Publicado em 31/08/2006 14:53

Ri Platéia, Ri

Comecei a meditar e verifiquei que realmente aconteciam coisas bastante interessantes comigo que precisavam...

Certo dia, eu cheguei ao Banco do Brasil e me aproximei do Altamiro Manso e lhe disse: Escuta-me, vou lhe contar algo que aconteceu comigo hoje. Ele respondeu-me com grande expectativa: Conte mesmo. Com você acontecem coisas muito engraçadas.

 

A partir daí, comecei a meditar e verifiquei que realmente aconteciam coisas comigo bastante interessantes, que precisavam ser registradas. A idéia de contá-las em crônicas, surgiu depois que li o livro ARTE E CIÊNCIA DE ROUBAR GALINHAS do grande escritor João Ubaldo Ribeiro, que me foi emprestado pela igualmente competente escritora Helena Sebba.

Confesso minha ignorância, porque até então, nem sabia o que era uma crônica. Escrevo contos, aventuro-me em romances, mas crônica nunca tinha feito. A Maria Eugênia bem que tentava ensinar-me a diferença dos gêneros, mas era em vão. Portanto, se existe um culpado, é João Ubaldo.

De posse da idéia, mantive contato com o Marcos Vinícios aqui do Onze de Maio e ele prontamente topou publicá-las (como tem gente corajosa neste mundo).

Mesmo no movimento de esquerda de outrora, onde as coisas eram sérias demais, eu conseguia acrescentar uma pitada de humor. Iniciei na política estudantil na UFG, depois sindical (CPG - Centro dos Professores de Goiás), ao lado de Nizo Prego, Osmar Magalhães, Neide Aparecida, Getúlio, Lobó de Itapuranga, Aluízio de Luziania, Delúbio Soares (por que não?) e muitos outros. Depois fui advogado de Sindicatos de Trabalhadores Rurais, juntamente com Marina Santana e participei da fundação do PT em Goiás. Era no tempo em que a gente pensava que ia mudar o mundo. Posteriormente, percebi que o mundo é que nos mudou.

Nessas minhas participações, inúmeros foram os discursos por mim proferidos, acrescidos depois de formado, com as defesas realizadas no Tribunal do Júri, principalmente ao lado do ilustre advogado Ascim Calil.

Fato é que gosto do público e procuro sempre falar de forma descontraída. O Prefeito Abelardo não aprova e diz educadamente, como é de seu feitio: Davi, você fala melhor quando não faz gracinha.

Naquele tempo de PT presidido por Athos Magno, quando eu era anunciado, a expectativa era grande. As pessoas se ajeitavam na cadeira, mas eu ficava decepcionado. Não era para me ouvirem, mas para rirem de mim. A coisa adquiriu uma envergadura tal, que havia dia em que eu mentalizava meu discurso na cabeça e ia para frente disposto a falar com seriedade. E falava, só que ninguém me levava a sério. Começavam as gargalhadas e eu me irritava. Quando vinham comentar comigo minha fala, era para dizer que riram muito. Eu retrucava dizendo: Se eu não fosse palhaço eu seria advogado.

Lembro-me de uma reunião dessas que vazavam a madrugada adentro, desta vez na casa do Grafite. Fiz uma intervenção que as pessoas riram tanto, que o Rubens Otoni a suspendeu por dez minutos, para não brigar comigo, porque ele não é doido e conhece o mato que lenha.

Quando publiquei no início do ano, o livro Cleide Campos em homenagem a ela, que foi minha esposa e companheira por todo este tempo, fiquei satisfeito com a repercussão, muito além do imaginado. No entanto, ficava constrangido quando as pessoas invariavelmente me diziam ter chorado muito após a leitura do mesmo. Não gosto de ver as pessoas chorando, gosto é de vê-las alegres.

Toda vez que circula uma crônica publicada no Jornal Onze de Maio e Portal TUDOIN sou abordado na rua, e as pessoas me dizem que riram bastante. Fico satisfeito, porque é para isto que estou escrevendo. Digo que também estou me divertindo para valer.

Hoje também eu queria escrever para divertir as pessoas, mas não posso. Recordo-me dos versos daquele palhaço que levanta no picadeiro o corpo ensangüentado da filha morta, e diz: Ri, platéia, ri. Ha, ha, ha... ri da desgraça de um palhaço.

 

É que o Raul está triste; a Paula está triste; o Lucas está triste; eu estou triste. Minha casa é triste. Estamos amargurados. Eu termino esta crônica chorando. 14 de agosto de 2006. Faz um ano que a Cleide nos deixou para sempre.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

COMENTÁRIOS

Comentar usando as redes sociais

Caixa de comentários TUDOIN


Resposta ao Comentário (Cancelar)