Publicado em 20/08/2006 19:08

Pomba do Bando

Seu olhar plácido se tornou inquietante. Assustada e faminta, disputa uma minúscula semente...

Seu olhar plácido se tornou inquietante. Assustada e faminta, disputa uma minúscula semente na selva de pedra, num caos, envolta em latidos, miados, gorgeios e cacarejos.

 
Incendiaram seu sonho, destruiram suas colinas e as matas do seu pernoite foram executadas como no fogo do inferno. Perdeu seus ideais como se perde um filho na guerra e se o bicho homem tivesse a visão do amor, enxergaria o sofrimento que você expressa.

 
Como aeronave em pane voa descontrolada, embriagada pela maldade humana. O olhar é um misto de dor e desesperança, implorando apenas salvação!

 
Sei que não zela só por você e que, assim como nós, tem uma linda família dependente do seu fôlego.

 
Imersa na fumaça de combustível queimado, com extrema dificuldade, leva no bico para seu ninho o pão de um dia ou outro. Se no seu esforço o alimento não levar, vidas da sua vida deixarão de existir e sua vida será uma negra fumaça, como quando atearam fogo no seu habitat natural.

 
Vê-se em seus olhos a procura desesperada pelo alimento, pelo abrigo e pelo ar puro das matas que na cidade não tem. E o que tem é tão poluído que quase a mata!

 
Pressinto que às escondidas a mira espera você (seja de estilingue, espingarda de chumbinho, ou até mesmo uma armadilha) na tentativa violenta de assassiná-la. Esta cena causa náuseas somente num ser humano de verdade, que desconhece a razão pela qual se intenta contra uma vida.

 
A lamentável realidade é que se modernizam sobre sua desgraça e se constroem sobre a sua destruição.

 
Nos preocupamos com o terrorismo  que fere nossos interesses, mas não evitamos de fazer o terror contra os animais. Parecemos distar da realidade avassaladora, onde um plagia a inconseqüência  do outro. Então nos tornamos mais animais que as próprias feras! Nossos coraçôes se dilaceram em atos bestiais e nossa mente se envolve numa penumbra egoística e destruidora.

 
Precisamos entender que do efeito de uma queimada, não vamos sentir na pena, porém na pele, o ardor do gesto. Inventamos inúmeros entretenimentos, entretanto ainda não inventamos algum que possa aliviar a dor da natureza.

 
Pela manhã o seu tormento é extremo: assentada sobre os fios da rede elétrica, arrulha num coro de aflição sem fim, como um pedido de socorro em meio a escuridão. Parece mais um choque que lhe faz arrepiar as penas e planger por dentro.

 
Contagiado cada vez mais com sua tristeza, busco ajudá-la. Não posso lutar contra todos os homens e nem comprar milhares de hectares de terras para preservá-la. Resta-me pensar...

 
Às vezes choro com você, às vezes dá vontade de gritar! Amiga, clamar pela paz nesse mundo é como no sonho: abre-se a boca, mas não se consegue falar.

 
Quero voltar a ser menino de estilingue na mão, atirar no homem a palavra amor para acertar seu coração!

 
Quem ama não mata, não judia! Ouvir alguém falar em matá-la me causa repulsa.

 
Até entro em pânico ao saber que da natureza vão roubá-la. Os meios mais ilícitos, as armas mais bárbaras e o sentimento mais asqueroso têm sido usados contra você.

 
Pomba do Bando, quero tanto vê-la sobre os verdes da mata arrulhando a palavra felicidade, reproduzindo e progredindo imune aos dissabores que tem sofrido. Voando livre, de um lado a outro,  sem temer os ataques mortais que exterminam você e os seus, que nosso bondoso Deus criou para nos alegrar e enfeitar divinamente a natureza.

 
Desejo vislumbrá-la sempre alegre, alimentando seus filhotes ainda indefesos. Seu porte garboso de penas arroxeadas traz um brilho especial aos olhos de quem ama o mundo e a si mesmo. Seu vôo rasante em meio aos edifícios, como oscilando em súbita indecisão, causa-me desespero observando a selvageria que a extingue.

 
 Então me pego com uma lágrima caindo do olho e faço a todos uma pergunta:

 
 - Homem ou prédio, qual dos dois é feito de cimento?

Ivan Zarur

Ivan Zarur

Inspirado pelas suas professoras, aventurou-se no mundo da Literatura aos sete anos de idade. Seus primeiros trabalhos publicados foram em forma de cordel: "O Velho Ricardino" e "Não conseguiu e para o Céu subiu". Com "Mundo e Mudanças" venceu o Festival dos Campeões de Itaberaí-Go.
Publicou vários trabalhos na revista Diadema Real, da Editora Cristã Evangélica do Brasil, entre eles, "Transformação", "Coisas da vida", "Mãe" e "Pastor Amado". Minha BIOGRAFIA completa, bem como outras de minhas obras estão disponíveis no meu site: www.zarur.no.comunidades.net

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Lista de Comentários

rosita
02/09/2006 22:27

que lindo !

parabens pela sensibilidade e beleza junto !! vou começar a visitar com frequencia o site, abraço rosita
leylane
02/09/2006 16:09

Pomba do Bando

Ficou muito bom o texto não e atoa que ele e o meu pai!
Ilmar (Mazinho)
28/08/2006 15:13

Pomba do bando

Caro Ivan vc deixou uma pergunta no ar, deixo outra, será que se fosse a natureza a zelar de nos concreto/cimento Ela seria tao cruel como somos com ela? Seu texto me fez reflitir o quanto somos injustos com a mae maior.
jackson jader
27/08/2006 14:47

pomba do bando

como sempre realista em ivan muito interessante
Rafael
27/08/2006 14:47

Ponba do bando

Muito massa esse conto!!! Continue assim! Nao e atoa que esse e meu Tio RSRSRS!!! O pessoal vamos colocar seu comentarios ai!!!
jackson jader
27/08/2006 14:45

pomba do bando

como sempre realista em ivan muito interessante
valdemar pereira marques neto
27/08/2006 10:24

Pombo do bando

eu achei muito interesante mostra que os homens nem sempre som iguais mas auguns romanticos.
Leylane Rezende
26/08/2006 18:16

Pomba do Bando

Ficou muito interessante mostrou muito a realidade de hoje!
Davi Isaias
26/08/2006 08:02

Pomba do Bando

Ivam, gostei do seu trabalho. É preciso ser otimista, mas também intimista. A revolta, leva a luta. O mundo ainda será melhor. E se não for, vamos escrever.
Bell
24/08/2006 16:31

Pomba do bando

Achei o texto interessante, retratata nosso momento atual, na busca de liberdade e realizações,as vezes fere a natureza que também busca sobreviver. Abraços! Bell