Publicado em 07/07/2006 17:35

Ruti

Caminhando por ruas estreitas , becos obscuros e repletos de passado, a velha Rute lança seu envelhecido corpo

Caminhando por ruas estreitas , becos obscuros e repletos de passado, a velha Rute lança seu envelhecido corpo ao sabor do tempo. Pensamentos e segredos de histórias mal vividas esvoaçam por seus poros, sua tez rugosa e pálida. Nos desvelos de uma trajetória carcomida e silenciosa, Rute sempre foi assim: destituída de sonhos e sabores. Uma alma que já nasceu temporã, lançada, prematura na aridez do mundo. Não conheceu homem, nem as pequenas alegrias do cotidiano.

Uma história quase apagada, um número, uma pequena identificação nos papéis velhos que traz entre os caídos seios. Rute se tornou mais uma dentre inúmeras por aí. Sem grandes sobressaltos e nem muitas andanças.

Na infância, rodopiava num pequeno cercado de madeira que delimitaria, como num presságio, os espaços minúsculos que ocuparia no mundo. Sonhava em ser bailarina, e valsava no ritmo de uma música que inventara de brincadeira, cantarolada secretamente nos seus pequenos universos. Ria, chorava e pulava freneticamente nestes instantes de deleite inconseqüente. Julgaram-na, assim, desde a tenra idade, uma estranha e feia criança, sem tino para algo que prestasse algum dia. Talvez fruto de uma gravidez mal abençoada, uma praga da época de namoro dos pais ou malquerenças da vizinhança faladeira de antigamente.

O certo é que ela nunca entendeu os olhares tortos, os risos abafados e as conversas entrecortadas nas poucas vezes que a deixaram aparecer em público.

Acharam-na incompleta para os estudos, obtusa para os bordados, feia para os namoros.

Acostumou-se, desta feita, a confundir-se com os apetrechos que esparramavam-se nos cômodos da casa de sua família: Rute-armário, Rute-castiçal, Rute-bibelô e uma infinidade de pequenas coisas insignificantes e estáticas..

As melodias que embalavam suas criações infantis, destoaram-na se todas, uma a uma, nos comentários alheios e inconseqüentes ao longo dos anos. Será que era por isso que a julgaram incapaz de gerir os próprios atos? Porque um dia criou uma música inacessível aos que estavam em derredor e ousou rodopiar num pequeno quadrado?

Que mundo era aquele em que os pequenos gestos eram amordaçados para sempre e impedidos de gerar outros mais abusados, quem sabe?

Rute não ousou questionar tantos porquês que reverberavam em sua cabeça dia após dia , nos sussurros infindos de tantos corredores ocos e sem respostas.

Aceitou seu fardo, seu destino e procurou recolher-se na solidão de suas privações. E o tempo aquietetou seu espírito e lhe deu guarida. Foram todos morrendo, um a um: a esquálida mãe de semblante aristocrático, o pai avesso as modernidades e a velha empregada que se fazia de surda-muda aos segredos de família. Restava agora a ausente e muda Rute. E quase nada por fazer.

Muitos a julgaram morta por algum tempo. Virou motivo de histórias de assombrações que eram contadas e recontadas aos mais novos. Uma sombra, uma casa velha e medos.

Comia ervas que cresciam em seu quintal mal cuidado, e catava os malditos piolhos que assolavam de tempo em tempo sua desgrenhada cabeleira. E passava os dias assim: andando pelos cômodos vazios de outros seres, alisando as paredes e verificando os buracos que corroíam as entranhas daquela mal fadada construção. Debatia-se, às vezes com teias de aranha que ousavam enfeitar os cantos obscuros aqui e ali. E brincava com o pó que cobria os antigos móveis, desenhando emaranhados quase imperceptíveis.

Em determinadas horas do dia, ajoelhava-se de cócoras no quarto e parecia pronunciar velhas orações que de certo capturou sorrateiramente de algum transeunte. Eram tantos os buracos que davam para a rua. Tantos que muitos olhares a perturbavam em alguns momentos. Todos queriam saber se ainda existia ou tinha se misturado aos desabamentos diários daquele lugar.

Nestes momentos de adoração, parecia transluzir-se de maneira sobrenatural e impactante.

Demorava-se horas nestas ladainhas misteriosas e penitencias.

Punia-se por tudo de uma maneira implacável e sorrateira.

Ouviu certa vez que seu nome fora retirado da Bíblia, inspirado em uma mulher forte, determinada. Era realmente uma ironia, não se achava naquela inspiração, não se sentia tão forte assim. Pelo contrário, mutilava todo e qualquer foi de esperança. E queria ser, como julgava ser, um nome, um corpo, um número.

Seus sonhos foram morrendo junto com sua mocidade. Pouco a pouco, em goles miúdos de silêncio e estranhezas. Vivia para habitar aqueles cômodos e arrastar-se lentamente por eles.

De uns tempos para cá, se permitiu inventar filhos. Tinha em seu pequenos delírios a doce Arlete, que corria com suas tranças daqui para ali e enchia de risos aquela imensidão de silêncios. Criou também Lia, um protótipo seu, idêntica, quase muda. E inventou Neusa, com quem discutia o tempo todo sobre o tempo, as mudanças da vida diária e os arroubos da juventude de hoje. E se contentou com essas três.

Um dia se cansou de tudo e fez com que Arlete calasse a boca para sempre. Gritou com a menina e disse que não suportava sua voz, seus gritos e arredios. Arlete se foi e permaneceu como uma lembrança que habitou aqueles lugares.

Para Lia gritou palavrões impublicáveis e chamou-a de passiva, louca e estéril. Lia, assustada esvaiu-se como num passe de mágica. E finalmente sobrou Neusa e suas impertinências. Pediu educadamente que fosse embora, porque ela representava a força do mundo e conseqüentemente tudo que abominava. Ela obedeceu e saiu pela porta da frente, triste e desiludida.

E novamente Rute se tornou objeto, como tantos que entulhamos sem querer. E pensou que talvez a vida fosse melhor assim: coisificada. Sem sustos, sem sobressaltos, apenas passos, plantas, piolhos.

Houve, porém, um dia em que decidiu quebrar sua vidinha arrastada. Percebeu que era tempo de pôr fim aquela colcha enredada de pequeninos instantes. Olhou a sua volta, tratou de guardar cada particularidade em sua desgastada retina e tomou a porta de saída. Quantos anos permanecera ali? Vinte? Trinta?... Perdera a conta.

Nunca precisou de comida. Jogavam restolhos pelos muros, pelos buracos. Banhava-se naquele regato que cortava o quintal e tinha as raízes, quantas!

Mas era chegada a hora de partir, levar saudades e soterrar amarguras. Escolheu a noite, porque por ela podia se esgueirar, sem ser notada. Se bem que nunca fora mesmo percebida em sua apagada trajetória.

Contemplou embevecida as ruas estreitas como nos velhos tempos de olhares fugidios e risos curtos. Viu modernidades que não conhecia, letreiros que não decifrava e pessoas que eram meros estranhos, como toda a humanidade sempre lhe pareceu um dia.

Esgueirou-se por aqui e por ali, decidida, contente consigo mesma e com sua ousadia. Tomou caminhos desconhecidos e escolheu uma parada. Era uma praça simples, pequena mas bem arborizada. Rute se assentou entre as flores que pipocavam naquele lugar e percebeu que seu momento chegara. Foi para aquele instante que foi criada., que passou por tantos corredores e sonhos amargos. Finalmente havia se encontrado, achado sua essência, seu lugar. Entre as flores: rosas, crisântemos, margaridas. Ali estava sua pequena felicidade. Observou a menor delas, frágil e perfumada. Recolheu-a em suas mãos enrugadas e sentiu seu aroma.

Riu, um riso frouxo e descontrolado. Quase um escândalo do qual não se envergonhou. De repente vieram notas, pequenas melodias em seu ouvido e ela se recordou. Era aquela antiga música, que tanto lhe perturbou na infância. Por tentar cantá-la foi punida por toda uma vida, devagarinho e sem pudor. Sentiu um calafrio, uma dúvida. Mas havia passado o tempo de espera. A cantiga estava pronta, acabada. Finalmente.

Rute levantou sem receios e bailou pelos canteiros: simples, cabelos brancos esvoaçando ao vento. Uma figura esquálida em contraste com a vitalidade do lugar.

Estava finalmente pronta e sem medos. Olhou a sua volta e finalmente percebeu:não havia mais cercas, nem dúvidas. Podia bailar como nunca fizera antes.

José Carlos

José Carlos

Formado pela Universidade Católica de Goiás no curso de História, Graduado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Goiás. Especialização em Educação Ambiental pela UCG.
Professor na rede estadual de ensino, integrante do grupo Marula de Teatro e membro do conselho municipal de cultura

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Lista de Comentários

JOÃO CARLOS DA SILVA
08/05/2007 18:54

Zé Carlos, escritor.

Grande Zé Carlos, belíssimo texto. E dizer que eu desconhecia o seu talento de escritor. Gostei muito. Lembra quando criticava meu textos, chamando-os de pornográficos? Poisé, meu caro. você também [rsrsrsrs...] sabe criar um interessante erotismo impícito. Continue, quero ver mais. Um abraço. Joãozinho
Monise
13/12/2006 22:38

Inveja

Vc é um sucesso e isso infelizmente gera inveja. O seu sucesso é vc ser capaz de viver a seu modo. Seja sempre sábio. Parabéns! Arrasou mais uma vez.
José Carlos Henrique
16/07/2006 13:37

ERRATA

Desculpem por alguns erros de digitação.No próximo ficarei mais atento.Quanto a copiar o texto quero esclarecer que sei fazer referências bibliográficas aquilo que não me pertence.Afinal defendi três monografias bem destacadas no âmbito acadêmico.No caso do conto acima, não preciso disto!
aNONIMO
13/07/2006 14:54

ANONIMO

iiiiiiiiii, mais um texto copiado num sei da onde.