Publicado em 22/09/2006 17:37

VIDA DE EQUILIBRISTA

O CAÇADOR DE VELÓRIOS

As dificuldades existentes em uma eleição já seriam suficientes, não fossem as outras que surgem por iniciativa dos envolvidos, por infelicidade na hora de sanar as divergências ou mesmo porque existem situações que são incontornáveis.

Aquela era a primeira eleição direta para governador, depois de muitos anos de nomeações pela Ditadura Militar que dirigia o Brasil. Concomitantemente havia eleição para senadores, deputados, prefeitos e vereadores. Foi o pleito do voto vinculado, lembra-se?

Para o executivo municipal a legislação permitia o lançamento de até três candidatos. O PMDB de Inhumas concorreu à prefeitura com os nomes de José Essado, Vilmar de Brito e Paulo Sidney e ainda lançou a deputado estadual Aparecido de Paula. Não houve consenso quanto o apoio a ser dado ao candidato a deputado federal. Assim, Soyer e Irondes foram de Genésio de Barros e José Essado e Cia de Iran Saraiva.

Amorim, personagem conhecidíssimo na cidade pelas suas histórias fantásticas, capacidade de fazer os outros rirem com sua conversa de matuto, que lembra o Geraldinho, humorista descoberto por Amilton Carneiro do Frutos da Terra da TV Anhanguera, era candidato a vereador.

Muita gente ia aos comícios somente para ouvir e rir de seus discursos sempre bem humorados. O homem realmente era uma fera em matéria de fazer graça. Substituiria tranqüilamente o Nerson da Capitinga.

Ele, no entanto, embora fosse esmerado nos gracejos, também tinha suas necessidades básicas, como qualquer brasileiro. Pior ainda, porque possuia um caminhão Chevrolet bastante usado, para não dizer velho, que não queria rodar. Como eleição amolece os corações, Iram Saraiva, muito generoso, ajudou no concerto do motor e Genésio de Barros, também muito caridoso, doou os pneus.

A campanha corria bem, com o Amorim se equilibrando entre as duas candidaturas, fazendo tudo para não desagradar ninguém, porque uma coisa que ele não sabe ser, é ingrato. Seria inimaginável estarem os dois candidatos no mesmo palanque, porquanto disputavam a mesma vaga. Mas como política é igual a futebol e nem sempre dá a lógica, Iram Saraiva e Genésio de Barros foram sim senhor, para o mesmo palanque. Aconteceu num evento na Vila América.

Nem todos os candidatos a vereador usam da palavra nos comícios, porque são muitos e ficaria excessivamente enfadonho para o público. Assim, é normalmente realizado um sorteio para decidir quem fala, dando sempre preferência para os candidatos moradores do local onde o mesmo é realizado. Como aquele era na Vila América, reduto do Amorim, era sua vez de falar. Ele ainda tentou abrir mão da oportunidade, para Divino Rufino, mas seu gesto de desprendimento não foi entendido pelo coordenador de campanha e não teve outro jeito, a não ser usar da palavra.

Quando pegou o microfone, foi ladeado por Iram e Genésio. Começou fazendo suas piadinhas de sempre, provocando risos, e passou a elogiar demoradamente os candidatos: Pra prefeito, minha gente, é só fechá o zói e escoiê carqué dos mininu. Pra deputado estadual, vamo de Aparecido, qui é home da roça, acustumado a pegá no chifre de boi. Pra vereador, a cambada é boa e eu tô no mei. Cê pode votá na Gasparina, no Nego Soto, Tarcílio Barbosa, Ferreira, Mãe Veia, mas num esqueça do amigo Amorim. Assim prolongava no falatório, evitando citar o federal, que estava cada um de um lado seu. Foi levando, até que alguém lhe puxou a camisa, dando sinal para terminar. Não tinha outro jeito e deveria falar nos homens. Então concluiu, apontando para um e para o outro:

Quanto ao federal, tem esses dois moços

E eu sô qui nem sucuri.

Uma hora eu tô de lá,

na outra tô daqui.

Terminou rápido e desceu correndo do palanque sem se despedir, deixando todos rolando de rir.

Davi Isaias da Silva

Davi Isaias da Silva

Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penal
Advogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI

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