Publicado em 28/10/2007 23:32

VEJA MAIS ESTA

Prometo que não toco mais no assunto. Será esta a última vez, espero. Mas que ler a revista Veja está insuport

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Prometo que não toco mais no assunto. Será esta a última vez, espero. Mas que ler a revista Veja está insuportável, está. Os temas são tratados com uma singeleza impressionante, como se a sociologia, a psicologia social fossem inúteis. Pensadores então, são desprezíveis, jogados na lata do lixo.

Na última edição a publicação falou sobre o filme brasileiro Tropa de Elite, fazendo elogios rasgados. O filme realmente é bom, mas é uma obra de arte e não um código de conduta a ser seguido. Na elaboração de uma obra, o artista normalmente não se preocupa em dar lição de moral, mas apenas produzir seu trabalho, cabendo ao espectador, ou leitor, a interpretação que melhor seu cérebro alcançar. Pode ser até mesmo uma peça de puro entretenimento.

Corriqueiramente a história é contada do ponto de vista de determinado personagem, da forma que ele enxerga os fatos. Num crime, por exemplo, a visão passada pode ser a da vítima, do algoz, de um observador à distância ou presente. No caso do filme, o autor optou pela visão da polícia no combate ao crime. Não se discutiu, porque não foi a proposta da obra, o delito, o delinqüente, as causas e efeitos. Poder-se-ia adentrar nesses temas? Sim, mas o autor não quis e pronto. É o direito a liberdade de criação. O filme é bom, porque cumpriu rigorosamente ao que se propôs.

A conclusão de Veja foi que, a produção é boa, porque tratou bandido como bandido e que discutir as causas da criminalidade é coisa da esquerda ultrapassada. Isto vale dizer que o tempo dos pensadores já passou, agora é hora de ação. Ou seja, a criminalidade se combate com violência criminosa (os atos ali mostrados são contrários à lei). Mas, no pensamento do articulista, sendo no combate ao crime, tudo é justificável. Deveríamos receber a abordagem como um elogio, porque ficou parecendo que pensar é privilégio da esquerda.

Entendo que o povo reagir emotivamente aos fatos danosos, é normal. O que é inadmissível é um jornalista, formador de opinião, agir assim.

Sempre que algo choca a opinião pública, pede-se mais rigor na lei, das autoridades no combate a violência e sempre aparece a proposta da instituição da pena de morte. Quando você se posiciona contrário, vem a afirmação imbecil. Se uma filha sua fosse estuprada por um bandido, você defenderia a pena de morte. Diante de tamanha provocação, a minha resposta é: caso isto viesse a acontecer com minha filha e eu pegasse o bandido, eu o mataria com pauladas, dentadas, enforcado, faria picadinho dele. Então o interlocutor vai à loucura: Ta vendo? Ta vendo? Aí então eu arremato para sua decepção. Minha reposta foi a de um pai apaixonado, revoltado, ensandecido, cujos atos de revide são plenamente justificáveis, principalmente se ocorridos de imediato. A resposta de um jurista, não envolvido emocionalmente num caso específico, é diferente. Não cabe ao Estado combater a violência, com mais violência. Pelo menos um estado ideal, que todos queremos.

Reconheço que a situação que chegou a sociedade é desesperadora e que algo precisa ser feito com urgência, sem maiores discussões acadêmicas. Mas não se pode negar o direito das pessoas mais sensatas, estudiosas, buscarem as causas da criminalidade. O que a Veja prega é a proscrição do pensamento, o que é lamentável.

Imagine o leitor ou a leitora, o caso de uma onça que, enraivecida invadisse uma cidade e, fugindo de toda e qualquer perseguição, saísse matando gente a torto e à direita (menos à esquerda). Depois de espalhar o terror, quando ninguém mais tinha coragem de sair de casa, ela finalmente é morta por um policial valente. Lógico que haveria comemoração e muitos iriam pisoteá-la (depois da onça morta é fácil). Mas, com toda certeza, no meio do povo, alguém estaria pensando: por que ela invadiu a cidade com tanta violência? Seria vingança? Seria por que seu habitat (sua casa) foi destruída pelo homem? Será por que... Para a revista Veja, este seria um esquerdista.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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Raul Isaias Campos
30/10/2007 20:27

Uma honra

Caro senhor doutor Davi Isaias, vulgo Pai, mais uma vez me sinto honrado em ter sido gerado por alguem com tanta sabedoria. O seu texto; na minha opnião, o melhor de sua autoria; descreve com clareza a banalização da imprensa nacional. Pois a cada notícia e reportagem nos deparamos com meras conjecturas, sendo que o achismo tomou o lugar do embasamento. Parabenizo pelas belas palavras e deixo uma citaçao ( algo que não se encontra no vocabulário de VEJA) para aquelas pessoas que ainda não conseguiram abandonar a Caverna de Platao. Saber é Poder Francis Bacon