Publicado em 18/03/2006 17:26

Sobre escolas e Frankenstein

A realidade da educação no Brasil atualmente tem se orientado tal como Dr. Victor Frankenstein. O criador que

Uma das coisas que mais gosto na vida são as surpresas que ela nos trás. Outro dia, ao entrar em minha sala, deparei-me com uma cena não muito comum em meu dia-a-dia. A sala, em primeiro lugar, mais parecia com um terreiro de "macumba", havia velas espalhadas por todo lugar e estava completamente escura. Sobre minha mesa, uma de minhas alunas, vestida de maneira completamente horripilante, estava estirada, intacta, como se morta. Ao seu lado, outra aluna, completamente de branco, parecia uma médica ou enfermeira. Na porta da sala, outra aluna, com trajes mais apropriados para irem à escola, porém era nítido que fazia parte do grupo chocante que estava aguardando-nos.


Estas meninas me surpreenderam. Não somente ao receber-me na sala de aula, mas também quanto ao tema do seminário que iriam apresentar naquele momento. Num instante, ao entrar na sala de aula naquele dia, viajamos das correrias do mundo contemporâneo - século XXI e caímos de corpo e alma num dos mais singelos momentos narrados pela Literatura Inglesa. Num instante, vivíamos o mágico momento da criação de Frankenstein.


Confesso que aquela historia já havia adormecido dentro de mim. Nem mesmo enxergaria tão clinicamente a obra como elas fizeram. Num instante, estava eu, ali, em minha sala, vivendo momentos que tornaram singulares minha experiência como educador.


Á minha frente, minha mês de todos os dias, segurava o corpo de Frankenstein. Do outro lado da sala, o doutor Victor Frankenstein, fazia seu monólogo de glória sobre científicos e que havia depositado todos eles na sua mais preciosa criação. Ali, naquele momento, um tanto horripilante, víamos a glória, mesmo que passageira, de alguém que confiava plenamente em suas habilidades e conhecimento. Em fim, seu homem estava pronto. Sua criatura estava completa. Após anos de estudo e trabalho, juntando partes de corpos, ele, o Doutor Victor Frankenstein havia alcançado algo inédito na ciência. Ele, um cientista, homem, havia acabado de criar um outro homem.
Frankenstein então ganha vida. Levanta. Começa a agir. Começa a viver. Porém, seu criador ao observar sua aparência e atrocidades, percebe o seu grande fracasso. Á sua frente estava, não um homem, não uma criatura, mas um monstro. Um monstro que denunciava seu próprio fracasso. Um monstro que colocava por terra todos seus sonhos esperança de glória e conhecimento cientifico. À frente do Dr. Victor, seu monstro refletia a própria monstruosidade de seu criador. E como é de praxe em se tratando de pessoas vazias, a ação do Cientista com sua criatura, foi de desistir completamente daquele que ele havia formado. Dr. Victor Frankenstein renegou e abandonou sua criação. Em hipótese alguma se preocupou com os sentimentos, nem com a educação daquele que era sua obra maior, pelo contrário, ao terminar sua criação, Victor o abandona, o rejeita, o esquece; o grande cientista desiste completamente de seu Frankenstein.


A história segue com os feitos horripilantes do "monstro abandonado" e abala os sentimentos de todo leitor e espectador quando esse "monstro" encontra com um velho cego. Ali, temos a voz do Frankensteinfalando de seus sentimentos, suas dores e perdas e é marcante observar que grandes transformações o velho cego proporcionou à criatura desacreditada. Em seu emocionante monólogo ele elícita o fat de não saber comunicar. Deixa transparecer, claramente, sua angustiosa necessidade de utilizar das mesmas palavras que os humanos utilizavam. O "monstro", desabafando para o seu criador, descarrega toda sua desgraça de ser o monstro que é, somente pelo simples fato de que: o grande sábio cientista havia desistido de sua criação. Frankenstein culpava seu criador por todos seu fracasso e por todos os momentos que o "amor" fora negado à ele por causa da desistência nele confiado.


Confesso que por muitos momentos, durante aquela apresentação, tive meus olhos marejados. Como que automaticamente, comecei a viajar por outras dimensões, outras situações em que via vários Frankensteins vomitarem as mesmas palavras. De repente, aquela sala estava pequena demais para os ecos de vozes gritantes ao meu redor. E então, uma pergunta começou a retinir, ardentemente em meu coração. Quantos Frankensteins a educação tem criado? Quantas vezes estamos desistindo de nossos "monstros"? Quantos são os alunos que carregam fracassos por termos desistido deles?


Ultimamente tenho refletido muito sobre o ato de desistir. Desistir significa não prosseguir (num intento), renunciar, abrir mão. Ação esta, tão ligada ao fracasso e frustração, tão contrastante com o ato de instruir, de desenvolver, tem estado presente, infectantemente, nas ações e condutas de muitos de nós educadores.


Hoje, quando a ação da moda é incluir, muitos de nós educadores temos agido em concordância com o Dr. Victor Frankenstein. Muitas vezes, ao formarmos nossos alunos, deparamo-nos com aqueles que comportam de maneira usurpadora dos padrões ditos socialmente normais ou aceitáveis. Inúmeras são as situações que, como educadores, somos colocados em confronto com a desgraça de nossa própria criação e assim, como todas as pessoas vazias agem, resolvemos abandonar nossa criação. Desistir de nossa missão frente à uma de nossas frustrações torna-se remédio paliativo para manutenção de nossa ordem, prestígio, autoridade e respeito - afinal de contas, somos titulados e gastamos muito tempo na Universidade.


Entremeados de discursos pedagogicamente correto, e coerente, tornamo-nos os monstros de nossa sociedade ao renegar, abandonar, fugir e expulsar do ambiente que deveria ser referência para transformação, os indivíduos que mais necessitam de transformação. A preocupação exacerbada da escola em manter os padrões científicos, a pontualidade no cumprimento da grade escolar e o esgotamento do conteúdo mínimo proposto pelos livros, tem levado esta instituição a ser o lugar mais anti-educativo presente nas comunidades modernas. O papel da escola tem-se confundido com o papel das fábricas. Fábricas são os lugares em que descartamos as peças inapropriadas de uso. Escola deveria ser o local onde procuraria desenvolver a capacidade intelectual e moral dos freqüentadores dela. Infelizmente e vergonhosamente, temos esquecido que: os que freqüentam a escola são seres humanos, dotados de inteligência e emoção. Daí, porque são nelas que encontramos a individualidade de cada um. Mas a escola, ao se encrostar da visão cientifica "exclusivamente", descarta o que o ser humano tem de mais singelo - a capacidade única de cada ser um ser único.


Enquanto minhas alunas, as quais amo muito e que me trouxeram grande beneficio neste seminário, bailavam em suas idéias sobre o monstro abandonado e a monstruosidade de seu criador, eu me envergonhava em saber que havia deixado ser infectado pelo vírus cancerígeno da desistência; porém , à medida que as lágrimas feriam meus olhos, decidia ser mais perseverante com aqueles que julgo monstro. Espero, nalgum dia, viver num tempo em que a escola assumirá o seu verdadeiro papel na sociedade - espero viver o tempo em que teremos escolas que educam.

daniel aldo

daniel aldo

Graduado pela Universidade Católica de Goiás no curso de Letras Português/Inglês; Especialização em docência Universitária
Professor na Universidade Brown - USA - Palestrante no Ensino de Línguas SENAC-SP. Professor de prática em ensino da língua inglesa na UEG - Inhumas, Professor de literatura do Ensino Público, Professor de literatura do ensino público, professor OLY - oficina de línguas YAHWE e Professor do projeto ARTs Lit na USP

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Lista de Comentários

lia mei
28/05/2008 14:30

Frankestein

Adorei seu texto. Parabéns, veio ao encontro do no momento estou buscando. If I give-up, or not. ? Preciso urgentemente responder algumas questoes acerca da criatura. Meu tempo é corrido, igual de todo mundo.Todavia gostaria de contar com sua ajuda. Posso contar contigo Professor ? Sou aluna letras com formatura para o fnal do ano.
Ana keila
01/08/2006 10:45

Será?

Lendo este artigo me perguntava se os alunos Frankesteins são criados por educadores ou se estes são obrigados a corrigirem e a reeducar Frankesteins que já vêm para suas mãos completamente danificados por Drs. Victors Frankesteins(seus próprios pais) que desistem de suas criações abandonando-as ao Deus dará. E assim, inevitalvelmente chegam aos educadores para os corrigirem, muitas vezes são casos irreversíveis e fazem todos refletirem de quem é a culpa.
Vanessa
25/05/2006 19:50

Escolas que educam!

Otimo seu texto Daniel...! Isso faz com que te admire mais e mais! Um abraço!