Publicado em 07/12/2008 02:58

Perde nunca!

Perdoem-me, mas falarei muito, nestes dias, sobre política, principalmente de seu lado pitoresco. É que estou saindo de uma campanha eleitoral e tenho guardado um arsenal de materia

Perdoem-me, mas falarei muito, nestes dias, sobre política, principalmente de seu lado pitoresco. É que estou saindo de uma campanha eleitoral e tenho guardado um arsenal de material aproveitável, de boa qualidade.

 

Foram tantos fatos engraçados, que só vendo. Como não é possível ver, eu contarei um por um, até que alguém diga que estou me tornando chato em demasia. Considero eleição uma festa. Não sei porque, tem gente que fica irritado e perde as estribeiras, indo até as vias de fato. Acho uma bobagem. A vitória ou a derrota fazem parte do jogo. Lógico que vencer é muito melhor. Pena que demorei tanto para perceber isto!

 

O que mais me chama a atenção numa campanha política são as crianças. São espontâneas e não escondem suas simpatias, que normalmente revelam as preferências dos pais. Os pequeninos cercam os candidatos nas ruas, abraçam, beijam, gritam seus nomes. Uma graça e tanto. Campanha sem o apoio das crianças é uma chatice. Outra categoria que não pode faltar é a dos bêbados. Eles formam a ala cômica da campanha. Candidato que não é assediado por alcoólatras, pode saber que vai mal nas pesquisas.

 

Políticos hoje em dia se valem das pesquisas eleitorais para conduzir a campanha. Tem muito instituto sério e os métodos são científicos. Quase sempre acertam o resultado. No entanto, é um serviço caro. Precisa disso não. Basta observar os bêbados e as crianças, que você tem claramente a pesquisa feita e, acima de tudo, de graça. Se você passar pela rua e as crianças não se manifestarem, nem os bêbados lhe interromperem a caminhada, fique esperto, que a coisa não está boa. Você caminha para a derrota. Mas se as crianças e os bêbados gritarem com você o tempo todo, vá em frente, que a vitória é certa. O assédio dos infantes é agradabilíssimo, são limpinhos, cheirosos, bonitos, abraçam e beijam. Já os bêbados... também abraçam, beijam e te deixam com o pescoço todo babado, mas é sinal de prestígio. Crianças e bêbados são o termômetro da sociedade, não tenha dúvida. É melhor ser babado e ganhar a eleição.

 

Este ano me candidatei à vice-prefeito do Abelardo Vaz novamente e fomos para a reeleição. Numa das primeiras reuniões, no Setor Amélio Alves, promovida a favor do candidato a vereador Rildo do Detran, aconteceu um cena dessas espirituosas. Quando o Abelardo começou a falar, já foi interrompido por um senhor que estava com excesso etílico no organismo. Abelardo tentava falar e ele gritava: — Perde nunca! Perde nunca! O Abelardo parava, esperava e iniciava: “fizemos o asfalto do Bairro...” O homem gritava: — Perde nunca! Perde nunca! “... a construção de postos de saúde...” — Perde nunca! Perde nunca! “... na educação...” — Perde nunca! Perde nunca! Fato é que o orador não conseguiu pronunciar seu discurso por causa da interrupção ininterrupta do admirador alcoolizado. Ninguém se irritou e eu fiz foi rir muito da cena. O Abelardo lá na frente tentando falar e o homem, “perde nunca!” e ainda olhava para os lados, buscando apoio — perde nunca. Como aquela era a primeira reunião de uma série de cinco que fazíamos diariamente, parti para a próxima, com o argumento na cabeça. Comecei a usar o acontecimento como ilustração. Eu contava o acontecido e o povo ria. No final eu tecia elogios ao candidato a vereador, falava da animação de sua equipe e terminava: “dessa forma vejo que você — reforçava aumentando o timbre da voz — PERDE NUNCA! — O efeito sempre era animador. A turma do candidato a vereador Adriano Moreira, das mais animadas, foi a que mais gostou da brincadeira. Era só eu chegar e eles gritavam: PERDE NUNCA! PERDE NUNCA! Vou dizer uma coisa para você, não se pode desprezar as sábias palavras de um bêbado. A profecia funcionou, tanto para o Abelardo, quanto para o Adriano. Os dois foram eleitos.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

FLAVIA SEBBA CORREIA
08/12/2008 07:33

UM DOS ÚLTIMOS

É sem dúvida, uma das tantas boas crônicas que o Davi escreve.
Tenho o previlégio de conviver com ele, e saber que o melhor é que tudo pra ele vira motivo de crônica, e ele se diverte muito com isso, consequentemente nos diverte e encanta, nos dá o prazer de uma leitura simples, casual, que muitas vezes nos faz pensar em situações parecidas, e que não tivemos a presença de espírito e o bom humor do Davi. Se o bêbado disse não perde nunca, eu digo a você:"não pára nunca".
Paula Isaias
08/12/2008 05:40

Ele não perde não

Ser filha de político tem muitas vantagens e, ser filha de um político como Davi Isaias só tenho a ganhar e ganho sempre!
Encarar a política com paixão, com a certeza de mudanças e passar isso para uma geração incrédula, como a minha geração é, é a maior prova de um bom cidadão.
Com maestria, ele e minha mãe fizeram, modéstia a parte, um excelente trabalho conosco, meus irmãos e eu. Somos amantes da política, somos partidários, escolhemos o nosso lado e lutamos por um mundo melhor.
Ja perdemos muitas campanhas, até o Lula tornar-se presidente foi uma longa jornada, mas assim aprendemos que perder também nos educa, nos fortalece.
Pai, pode ter certeza que, o senhor, mesmo perdendo uma campanha, NÃO PERDE NUNCA!