Publicado em 30/09/2008 15:57

Tiros, gravidez na penitenciária

Casos inusitados aconteceram na penitenciária de Aparecida de Goiânia.

Casos inusitados aconteceram na penitenciária de Aparecida de Goiânia. Na prisão estadual funcionava sua diretoria (e eu era um dos diretores).

A gente almoçava no seu restaurante, por volta de 13 horas, quando ouvimos 4 tiros vindos de um dos pátios da prisão, perto dali. Seria revolta de presos armados?  Foi um corre-corre. Todo mundo fugiu do restaurante. Os cozinheiros (reclusos) sumiram da cozinha. Fiquei sozinho, pensando comigo: fugir pra onde e de quê?  Na fuga, um tiro a esmo poderia me matar.

Calmamente, terminei de almoar, comi sobremesa de pudim e fui para minha sala. No pequeno percurso nem uma vivalma: corredores desertos e salas vazias.

Com a chegada de soldados fortemente armados, vários funcionários retornaram. Até minha secretária deu o ar da sua graça em nosso gabinete.

Felizmente não era rebelião e ninguém morreu. É que um dos presos conseguira uma arma e tentara acertar contas com antigo rival. Os militares o dominaram e o temor de rebelio acabara.

Nos dias seguintes, fazia questo de alertar os presos que a prática do bem superior a qualquer ostentação do mal. E visitava a alfaiataria, os confeccionistas de bolas esportivas de couro, a cermica (fábrica de tijolos que vivia quebrando peças e paralisando a produção. Com anuncia da presidente da ex-Agência Prisional, Rosngela Magalhães, implantei uma gratificação, em tijolos, aos presos que trabalhavam na área; resultado: nunca mais quebrou peça e nem paralisou a produção de tijolos). E... ei! Que vergonha o alojamento dos agentes penitencirios! Banheiro nico sem ventilação, catingudo, vaso sanitário quebrado, caixotes com cadeados (para roupas dos agentes) perto de beliches, sem dignidade para os plantonistas com a missão de vigiar 800 presos. Pedi a reforma do local.

Ah, falta o presídio feminino (na ocasio, 12 mulheres). Como era costume nenhuma reclusa ficar na cela durante o dia, uma delas me surpreendeu: somente ela, séria, lá estava aquela fulana recostada na cama, com um casaco atrás do travesseiro... e  grávida! O que teria aprontado aquela coitada para cumprir pena grávida? Entrei na cela respeitosamente, cumprimentei, indagando a sua idade e o tempo de gravidez. Abrindo um sorriso, ela contou: 29 anos, e 6 meses de gravidez.

Estranhei que não a tivesse visto antes ali no presídio. Ela esclareceu que era novata.

Então era isso. Concluí que ela comeava o cumprimento de sua pena. Que pecado... Tão simptica, tão nova, esperando filho na prisão.

Ao encerrar o papo, ela se levantou, gentilmente me convidou para almoçar, tirou detrás do travesseiro o seu casaco e o vestiu. Só então vi nas costas do casaco o letreiro "Agente penitencirio".

A danada era policial!

Valdemes Menezes

Valdemes Menezes

Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco Voador
Radicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.

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Lista de Comentários

Roberto Augusto Carvalho Lajus
19/08/2009 06:59

Trabalho monográfico e futuro projeto de Lei

Olá Sr. Valdemes,
sou acadêmico de Direito e estou na última fase para concluir o curso, em processo de elaboração de monografia.
O tema que irei abordar trata das presidiárias grávidas do Estado de Santa Catarina. Porém, tenho encontrado muita dificuldade em achar material para complementar meu trabalho.

Além disso, eu assessoro a Depuatada Ada De Luca e estou me esforçando ao máximo para que depois que a monografia for apresentada para a banca, está possa ser transformada em projeto de lei... sobre a implantação do sistema de saúde as detentas catarinenses (o direto a um pré-natal e um parto assistido).

Fico grato pela atenção

Roberto Augusto Carvalho Lajus
(48) 32822093
(48) 99231684