Publicado em 22/12/2007 11:29

PRESENTE DE NATAL

Ficava parada no palco enquanto eu entrava com um pano branco cobrindo o corpo, imitando um judeu,

Ficava parada no palco enquanto eu entrava com um pano branco cobrindo o corpo, imitando um judeu, carregando um cajado. Ela perguntava:

- Donde vens tu, Pastorzinho, tão alegre e tão feliz?

- Venho do Oriente distante para dizer que nasceu em Belém o Salvador...

Era mais uma menos assim. No dia de Natal, sempre aguardado com ansiedade, eram feitas apresentações de peças teatrais na Igreja Metodista, onde freqüentávamos, ali na então Rua Boa Vista com a São Paulo. A igreja era cercada de bordel por todos os lados. Eu morava lá, porque minha mãe zelava da igreja em troca do aluguel.

As peças a gente chamava de drama, não sei a razão. Por uns três anos consecutivos ensaiamos a peça, ou seja, o drama do Pastorzinho, que nunca chegou a ser apresentado. É que por algum motivo que não sei qual, a festa não era realizada ou nosso número era tirado de cartaz.

Era ruim, porque queríamos apresentar, mas era bom porque no ano seguinte estávamos ensaiando novamente meses a fio.. Do livro Cleide Campos.

O Natal para mim sempre foi a festa mais aguardada do ano. Quando criança nunca ganhei um presente nesta data, também nunca liguei para isto, embora fosse bem pobre. O que eu gostava mesmo era das apresentações na igreja.

Naquele tempo não havia essa mania de dar presentes aos pobres como ocorre hoje em dia. As pessoas, físicas ou jurídicas, organizam cestas e brinquedos em grande número e saem distribuindo nos bairros mais pobres. Porque a data Natalina amolece os corações, há pessoas que recebem em dobro, triplo. Tem gente que dispensa uma casa fornecida pelo poder público, com melhores condições de habitabilidade, somente para não sair de um lugar estratégico. É que todos os presenteadores passam pelos mesmos lugares, quase sempre.

Também dou regalos no Natal, mas não em grande estilo, porque penso que estas ações são mais importantes para quem dá do que para quem recebe. No entanto, nada contra o gesto. Dá quem tem para dar.

Existem, no entanto, ações governamentais que são verdadeiros presentes de Natal, mas que não são efêmeras e possuem efeito duradouro e podem mudar até mesmo a configuração social do país. Exemplo disso é a criação da CPMF (Imposto do Cheque) pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, destinado a atender as necessidades da Saúde Pública.

A CPMF, apesar das críticas, é um imposto justo, porque é pago igualmente por todos, sem direito à sonegação fiscal (ao contrário do Imposto de Renda, que somente é pago por assalariados, assim mesmo por quem não consegue sonegar). É cobrado de quem tem condições de pagar e os recursos distribuídos aos pobres, nas ações sociais e na Saúde.

Muitos o criticam e pregam sua extinção, alegando que não é aplicado corretamente e que o dinheiro arrecadado some no ralo da corrupção. Mas é justamente aí que entra os senadores, que foram eleitos para fiscalizar os gastos do governo e podem pedir ajuda à Polícia Federal, Tribunal de Contas e até mesmo aos universitários. Podem ainda abrir CPIs, como gostam de fazer.

Neste Natal, muitos senadores da oposição estarão nos estádios do país, participando da distribuições de brinquedos às crianças pobres. No entanto, os melhores presentes eles já deram, aos ricos. Fizeram o papel de Robin Hood ao contrário, ao votarem pela extinção da CPMF, esvaziando os cofres públicos em aproximadamente quarenta bilhões de reais, que deixarão de ser aplicados na Saúde e Programas Sociais.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Lista de Comentários

natanael oliveira pires
05/10/2009 20:25

cpmf

Pra mim este imposto nem cheira, nem fede, eu dou apenas 2 chequinhos,por mes.
Que foi bom tirarem mais uma teta do governo, isso foi, eu até achei gosado.
natanael