Publicado em 23/05/2008 09:38

Um registro

Faço esse relato com a mais profunda consciência de que esse fato não poderia ficar só comigo

Em que pese meu compromisso com o TUDOIN, (Luiz Júnior e Beto Lemes), seja para escrever sobre política, resolvo hoje, fugir das determinações dos inteligentes amigos.

Acontece que com a morte de Zélia Gattai, que já era viúva de Jorge Amado, ocorre-me a lembrança de quando Sílio Santos e eu a conhecemos numa simples casa de uma pequena chácara no caminho de Goiânia para Trindade. Era a casa de alguém da família deles.

Estávamos nos preparativos de mais uma edição do GREMI, num dos anos de 1978/1980. Cumprindo com uma programação em Goiânia, tomamos conhecimento de que Jorge Amado estava por aqui. Ele fez tramento das vistas com oftamologistas de Goiânia. Ao sabermos da presença do casal em nossa capital, fomos até a Televisão Anhanguera e lá obtivemos a informação de que se hospedavam na chácara de parentes, e nos deram algumas referências: saída para Trindade, perto da Polícia Rodoviária, nas imediações do Conjunto Vera Cruz. Quase às cegas, fomos em busca do endereço na esperança de encontrar Jorge Amado e convidá-lo para fazer presença no GREMI. Após uma longa procura, encontramos a chácara.

Combinamos do Sílio chamar o morador batendo palmas próximo da porta da sala e eu falaria com quem aparecesse. Veio uma jovem e nós a perguntamos se ali estava Jorge Amado. Com um pouco de dúvida e recebiada, ela respondeu que sim. Ato contínuo, apareceu na janela uma senhora que falara com sotaque nordestino, muito altiva e determinada, quando estabelecemos um diálogo mais ou menos assim:

Zélia Gattai perguntou quem éramos nós.
Eu disse ser Prefeito de Inhumas e que juntamente com Sílio, fazíamos parte do Conselho de um Clube de Serviço - Clube dos Trinta -, e discorremos rapidamente a respeito do festival de artes. Entregamos um folder e mais alguma informação. Ela pediu licença e foi falar com Jorge. Após uns cinco minutos voltou com um bilhete do saudoso escritor. No texto ele agradecia o convite; desejava sucesso, mas que não poderia estar presente, pois estava em repouso - tratamento das vistas. Agradecemos Zélia Gattai e voltamos para Inhumas com troféu nas mãos: um bilhete do Jorge Amado e  ventura de termos falado pessoalmente com sua mulher.

O bilhete foi lido em público no decorrer da programação artística do GREMI.

Faço esse relato com a mais profunda consciência de que esse fato não poderia ficar só comigo, notamente quando Zélia se vai. Entretanto, fico preocupado porque o amigo Sílio Santos, Jorge Amado e Zélia Gattai já foram para a morada etena e o bilhete sumiu nos guardados do GREMI. Por conseguinte, só a minha palavra e, eventualmente, algum trinteano ou alguém do Conselho Deliberativo do Clube dos Trinta que tenha esse fato na lembrança. Entre correr o risco da dúvida de alguém, relatando o acontecido e não torná-lo público, opto pela segunda opção - contar ahistória como contada está.

Irondes de Morais

Irondes de Morais

Graduação: Direito pela UFG Pós-Graduação - Especialização em: Direito Agrário pela UFG Política e Estratégia pela UCG/ADESG Direito Tributário - convênio UCG/IGDT
Reforma Tributária: Uma medida Urgente e Necessária;Conteúdo Jurídico do Princípio da igualdade;Elisão Tributária;Ação Civil Pública em Matéria Tributária;Efeito Social da Terra

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Lista de Comentários

Ednalva de Paula Lima
05/03/2010 06:53

GREMI

Gostaria muito de que todos os inhumenses tivessem a oportunidade de conhecer a história dos fetivais realizados em Inhumas, que através de uma pesquisa escolar pouco foi encontrado sobre este festival (GREMI) - relatei o pouco que tive a honra de presenciar - que tanto contribuiu para a sociedade inhumense e nos deixou uma imensa saudade dos bons tempos de cultura em Inhumas.
Cristiano M. da Silva
23/05/2008 22:06

As "Morais" da história

As "Morais" da história Dr. Irondes, ainda bem que, diferentemente do orçamento público, o espaço jornalístico não é engessado, permitindo chegar até nós, leitores, os bilhetes que de fato interessam. Mais que um bilhete, uma carta de política humana, na qual aprendemos, com seu exemplo, a militar. Não que um manuscrito de Jorge Amado, entregue pelas mãos de Zélia, não tenha seu valor. Mas, o bilhete que tem mesmo a ver é esse que devolve vida a Zélia, ao Jorge, ao Silio. Morais da história: Por suas mãos, Dr. Irondes, o Clube não é mais de trinta, inclui agora muitos de seus leitores. E os trinta que compunham a saudosa instituição que nos brindava com o Gremi se imortalizam. O movimento foi bem ao contrário e oxalá seja assim por mais longos anos: ao invés de visitar essa gente que se foi, Dr. Irondes, eles vêem visitá-lo...ao invés de morrer para rever os velhos amigos, eles, os velhos amigos é que ganham vida para revê-lo. Obrigado por esse presente!