Cultura

Verdes Cinzas

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          Aquela acre sensação, embora lentamente, corrompia-o. Instantes intercalados forçavam sorrir e sorvia-se cada vez mais na figurada paradoxal, mas concreta situação. Era constante. Não tinha saídas. A sensação impercebível e intensa causava arrepios tensos, erupções. Contorcia-se assustadoramente. Engasgava-se. Engasgavam. Seu corpo sussurrava gritos. Esvaídos em dois tempos. Desistidos.



          Sumia-se o ar. Os instantes de agonia se acumulavam à eternidade breve daquele momento. O sumário acenar de luz oscilante, mostrada em seus cento e oitenta e cinco mil e trinta e oito dias de insônias, fomes e mortes presenciadas a cada momento, hauria-se. Já acolhera tantas pessoas quais se anteciparam ou retardaram esse destino... Agora era ele. Somente. Detritos de encanto. Os pagamentos pelo bem que tanto fazia, eram agora recebidos. Tantos. Pagava-se de dor.


          Suspirou. Vermelhos e gotas escorriam pela noite fria da praça central. A madrugada e os noctâmbulos sempre presentes fizeram desse momento, enigmático. Desavenças e luzes de sangues escuros corriam pelo gélido concreto. Todas elas. Lembranças de ilusões envilecidas. Seus olhos escuros, de verdes cítricos que pintavam a calçada suja e gasta pelos passos de seres inconscientes, se apagavam. Continuava imóvel ao relento, gotejando mistas tristezas alegres.



          O inferno surgia-se do alto. Um vermelho desmaiado iluminou a praça, a calçada, Bruno. Não. Não era mais Bruno. Nem era. Eram restos de sentimentos impuros. Fragmentos de preceitos falidos. Desmaiados seres rastejavam sobre sua massa. Ressentimentos e contos desgraçados. Restavam lembranças de verdes paisagens.



          O último fio de calor era dissipado pelo vento frio de ressacas e marés e nada se via. Nada se veria. Nem por si nem pelos seres que o coabitavam. Não se sabe se eram falsas as culpas que carregava. Talvez, ele fosse falso. Colhiam flores mortas os seus próximos. Roma de falsos cognatos.



          Continuava imóvel e já era desagradável aproximar-se, tamanho odor que exalava. Havia se ido. Haviam-se ido sonhos. Decepados verões futuros que não se fariam existir. Dali para frente era gélido. Invernos perpétuos tomariam conta de seu corrompido coração. Assim como silêncios.



          Fabulando a surpresa do fato vieram e tentaram salvá-lo. Pulmões consumidos a todo vapor e vapores. Coração petrificado. Todo corpo decompunha-se. Todo povo decompunha-se. Afastavam-se da nostálgica cena insalubre. Chuvas salgadas se debruçavam sobre recordações de horas perdidas.



          E o tempo fez-se passado. Bruno fez-se lembrança. Eulália se matou em próprias violências. Restava o mundo. Fragmentadas ilusões pacíficas. Verdes cinzas de versos frustrados.



Wemerson Fraga

wemersonfraga@gmail.com


Ensino Médio Incompleto
Estudante do 3º ano do ensino médio do Colégio OLY. Colunista e colaborador do Jornal Mercadão, da seção de cultura do site TUDOIN e do site litetrário Garganta da Serpente. Soma 26 prêmios artísticos, científicos e literários. 1º e 2º Lugar no III Concurso Nacional de Conto de Cordeiro (RJ)/Troféu Lygia Fagundes Telles. "Medalha de Ouro" pelo 1º Lugar Juvenil no III Concurso de Poesias "Letras do Divino", em Itanhaém-SP. "Medalha de Prata" pelo II Concurso Gente Miúda de Conto - Medalha Monteiro Lobato, promovido pela Academia PanAmericana de Letras e Artes. 1º Lugar Juvenil do VI Concurso Kelps de Poesia Falada (2007). Selecionado para antologia do IV Concurso Nacional de Literatura de Caçu nas categorias conto e poesia. Campeão da XXXI SACEM em conto, crônica e fábula. Premiado no Concurso Literário Internacional - Prêmio Cidade de Conselheiro Lafaeite (MG) na categoria crônica. Vencedor do concurso de texto e imagem ambiental "Minha Cidade é Meu Planeta", promovido pela Revista Época e British Council. Vencedor nacional de texto na 4ª Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente. Delegado brasileiro no Fórum Internacional Estudantil 2007, em Londres.



A revisão e correção do artigo é de inteira responsabilidade do colunista.



Comentários

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E como se não bastasse mais uma prova de que Wemerson Charlles faz literatura de verdade. Texto profundo e digno de reflexão. Nas escritas deste autor, nada se faz evidente, todo o tudo requer um mínimo de reflexão, um mínimo de atenção. Continue com essa linha de texto, por que Inhumas já está cansada de uma certa mesmice literária. Abraços e feliz natal.

Renan Alves Melo
24/12/2006 | 23:23

Louvável...

É louvável o jovem escritor conseguir transmitir-nos o doce sabor da descoberta entre linhas de um texto. Congratulações pela crônica belíssima e pela sútil maneira de escrever sobre este assunto, tão polêmico.

Carlos Emanuel da Costa
30/12/2006 | 23:23

Verdes Cinzas

Gostei muito de seu texto. Parabéns!

Cláudia Alves
31/12/2006 | 16:16

Um remanescente

Boa noite Wemerson! Obrigado pelo presente que me deste ao indicar o texto verdes cinzas. É formidável encontrar pessoas com tão belo talento para escrever. Já não se percebe atualmente tanto interesse nas pessoas para escrever e isso parece está se perdendo no decorrer do tempo. Mas não é o que acontece contigo; ao contrário, tu tens mostrado para cada um de nós, teus leitores que escrever é muito mais que um ato, é uma bela arte que junta sutileza, maestria, criatividade, dedicação e, sobre tudo o desejo da compartilhar com as pessoas as melhores coisas que um escritor pode oferecer a alguém. Parabéns! Um forte abraço

Tony Fraga
23/01/2007 | 21:21

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