Publicado em 18/01/2008 09:49

Quem não lê não sabe viver

A vida literária é cheia de surpresas. Nos meus vinte e poucos anos de idade, no querido Rio de Janeiro...

A vida literária é cheia de surpresas. Nos meus vinte e poucos anos de idade, no querido Rio de Janeiro (eu amava o Rio sem ser carioca), peguei o rápido e popular "lotação" (micro-ônibus onde só se viajava sentado) na Praia do Flamengo com destino a Copacabana. Trajeto para cerca de meia hora. Havia apenas um lugar vago no lotação. Entrei e me acomodei no banco. Ao meu lado um velho sério, de óculos de grau, de terno e gravata. Quem? Nada menos que Manuel Bandeira, um dos maiores expoentes da poesia modernista no País. Foi a única vez que o vi pessoalmente.


Anos depois (2004), morando em Goiás, fui a Florianópolis/SC. Mais uma vez a Literatura me surpreendeu. Na ocasião, com o professor Gretz, filho de russos, conferencista famoso, especialista em Programas de Produtividade e Qualidade. Lá em Floripa, na praia Costão do Santinho, em apartamento de condomínio internacional, o admirável prof. Gretz (com a esposa e casal de filhos, além da minha mulher Júlia e a filha Juliana) cantou parabéns pra mim e partiu bolo, porque era meu aniversário. Poxa!... No dia seguinte ele viajaria, sempre sozinho, porque ninguém agüentava segui-lo: quando se pensava que estava em Curitiba, ele avisava que saíra de Recife... Com a força de seu entusiasmo, voava como as águias. E quando no palco para a palestra, ele fazia pirueta, dava "salto-mortal".


Até alcançar a fama, o escritor-conferencista ralou. Ajudava o pai em lavoura de uvas; preparava o solo a pé, guiando o arado puxado a cavalo. Na colheita, punha na caminhonete com carroceria de madeira a carga de uvas. De madrugada, sonolento, por estrada de chão esburacada, partia com o pai para a feira de Taquarituba/SP. Certo dia, não vendendo nada, notaram um feirante baixinho gritando animado "Olha a mandioca! É da boa! Está acabando!..." E faturava. O Gretz pai ergueu a cabeça, e chamou o filho para oferecer as uvas na rua, de porta em porta. Davam algumas para o cliente experimentar, dizendo serem deliciosas e estavam acabando... Venderam tudo. E sempre com entusiasmo, o rapaz Gretz foi estudar na capital paulista e virou professor e escritor. Amém.


Agora uma do "cientista louco", como o poeta Gabriel Nascente foi chamado aos 12 anos de idade, por ter jogado na cachoeirinha da usina Jaó seu brinquedo de madeira, um submarino por ele fabricado. Gabriel, carinhosamente chamado de "Bié", é mesmo louco. Louco por poesia. Já produziu 47 livros, um de prosa... Sua obra mais recente (lógico, poemas), Tempestade na Proa, premiada pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, traz bela ilustração (1892) do pintor inglês Walter Crane. Diz o poeta: "A poesia é o / arquivo da alma, / vesúvios do / meu ser" (pág. 374). Ganhou destaque nos meios de comunicação do Brasil e até uma carta do presidente de Portugal.


Gabriel Nascente, você já não fabrica submarinos, fabrica sonhos com a cabeça no lugar. Sem dúvida, os bons livros ensinam a viver.


Valdemes Menezes

Valdemes Menezes

Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco Voador
Radicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.

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