AMANDO EM SETEMBRO
Envolto numa névoa estranha, estava acontecendo. Naquela data, não me deixou quieto nem o velório de minha...
Envolto numa névoa estranha, estava acontecendo. Naquela data, não me deixou quieto nem o velório de minha avó paterna, que morreu louca. Meu quarto ficava num palácio, com pajens e tudo. Não me importei com o ambiente fúnebre, nem liguei para os nobres que chegavam para bajular meu gordo pai.
Cada vez mais estranha, a névoa me inquietava e me enchia de saudade... saudade daquela bailarina do Teatro São João, no Rio, a loira francesinha Noemi. Ela é fogo!
Às oito horas da noite bati palmas no quarto. Entrou o criado e eu lhe disse, em voz baixa, para trazer a minha capa negra e o meu chapéu de abas largas. Vendo que eu ia sair, ele me advertiu, com respeito, que a minha saída seria um escândalo... melhor usar o alçapão da Sala dos Pássaros, disfarçado no assoalho, sob um tapete. E usei o alçapão, saltei para o andar térreo, abri uma das portas do fundo e me mandei pra a rua.
No Largo do Rocio, num sobrado, uma luz acesa lá em cima (é o quarto dela!). Bati na porta. Noemi surgiu na sacada; gesticulei para abrir a porta. Ela já conhecia minhas doidices. Pouco depois eu me entreguei nos seus braços e nos amamos. Ela, pequena, fascinante e doce. Eu, com dezessete anos de idade, fogoso no meu primeiro amor.
Meu pai, um rei, descobriu, e tratou de arranjar um tenente da sua guarda para se casar com a Noemi; despachou os dois para Pernambuco. Ao saber, sofri um ataque.
Outra névoa. A loirinha francesa Noemi me machucou muito, mas, obrigado a respeitar meu pai, acabei me casando na Áustria, sem nunca ter ido lá, apenas representado pelo arquiduque Carlos.
Meus passos parecem lentos. Devem ser em direção à minha mulher austríaca, aquela que querem que eu ame e que me ajude a dirigir o meu reino.
Mais névoa e mais tempo que se passa. Estou de espada na mão, apesar de ter vivido encontro de amor, em setembro de flores brasileiras. Apesar de nascido em Portugal, prefiro, ei!, prefiro a causa brasileira.
Pulando da cama, levei o maior susto: sonhei que eu era D. Pedro I, filho de D. João VI e neto de D. Maria I, a louca, rainha de Portugal. Sonhei que amei e escolhi o Brasil, só me deixando decepcionado, hoje, certos jovens de boné na cabeça que ouvem sem reverência nosso imponente Hino Nacional.
Valdemes Menezes
Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco VoadorRadicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.
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