As chagas de Inhumas I
Para quem Inhumas também decepciona... As chagas de Inhumas
Basta de literatura fingida! Cansei de ser bondoso. Cansei. Até que me esforço, ou melhor, me esforcei na ilusão de que sou feliz nessa cidade, na desilusão de que Inhumas é uma cidade agradável de se viver. Mas agora chega. Cansei de camuflar e camuflar e camuflar e camuflar os fatos. É chegada a hora da verdade. O momento de expor a verdadeira e triste realidade que nos acerca. E antes que os anônimos de plantão iniciem suas labutas de críticas, já vou avisando: não tenho como intuito degradar um partido aqui, outro acolá. De forma alguma. Minha motivação é justamente outra. Apenas conduzirei a realidade nessas linhas. Com os pontos em seus lugares e os pingos nos seus is.
Um dos maiores pandemônios de Inhumas se chama agência bancária, com raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. Quase que extintas. Ao lembrar, durante algum pesadelo, que na manhã seguinte o indivíduo terá que se embarcar nessa caravela de tormentas, já se desanima. Pronto. Mais um dia de estresses. Mais um dia de enxaquecas. Mais um dia de discussões. E ainda, temos as pérolas. Impossíveis de se esquecer. São duas: as filas inhumenses/indianas e o péssimo atendimento desses lugares. Porque motivo grande parte dos bancários trabalham de mau humor? O que aflige tanto esses seres? Que karma é esse que nem a ciência desvenda? Sempre que vou a algum banco de Inhumas tenho a sensação de que estou ali para pagar todos os meus pecados, como se o concursado do outro lado do balcão fosse o patrão. É a tal da prepotência emaranhada em quase todas as esquinas da cidade.
- Moça, eu gostaria de tirar uma dúvida.
A bancaria continua ao telefone.
- Moça, eu preciso que a senhora me...
A bancária continua ao telefone.
- Oi, moça, você pode me ajudar por...
A bancária, após gargalhar ao telefone, se volta para mim e diz com rispidez:
- O senhor pode esperar um instante. Estou ocupada.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero que ela conte como foi sua noite de ontem, com quem saiu, quem beijou, qual música do show do César Menotti e Fabiano ela mais gostou. Espero ela contar para a amiga do outro lado da linha que o minino bunitim não olhou para ela.
Espero.
Espero.
Esperamos.
- Moça...
Com fúria, volta o olhar avermelhado para mim:
- Camila, espera só um pouco, tenho que atender um rapaz aqui. Espera, um pouco. Já volto. Viu?
E como se não bastasse, ela ainda pergunta:
- Deseja alguma coisa?
Aí eu me controlo. Conto até mil para não voar no pescoço dela. Não, imagina, só estou de passeio.
E as filas?! Meu Deus! As filas! Devo ressaltar uma questão: o que irrita a existência de cada cidadão não são as filas inhumenses/indianas, propriamente ditas. O mal, o enervante, é o banco possuir cinco, seis, oito caixas e somente dois estarem funcionando. Por que isso? Para que me iludir com aquela grande quantidade de guinches? O que eu fiz contra os bancários para sofrer tanto? O que fizemos contra os bancários? O mais engraçado é que ainda fazem greve. Como se os dias de expediente normal já não fossem, pelo menos para grande parte deles.
Infelizmente. Não tenho mais tempo para escrever, tenho que ir ao banco. E quanto mais cedo, menos martírio. Se é que isso é possível.
Até a próxima chaga inhumense.
Renan Alves Melo
Aluno do Curso Superior de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Goiás.Vencedor de 37 prêmios literários e artísticos na SACEM; Primeiro colocado no prêmio Kelps de poesia falada do ano de 2005; Finalista prêmio SESC de literatura 2006; Primeiro colocado no concurso asas da literatura GREMI; Terceiro colocado no Prêmio Sesi Arte e Criatividade; Segundo Colocado no Prêmio Nacional FAP/FADAP de poesia. Possui um total de 62 prêmios (entre literários e artísticos). Brevemente seu primeiro livro de poesia "Noctâmbulos" será lançado, já que o mesmo foi aprovado pela Lei Goyazes 2007.
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