Publicado em 02/01/2011 16:08

PORCINA

Porcina? Porcina, eu a conheci em Goiânia. Sabe esses anúncios de jornais? Pois é, foi através de um desses. Fui conferir um outro que havia me chamado mais a atenção. Pela descrição do texto, a outra era bem mais atraente. Realmente, como pude conferir,

Porcina? Porcina, eu a conheci em Goiânia. Sabe esses anúncios de jornais? Pois é, foi através de um desses. Fui conferir um outro que havia me chamado mais a atenção. Pela descrição do texto, a outra era bem mais atraente. Realmente, como pude conferir, não era propaganda enganosa, não. Ela era linda mesmo. Alta, apesar da pouca idade que era visível. Muito magra, achei. Estilo modelo. Clara, olhos muito vivos. Uma figura. Quando falou o preço, quase caí de costas. Muito acima de minhas possibilidades. Ainda quis negociar, mas descartei de pronto. Perdi o entusiasmo e, mesmo que abaixasse muito, ainda seria impraticável.

Saí meio desiludido. Resolvi voltar para casa. Quando já estava na Avenida Castelo Branco, lembrei-me do outro anúncio. Certifiquei-me do endereço e rumei para lá.

Ela era também muito bonita, mas era bem diferente da primeira. Não se pode dizer que fosse gorda, mas era assim, cheínha. A pele era escura, mas não era preta. O preço foi bem mais em conta. A metade da pedida da outra, talvez. Combinado, ela entrou em meu carro e saímos.

No caminho lambia minha mão, chupava meus dedos e pulava em meu colo. Com medo de bater o carro, eu falava para ela ficar quieta. Ela voltava para seu lugar e ficava me olhando com um olhar enviesado. Era de uma alegria contagiante.

Na estrada vinha matutando no que eu iria falar para minha esposa. Pensava numa forma de justificar minha atitude. Por outro lado, me alegrava só de imaginar a cara de meus amigos quando a vissem. Todos ficariam encantados e com inveja de mim.

Quando a Cleide a viu, percebi que não gostou, mas nada disse. Os meninos só a viram no dia seguinte. Ficaram surpresos, ressabiados. Ou não entendiam, ou estavam com medo. Não consegui decifrar.

Ela foi ficando e logo conquistou todo mundo. Até minha esposa, que no princípio ficou contrariada, terminou por gostar muito dela. Eu disfarçava só para ver as duas em longas prosas. Brincavam muito. Ela era uma garotona.

Às vezes íamos, só nós dois para a chácara. Ela adorava a chácara. Apreciava aquela liberdade rural. Corria atrás das galinhas, admirava os pássaros.

Quando eu descobri que ela estava grávida, me preocupei em demasia. Não tinha como negar, seu ventre crescia rápido. Aquele barrigão denunciava a existência de gêmeos, trigêmeos.

Por causa de minha casa ser pequena, meu irmão Samuel concordou em deixá-la passar uns tempos em sua residência. Foi lá que ela deu à luz.

Como ela era moleca e travessa! Um dia fui visitá-la e não tinha ninguém em casa. O portão estava fechado. Assustei-me. Mesmo guardando resguardo, ela pulou o muro e veio correndo se encontrar comigo.

Depois de uns doze anos que morava conosco, ela adoeceu. A Cleide parecia que era a que mais sofria com a moléstia dela. Chamei doutora Valéria Silva de Souza, que após rápido exame, me perguntou:

— Ela toma remédio para não engravidar?

Respondi que sim. A médica pareceu contrariada e depois disse que possivelmente seria câncer no útero. Enfiou o termômetro no ânus de Porcina e verificou que a temperatura estava muito alta. Fez uma injeção e prometeu voltar no dia seguinte.

Visitou-a por vários dias e nada de melhora. Aconselhou que a internássemos no hospital. Saiu para providenciar a condução para levá-la.

Ela estava deitada, aliás, prostrada. Sentei ao seu lado. Eu estava muito triste. Naquele momento me passava pela cabeça a farra que ela fazia, quando a gente ia para a chácara. Eu tinha uma pampa e ela gostava de viajar na carroceria. Ia mexendo com todo mundo por onde a gente passava. Quando a doutora voltou, eu saí do quarto e falei com os olhos cheios de lágrimas:

— Precisa mais não, doutora. Ela acabou de morrer.

A Cleide e os meninos choraram muito. Até a médica, acostumada com situações semelhantes, ficou muito constrita.

 Aí, eu tomei a decisão que não queria saber mais de cachorro. Quando morre a gente sofre muito.

Davi Isaias é escritor, advogado e vice-prefeito de Inhumas

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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