Publicado em 27/05/2006 15:25

Prostituição da Educação

Em se tratando de contramarchas da educação penso que a pior delas foi tentar encarar as instituições de ensin

Prostituição da Educação Básica e Suas Contramarchas

              O processo educacional, tanto em nível nacional quanto em nível regional/local, na terra brasilis, tem apresentado mesma funcionalidade. Em meio à onda globalizadora, realidade sobrecarregada por interlocuções transnacionais (transnacionalização), por incrível que pareça, esse universo educacional ainda apresenta sinais de arraigamento ao modelo colonial sul-americano.

              Como forma de fundamentar esta afirmação lançar-se-á mão de algumas reflexões acerca da dinâmica educacional no território brasileiro.

              Com o advento da colonização só era possível pensar em educação se ela estivesse relacionada à instituição Igreja. Aos jesuítas foi confiada a tarefa de levar a cabo o processo educacional na América. No Brasil essa ordem religiosa, segundo a historiografia tradicional, processou a catequese, ação deletéria que promoveu verdadeiro genocídio entre os nativos. A catequese foi pano de fundo para a consolidação do escravagismo nativo, diga-se de passagem, que os inacianos se tornaram os maiores exportadores das drogas do sertão, e em específico da erva mate.

              Com a consolidação do modelo agrário exportador dependente, justificado pela atividade açucareira, a prioridade instrucional recaia sob o ensino primário. Não houve incentivo por parte das capitanias em investir na complementaridade do ensino básico. Só cumpria todas as fases deste ensino a clientela oriunda do setor aristocrático. A razão deste descaso fez-se pela necessidade de garantir mão-de-obra, enquanto reserva de força de produção, para a lavoura.

              Transitando da colônia para o império nota-se um conjunto de mudanças que foi processado pela transferência da Corte para o Brasil. Entre os benefícios acordados parte deles foi respectiva ao setor educacional (fundação de colégios de ensino fundamental e médio, implantação de faculdades, construção de bibliotecas, centros de estudos), contudo, essas benesses visaram incrementar o setor intelectual e instrucional para atender as elites de formação nobresca que aqui se acomodaram, uma vez que, se os acovardados lusitanos pensassem em migrar para a Europa, em busca de instrução sistematizada, seriam escalpelados por portugueses e franceses.

             Mais uma vez transborda o perfil do processo educacional, cujas modificações se fizeram para atender as necessidades de um grupo restrito e não da maioria da população pária brasileira.

             Com o golpe de 1889, aplicado por classes médias, profissionais liberais e oligarquias dissidentes, os monarquistas perderam influência e foram afastados do núcleo legitimador de dominação.

             Inaugurou-se uma nova fase na história política e econômica no país. Paulatinamente desenvolvia-se o parque industrial brasileiro. Novamente o setor educacional foi convocado a forjar um modelo de educação que atendesse ao hibrido mercado econômico nacional (setor agrário reverberando o discurso industrial). Criaram assim as Escolas de Aprendizes e Artífices. Já na década de 1930 estas foram transformadas em Escolas Técnicas Federais, e hoje foram transformadas em Centros Tecnológicos Federais.

             As universidades, USP, UFRJ, UFMG, UNB, foram instituições de representatividade cuja tarefa seria de aniquilar o índice de analfabetismo no Brasil. De antemão, dedicaram-se na formação de professores que promoveriam a expansão universitária brasileira, pra respectivamente ocorrer a formação de docentes, através dos cursos de licenciatura, que trabalhariam nos setores primários e secundários da educação.

             Desta dinâmica sinto ao mesmo tempo saudade e nostalgia. As instituições educacionais até meados do século XX apresentavam uma qualidade docente e discente imensurável. Das escolas públicas eclodiram grandes intelectuais brasileiros e grandes profissionais liberais. Tenho saudade dos 180 dias letivos, dos três meses de férias, quem sabe lá do MOBRAL e da ADMISSÃO, do compromisso travado entre a família e a escola para com o processo educacional do aluno, este que segundo as leis de mercado tornou-se nosso cliente.

             Os programas educacionais do séc. XXI, agregados à velocidade da modernidade, às necessidades de trabalho, à imaturidade e inconseqüência das famílias brasileiras, tem gerado um turbilhão de problemas. Neste ato entra em sena a escola. Os mestres deixaram de ser mestres e passaram a assumir funções diversas (pais, mães, namorados, amantes, médicos, enfermeiros, babás, polícia, etc.). O mestre transformou-se em palhaço (seja de circo ou de folia), tem dançado na corda bamba, engolido sapos, vive cuspindo fogo, chacoteado tanto pela comunidade escolar quanto pela estrutura que normatiza os padrões educacionais, e quando se depara com o seu salário pensa em até pedir bolas de sabão para amenizar suas despesas.

            Percebe-se um verdadeiro processo de vulgarização e prostituição da educação não só em Goiás, mas em todo estado brasileiro.

           A educação perdeu seu encanto. Não é atrativa. O patriotismo acadêmico evaporou-se. Não se fala em idealismo qualitativo, e sim, apenas em dados e recortes estatísticos. A educação deixou de zelar pela formação da cidadania e pelo preparo do sujeito para a vida. Zela agora pelo acréscimo de estatísticas e pela diminuição do índice de reprovação. É bom que avaliemos, pois isso corrobora o fato de que o número de analfabetos diplomados ou intelectualizados pela academia é assustador.

           Em se tratando de contramarchas da educação penso que a pior delas foi tentar encarar as instituições de ensino como meras empresas. É bom que enxerguemos que a educação tem se transformado na maior empresa de dominação no Brasil.

Cleumar de Oliveira

Cleumar de Oliveira

Graduado em História pela UFG, Mestre em História das Sociedade Agrárias - UFG
Professor universitário na Faculdade de Anicuns; Professor nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação da UEG; Vice-Diretor e Professor dos programas de Graduação em Licenciatura Plena Parcelada em Pedagogia, Licenciatura em Pedagogia, Pós-Graduação em Docência Universitária da Universidade Estadual de Goiás;Presidente do Conselho Municipal de Folclore de Inhumas- UNESCO; Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Inhumas; Autor do Livro História do Legislativo Inhumense;

COMENTÁRIOS

Comentar usando as redes sociais

Caixa de comentários TUDOIN


Resposta ao Comentário (Cancelar)

Lista de Comentários

aliny ferreira da costa haarengl
11/07/2008 09:18

concurso

gostaria de saber se vai haver algum concurso ?
a prostituição educacional
29/05/2007 08:08

comentário

Geralmente, a idade a partir da qual a pessoa pode se prostituir (quando isto chega a ser uma atividade legal) coincide com a idade da maioridade civil, e não com a idade de consentimento,por isso a prostituição não depende do nivel académico mas sim da consciencia das pessoas
WITHE EMANUEL DE ANDRADE
18/08/2006 21:28

PROSTITUIÇÃO DA EDUCAÇÃO

Todos somos prostitutos do nosso trabalho, trabalhamos por dinheiro. A diferença que tem trabalho que é mais prazeroso, assim como tem cliente de prostitutas que também são mais prazerosos. Abraços ao Mestre Cleomar pelo artigo. Withe, colega do Colégio Ary Valadão.
alessandro elias das silveira
08/06/2006 11:33

professor

ola professor ,tudo bem ? eu acabei de le o seu artigo sobre a prostituicao da educacao , o que o senhor escreveu infelismente ea pura verdade ,so que felismente nas escolas publicas podemos encontrar professores com extra qualidade profissional como o senhor ,o mestre gleidson e toda a gama de profissionais do ary valadao , tenho orgulho de der estudado la , em varios paises que ja visitei todas as pessoas perguntan sobre a educacao no barsil , infelismente a realidade e essa que o senhor escreveu , so que aonde eu estudei tive educacao de qualidade que me ajudou e muito na minha vida ,realmente a educacao e muito importande ,e o governo ,pais e principalmente os alunos tem que dar extra valor nela ,era isso que o meu pai me dizia sempre . mestr essa a minha menssagem . parabens pelo o seu artigo , um big kiss bye bye alessandro elias da silveira alex elias
Marcus Paulo S. Jorge
31/05/2006 14:59

O mega defensor

BOm e correto afirmar que o brasil desde o seu descobrimento foi sujeito a injustiças e falcatruas nao so na educaçao mas em todas as areas socio economicas entao,acredita se que nas proximas eleiçoes o pais ou melhor os brasileiros principalmente os jovens decidam o futuro do pais e façam a escolha certa...
Hedlley M iranda A lves
27/05/2006 17:04

inhumas

muito bom este comentario do cleumar
João Paulo Silveira
27/05/2006 16:18

Mecanicidade e estatísticas

Bom texto. Você levanta o problema mais sério, a meu ver, no processo de aquisição do conhecimento. Entendo que, sob a luz de Rubem Alves, que o aprendizado é um exercício onírico, é prazeroso aprender, demanda esmero e ludismo. No entanto, a mecanicidade polui, desterra e distrói qualquer sentido na busca do saber, ninguém se reconhece realmente como estudante, como aprendiz. A faceta mercadologica da globalização além de poluir nosso sistema educacional, colabora para cada vez mais ausência de identificação do povo brasileiro com a aquisição/produção de conhecimento, nos bestializa. Seguindo o exemplo do escritor Cleumar, pretendo também publicar um texto onde dou meu humilde parecer sobre a condução da educação em nosso país. Me alegra muito a disposição de algumas pessoas em discurtir temas cruciais para nosso crescimento.
Beatriz Oeleans
27/05/2006 16:06

Coroa da Educação

E para coroar todo esse processo de descaso e desmoralização da educação brasileira, caro mestre Cleumar, o governo brasileiro criou o tal Pro-Uni, que nada mais é do que uma tentativa de dar aos que levam nas costas as mais amargas conseqüências de todo esse processo de destruição da educação brasileira.