As chagas de Inhumas II
Para quem queria e não queria... o retrono das chagas.
Devo confessar. Devo sim. Tive certo medo quanto a reação que a crônica anterior causaria. Por que? Sei lá... sair na rua, alegre e a sorrir, e de repente ser atingido por uma pedrada na cabeça, de algum bancário enlouquecido, ou do filho do bancário enlouquecido, ou da mulher enlouquecida do bancário enlouquecido. Pois, como todos sabem, o que não falta em Inhumas são pedras arremessadas contra os inimigos, eu que os diga. Aquela prostituta (lembram?) da estória bíblica, em Inhumas não sobreviveria de maneira alguma. Seria apedrejada até a morte. Por que para grande partes dos inhumenses, o teto de vidro é uma utopia. Constróem seus castelos arrogantes e resto (cada vez mais resto) que se foda. Essa é a cidade que vivo sobrevivendo. Tudo não passa de uma típica cultura provinciana que a nossa crítica pretende reverter.
Mas, contudo, porém, todavia, entretanto, para minha surpresa a reação foi distinta. Comentários e mais comentários, agregados a uma notória aprovação da cidade, me alegraram. Alegraram-me não pelo fato de alimentar meu ego do querer aparecer (como afirmou a oposição). O motivo maior de minha alegria foi perceber que na cidade de Inhumas existem indivíduos cujas faculdades mentais despertam-nos para a crítica. Para a democracia no seu estágio mais invejável.
É por isso que continuo com as chagas da cidade de Inhumas. Que são tantas. Mas tantas. Mas tantas. Que dá até pena ter que escolher apenas uma. Após um sorteio, meus pensamentos apontaram a próxima. O segundo pandemônio da cidade de Inhumas se chama... hospital.
Poderia parar aqui. Não dizer mais nada. E deixar que cada indivíduo se lembrasse daquela vez em que o hospital se fez uma chaga, um pandemônio em sua vida. Todos temos estórias de hospitais. E elas gritam pela crítica, com vontade. Devo ressaltar (para não comentarem depois) que a crítica é referente a todos os hospitais que a carapuça servir. Ou seja, não tenho como intuito difamar a imagem do hospital público e enaltecer a do particular. Pelo contrário, para mim em muitos aspectos eles são farinha do mesmo saco. Onde colocamos esse saco? Não sei.
Certo dia, a avó de um amigo meu chegou num determinado hospital inhumense. Ela passava mal. Mas estava longe de morrer. O médico, para variar, não se fazia presente. Provavelmente, contava suas infinitas cabeças de gado nas redondezas da Goiabeira. Ocupado demais para atender a avó de meu amigo, decidiu, sem avaliar o estado da coitada, a utilização de certo remédio. Prescreveu pelo telefone. A secretária de um lado, segurava o gancho do aparelho enquanto anotava o remédio, mascando um chiclete. Ele, o médico, do outro lado, ia falando qualquer coisa de seu celular (de última tecnologia) para se ver livre daquilo. Resultado: a senhora era alérgica e morreu nos braços dos familiares.
Certa vez, vocês não vão acreditar, o doutor enquanto atendia um parente meu, fumava dentro do ambulatório. Isso mesmo. Fumava. Tragava. Soltava aquela fumaça escura, sufocante e nojenta no ar. Sentia-se a pessoa mais certa do mundo. E, para completar, receitou um remédio de pressão alta sem ao menos aferir a pressão do coitado. Agora os doutores (pelo menos a grande parte) se fazem de videntes também.
Daí eu pergunto? Inhumas é ou não é uma cidade de chagas transbordantes. As chagas inhumenses são tão fortes que se fazem presentes até nos hospitais (lugar que, supostamente, serviria para ajuda). E continuam morrendo pessoas devido a irresponsabilidade de determinados (oposição, eu disse determinados, viu?) profissionais. O mais irônico: ainda os chamamos de doutor. E é claro, temos aqueles caso em que a consulta é marcada para uma data tão distante que dependendo do estado de saúde, é mais fácil comprar um caixão na funerária mais próxima.
Não poderia esquecer. Não posso. Inhumas é realmente a cidade do péssimo, do tétrico, do lastimável atendimento nos hospitais (pelo menos os que já fui até hoje). Umas mulheres mal amadas, emburradas, brutas, que por vestirem um uniforme mais ajeitadadinho que dos demais assalariados, se acham as rainhas da cocada preta, da branca e da amarela. Se pedimos informação, elas não respondem. Se não pedimos informação, elas não perguntam. Se pedimos um favor, elas não fazem. Se não pedimos um favor, elas poderiam ter feito. Se entregamos um documento, está errado. Se não entregamos um documento, aquele poderia ser o certo. Se pedimos isso, fazem aquilo. Se fazemos aquilo, não fazem isso. E mais uma vez o telefone entra em cena. Ocupado. Sempre ocupado. Dessa vez marcando de ir no show da Banda Calypso, enquanto a senhora com pressão baixa, pressão alta e diabetes, sussurra alguma ajuda da atendente. Em vão?
Até a próxima chaga inhumense.
Renan Alves Melo
Aluno do Curso Superior de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Goiás.Vencedor de 37 prêmios literários e artísticos na SACEM; Primeiro colocado no prêmio Kelps de poesia falada do ano de 2005; Finalista prêmio SESC de literatura 2006; Primeiro colocado no concurso asas da literatura GREMI; Terceiro colocado no Prêmio Sesi Arte e Criatividade; Segundo Colocado no Prêmio Nacional FAP/FADAP de poesia. Possui um total de 62 prêmios (entre literários e artísticos). Brevemente seu primeiro livro de poesia "Noctâmbulos" será lançado, já que o mesmo foi aprovado pela Lei Goyazes 2007.
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