Publicado em 16/04/2008 09:35

Pecado ou Liberdade Original

O que veio primeiro: o Pecado ou a Liberdade Original?

O que veio primeiro: o  Ovo ou a Galinha?


Essa pergunta que já  embalou muitas piadas sem respostas e outras tantas discussões, pode neste  texto ser de grande valia. Se levarmos em conta, de modo bem superficial, a Teoria  da Evolução de Darwin, o ovo veio primeiro, pois antes de existir a galinha já  existiam os primeiros seres vivos da terra - animais terrestres e marinhos - entre  eles os dinossauros, anfíbios e outros que "botavam". Se levarmos em conta a  teria Criacionista Greco-judaica (texto bíblico) a galinha veio primeiro, pois  foram criados todos os animais, entre esses provavelmente a galinha e o galo, e  só depois se reproduziram aparecendo assim, o ovo. Se levarmos em conta outras  teorias... sei lá... tantas possibilidades!


Que papo hein!? Voltando  ao assunto... muito me inquieta o quanto se fala no mundo religioso do Pecado  Original. Assusta-me o quanto de peso vem junto dele sobre nossos ombros: "Adão  e Eva pecaram e agora todo mundo está no inferno, porque primeiro vem o  pecado...!" Tantas vezes já ouvi isso... (e normalmente a relação sexual, que  diga de passagem, criada também por Deus, leva a culpa e veste essa carapuça;  mas esse é um outro assunto).


A questão deste texto é:  por que não falar da Liberdade Original em vez de ficar reforçando o Pecado  Original? Na minha concepção de teólogo, cristão, filho de Deus, arquiteto, a  Liberdade Original é mais importante e pode interferir muito mais, positivamente  ou negativamente, na construção da vida e do mundo do que o outro.


Sem tentar fazer aqui uma  tese, até porque não tenho base para isso, peço que me acompanhe:


Segundo o primeiro relato  da criação (vale ressaltar que existem dois relatos da criação na Bíblia e que,  para quem ainda não observou, são praticamente completamente diferentes -  Gênesis 1 e 2), em Gênesis 1,1-2,4a o Criador cria primeiro todas as coisas,  planta seu jardim, cria os animais e só no sexto dia, ao fim da criação, cria o húmus - a humanidade - homem e mulher  à sua imagem e como sua semelhança (1, 27) e os coloca no mundo criado para  multiplicar sua espécie e "sujeitar" a terra e "dominar" os seres vivos (1, 28).


No segundo relato da  criação (Gênesis 2, 4bss), muito mais significante, em partes, na minha  opinião, o Criador cria o céu e a terra e depois, do barro, do adamah (terra fértil), o Criador molda e  cria o homem inflamando nele um sopro - nephesh - de vida (2, 7), e coloca no Jardim do Éden para o "lavrar" e o "guardar" (2,  15). Depois cria todos os animais para lhe achar uma companheira (2, 18-19),  até que então da costela do primeiro homem, o Criador molda e cria a primeira  mulher (2, 21-22), para que um dia voltem a se tornar uma só carne (2, 24).


E é aqui que a defesa  deste texto se baseia: nos dois relatos da criação, tanto no capítulo 1 como no  2 de Gênesis, não se fala nem se falou do pecado, mas ressaltou duas coisas  depois que o ser humano foi criado:


  1. O Criador entregou a  Vida ao ser humano e toda a criação em suas mãos - Liberdade;
  2. O Criador disse:  vocês são livres para viverem ai e fazerem o que quiser, menos comer do fruto  da árvore do centro do Jardim (2, 16-17) - Liberdade de fazer tudo, "menos" uma  única coisa, a fim de que liberdade fosse completa.

Mas foi justamente "o  menos" que o primeiro ser humano quis, surgindo ai, o que a grande maioria  chama de Pecado Original, e colocando na maçã ("tadinha") e no sexo ("tadinho")  a culpa de tudo isso.


Mas o que veio primeiro  nos dois relatos: A Liberdade de Escolha dada pelo Criador ao ser humano, ou o  Pecado Original cometido pelo ser humano?


Sem querer responder: sem  a Liberdade Original o ser humano não poderia ter escolhido o que não podia,  fazendo aparecer aí o Pecado!


Sabe, acredito que o  mundo se preocupa em demasia com os "pecados", muito com o "Pecado", pouco com  as conseqüências sociais destes e quase nada com a causa primeira do pecado: a  liberdade de se fazer escolhas, sejam elas boas ou más. Mas se nós gastássemos  mais tempo em ajudar, orientar e ou ensinar as pessoas, em especial os crentes  (aqueles que crêem), em fazer escolhas mais conscientes, responsáveis e de  caráter humanitárias, o Paraíso do Éden estaria menos distante de nós e não  seria só saudades, mas com certeza, seria a esperança certa de estarmos o reencontrando.


Poderíamos como final  então dizer: vamos usar de nossa Liberdade Original para escolher, pois, a vida e assim já estaremos deixando para traz o  Pecado e os pecados!


Fábio Mendonça Pascoal

Fábio Mendonça Pascoal

Arquiteto da Vila São José Bento Cottolengo em Trindade trabalhando diretamente com arquitetura hospitalar e acessível; Membro da Comissão de Arte Sacra e Patrimônio da Arquidiocese de Goiânia, oferecendo assim orientação para as comunidades da Arquidiocese e profissionais no que diz respeito a restauro, reforma e construção de Igrejas e espaços religiosos;Estou atuando também na área de Arquitetura Residencial, Comercial e Industrial em Inhumas e região.
Arquiteto e urbanista bacharelado pela UCG em 2001; Concluinte da Teologia pelo IFITEG (Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás); Cursando Especialização em Espaço Litúrgico e Arte Sacra na PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)

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Lista de Comentários

EDUWESLEY PEREIRA DA SILVA.
28/04/2011 10:29

Legal.kk

Bom li todo texto e consegui acompanhar o raciocínio,concordo plenamente que a sociedade de uma maneira geral,está mais voltada pelo pecado do que a liberdade,está muito normativo e pouco crítico.Antes eu era evangélico,abandonei por compreender que Deus não deixou nenhuma religião.A biblía nos mostra a essencia da vida,que é o amor a Deus,hoje julgo eu a religião como normativa,exclusiva,mercenarista,SALVO EXECESSÕES!(que ainda não vi)kk.Bom ai fica meu comentário,abraços pessoal.
Marcio Pacheco
23/05/2008 08:30

Em defesa do autor

Quero dar meus parabéns ao Fábio, por sua constante defesa à solidariedade e à vida plena. Antes de mais nada, não faço parte dos 80 dos brasileiros que acreditam no criacionismo, mesmo sendo cristão católico praticante. Porém, é impossível acreditar que sou a favor de uma ideologia que me diz que sou fruto do acaso. Acho incrível pessoas que parecem demonstrar conhecimento cultural acima da média não consiguirem enxergar que algumas ALEGORIAS são usadas ao longo dos textos bíblicos e que, antes de nos darmos a interpretações pessoais sobre eses, devemos, no mínimo, encaixar tais escritos dentro de seu contexto histórico-sócio-cultural. Independente dessa questão, o que foi apresentado pelo Fábio, muito CLARAMENTE, é a importância que muitas pessoas dão à questão do pecado original (que, diga-se de passagem, não se tratou de uma mordida na maçã, nem de relação sexual, NÃO APONTADAS pelo autor, que apenas usou um toque da ironia machadiana acerca de visões bem populares desse tema bíblico), em detrimento à liberdade, ou livre arbítrio, deixado por Deus anteriormente à qualquer transgressão. Acredito que a única coisa que o Fábio quis apontar é a questão de se dar tanta importância a aspectos negativos em detrimento dos positivos. Lembro-me de um diálogo que tive com uma mãe, durante essa semana. Havia pego o boletim de seu filho na escola e estava um tanto nervosa porque seu filho havia tirado um 8,0 em matemática, entre alguns 9,0 e outros 100. A única coisa que busquei mostrar foi que, a exemplo da grande maioria das pessoas, ela estava dando muita importância a 2 pontos que seu filho havia perdido. E os outros 8 que ele conquistou? Aos nossos amigos anônimos, Shalom. E aos não anônimos também.
Pedraria
05/05/2008 02:49

necessito:

No bom e rasgo verbo: vá pro inferno!
Joel Marcolino Bittencourt
17/04/2008 21:04

Pecado das origens

Lendo o texto fui relembrando minhas aulas de antropologia teológia. Não concordo com a explicação de pecado original que o autor Fábio Pascoal faz, nada contra ele (somos amigos), mas precisamos ter bem claro que o pecado original não é nada mais que um pecado que está nas raízes do ser humano. Explicando melhor. Se, na fé, dizemos que Adão e Eva, figuras bíblicas de primeiro homem e primeira mulher, são pais da família humana, nós dele originados, também trazemos em nós este pecado original que, não tem nada a ver com sexo ou relação sexual e muito menos a maçã representa o pecado, pois ela é somente um símbolo. Estes primeiros seres humanos cederam ao desejo, ou seja, pecaram, indo contra o projeto de amor de Deus. Desejo este que se encontra também muito presente em nós. Queremos afastar-nos de Deus e fazer do nosso jeito as coisas. Isso não é liberdade. Deus que nos criou em Seu infinito amor e quer que sejamos felizes, nada faz para nosso mal. Somos livres até mesmo pra crer ou não em Deus. Um Deus que não nos obriga a crer nele, não é de fato um Deus libertador? Procuremos não viver este pecado original em nosso dia a dia nos sentindo os poderosos e dizendo que Deus não interfere na minha vida, faço o que quero. Os que não crêem em Deus ou mesmo dizem que crêem, mas como temos diversos em nosso meio que, roubam, matam, deixam o irmão passar fome, tudo fruto do: "Eu sou livre faço o que quero", não desanimo pois Deus jamais abandona aqueles que o amam.
Sotero
17/04/2008 08:22

Parabéns

Olá Fábio, Parabéns pelo artigo. É coerente e atual. Muitos, cristãos e/ou efemeridades diversas, devem buscar compreender e resgatar esse chamado à liberdade primeira. Conscientes dela, da conjuntura local/atual/pessoal possamos escolher a vida (justa para todos).
o Autor
17/04/2008 07:51

Caro(a) "a raiz efemera"

Cara a raiz efemera, Gostei muito de seus comentários, talvez os mais inteligentes que possam aparecer, porém como não conseguiu acompanhar a finco o texto até o final creio que não foi capaz de perceber que não defendo o criacionismo, mas o uso como base por estar falando de teologia cristã com raiz na tadição judaica, pois quero justamente questionar os 80 citados por vc, e levá-los a perceber que a vida está em primeiro lugar, independente de crença, raça, cor ou filosofias. A ponto que deixo transparecer nas entre-linhas, o que um bom filósofo conseguiria acompanhar muito bem, as contradiçoes existentes no relatos do mito bíblico do criacionismo a fim de ajudar as pessoas a se tornarem mais consientes e consequentes de suas crenças e atitudes. Mas compreendo bem que a frustração de alguns pode causar desconforto ao ver que outros grupos conseguem encontrar um outro sentido para vida que seja diferente, mas aqui vale ressaltar uma inocente frase do inocente Jesus: vida abundante a todos (Jo 10,10)!!! o que passa disso, realmente e talvez, não mereça atenção, principalmente quando vem a Liberdade (livre-arbítrio) antes do Pecado (negação ao transcendente). Fraternalmente,
a raiz efemera
16/04/2008 18:44

Ao autor

Não tenho nada contra tua (vocação). Até lhe confesso, que, se tivesse nascido há alguns 10 séculos atrás, e caso, não fizesse parte da nobreza feudal, teria, com muito esforço, me embargado na grande obra eclesiástica. Eram lá, nos grandes monastérios, que reinavam as grandes obras, desde as sacras até as mais belas (profanas). E meio ao fulgor do conhecimento, velas e prostitutas do vilarejo, gozavam os monges, do mais belo e puro explendor. Era a vida, ou incio dela, cheirando a amônia, cheirando a um doce toque de terror. Porém hoje, entre luzes fosforescentes (com um pouco menos de romantismo), me dedico e rogo ao único e soberano, grande senhor, oh nosso Google!
a raiz efemera
16/04/2008 18:31

Bal des Pendues

Dansent, dansent les paladins, Les maigres paladins du diable, Les squeletts des Saladins. ...(obrigado, ao tal, ou qual, pela dica)
a raiz efemera
16/04/2008 18:27

...

Vei-me vermes em alvoroço / Vem pelas tantas procurando razão / Copule dentre minhas virtudes / Salve-te de tuas tolices / Vem, vermes em alvoroço / Defeque em prantos meus temperos / Dê gosto à minha paixão.
a raiz efemera
16/04/2008 17:55

...

Por estes dias, escutei uma conversa interessante. Alguem me falando sobre uma tal cena da bíblia. Alguns sujeitos queriam apedrejar uma pobre donzela, se não me engano uma prostitua, e Jesus, em sua graça e inocência, diz aos homens sua conhecida frase: Aquele que nunca pecou atire a primeira pedra. Era mais ou menos assim... Porra, isso é uma puta sacanagem né não?! Quer falar que todo mundo deixou o lugar?! Como diria minha sábia (e filosofa de domingo) avó: isto é conversa pra boi dormir!. A humanidade é a mesma, desde que perdeu-se o rabo (se é que me entende) e mundo é mundo. Com certeza teria algum engraçadinho, assim como eu o faria, que, ao ouvir o barbudo cantador de Raul Seixas, atiraria logo, lá de trás, sem que ninguém notasse, uma pedra qualquer. Não é preciso dizer que a multidão se empolgaria e no final não restaria nem a pomba (giza). Bom, ao menos teríamos algo mais instrutivo do que uma cruz. Morre Jesus, o precursor da loucura.
a raiz efemera
16/04/2008 17:41

...

Sinceramente, não consegui acompanhar a finco o texto até o final. Sabe como é, este papinho batido, sem nexo, de pouco conhecimento filosófico. Fico apenas espantado, como pode tanta gente levar este tipo de coisa à serio? Ouvi dizer que 80 das pessoas no Brasil acreditam no criacionismo, pode?! Enquanto isso, nas profundezas do paraíso: _E ai Jesus, como anda as coisas com Maria? _ Ah meu caro Darwin, sabe como é, relação atrás de relação, não pode dar coisa melhor. O jeito é só gozar em cima desta terra...