas um distante vulto sem nitidez alguma. É ofuscado por uma nuvem de dúvidas, pois quem afirma ser transparente basta sê-lo para que os demais avaliem, e não tornar enfadonho aquilo que poderia ser somente qualidade.

Também a ética como norma de conduta, é um termo usado demasiadamente e onde não se cabe dizer. É suficiente ser ético. Ora, como falar em si próprio ou institucionalizar um termo e transformá-lo em bandeira que ostente o caráter? Se a ética, segundo Moore, é a investigação moral daquilo que é bom, é suficiente ser bom e vivenciar virtudes. Essa doutrina filosófica é essencialmente especulativa, pela sua natureza, permite ser usada para firmar caráter.

Politicamente, é um disfarce do comportamento e a evidência apenas da palavra que era bem mais forte. Inclusive ética, por ser um termo genérico, atinge pessoas coletivamente, pois é um comportamento que, além de genérico, designa aquilo que é frequentemente descrito como "ciência da moralidade". Ética e moral se misturam, entretanto, moral está ligada ao individuo. Cada um tem seu conceito de vida e sua própria conduta. Assim é que, moral, segundo o Professor José Roberto Goldim, "é um conjunto das normas para o agir específico. Está contida nos códigos, que tendem a regulamentar a conduta das pessoas".

O apelo às palavras que podem parecer seletas para a busca do voto, acaba por tirar delas o verdadeiro significado, e pode parecer que aquele que as usa, seja também especial diante da sociedade. O que torna o agente político ser especial é o seu comportamento que é visto, sentido e avaliado por outros, pela sua comunidade e pelo próprio eleitor.

A política como ciência de bem governar o povo, constituído em Estado, tem como objetivo estabelecer os princípios que se mostrem indispensáveis à realização de um governo ou ao desempenho de um mandato, tanto mais perfeito, aos cumprimentos de suas precípuas finalidades.

Óbvio que a transparência, a ética e a moral são bases para estes princípios, daí estas palavras não compatibilizarem no sentido eleitoreiro e serem usadas como pano de fundo da seriedade e da probidade. Até que ponto a política é compatível com a ética? A política da busca do voto pode se incorporar à ética? Não seria puro moralismo exigir ou fazer com que a política da disputa do voto considere os valores éticos?

Quando se trata da relação entre ética, moral e política, não há respostas fáceis. Há quem diga que ética e política são como água e vinho: não se misturam. Querer resultado positivo a qualquer preço, de plano, impede uma boa avaliação ética ou moral, pois transgride preceitos e foge dos conceitos naturais. Analiso assim.

É um tema que, ao merecer a atenção e apreciação crítica do leitor, pode produzir um debate que traga mais luz sobre o assunto.

Bibliografia:

Professores:

José Roberto Galdim e Antonio Ozaí da Silva; e

Vocabulário Jurídico de Plácido e Silva.

Irondes de Morais

Irondes de Morais

Graduação: Direito pela UFG Pós-Graduação - Especialização em: Direito Agrário pela UFG Política e Estratégia pela UCG/ADESG Direito Tributário - convênio UCG/IGDT
Reforma Tributária: Uma medida Urgente e Necessária;Conteúdo Jurídico do Princípio da igualdade;Elisão Tributária;Ação Civil Pública em Matéria Tributária;Efeito Social da Terra

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Lista de Comentários

Cristiano M. da Silva
21/11/2006 09:11

a prática na prática...

...Dr. Irondes de Moraes, é um prazer renovado ser seu leitor. Permita-me o contraponto, de semelhante forma é um prazer renovado ser seu (e)leitor. A precisão com que você escreve tal qual estivesse falando, a precisão com que fala tal qual estivesse fazendo e a precisão com que faz aquilo que fala temperam o gosto de te-lo como leitura, obrigatória. Não se lê Inhumas sem ler Irondes José de Moraes. Um abraço!