Beijar para se mostrar
Descobri que a intimidade está morrendo. Ao tomar umas e outras no boteco, o sujeito soltou a dele, revelando
Descobri que a intimidade está morrendo. Ao tomar umas e outras no boteco, o sujeito soltou a dele, revelando que beijava escancaradamente a sua companheira, e muito, em público; sem se importar com quem observasse.
Na minha, achei um exagero a exibição. Não é que seja contra o sexo (eu também gosto), mas contra a libertinagem. Acho que ofende. Afinal, o desejo sempre existiu, e não existiria esse Planeta tão povoado se não houvesse o desejo, o sexo. Só um porém: resguardar a intimidade foi palavra de ordem durante séculos, fazendo os filhos, porém, sem expor os atos.
Vai daí essa turma do agarra-agarra, que abre a boca da fulana e ela aceita ou quer, sem ligar às pessoas por perto, me incomoda. Naturalmente daí a pouco, vão transar. É o que pensei, invejoso daquela boca sensual entregue ao devorador namorado.
Pois não há de ver que me enganei? O tal sujeito me revelou que apesar de todos aqueles amassos, não faria nada... Mas como?! Eu, mero espectador, mesmo fingindo ignorar a cena daqueles lábios sensuais e seios à mostra, fiquei doidinho da silva. E ele, dono da bola, que marcaria o gol se quisesse, chutaria na trave.
Não, não pode ser!...
Aí me veio a lição: quando a gente retornava do banheiro, o sujeito puxou papo, me dizendo orgulhoso que beijava para se mostrar.
Francamente!... Fiquei sonhando, buscando a imagem do mulherengo rei Davi, que também gostava de se mostrar. Ao som de trobetas, comemorando a conquista de Jerusalém, trazendo a Arca da Aliança, relíquia religiosa do antigo Israel, Davi pulava e dançava à frente de uma procissão de soldados, sacerdotes e músicos. Sua veste (éfode) de linho era curta; a multidão via seus órgãos genitais. Ao entrar no palácio, sua esposa Mical, que avistara a cena da janela, chamou a atenção do marido p ela indecente exibição, descobrindo-se aos olhos das servas de seus servos. O rei não ficou nem aí: Perante o Senhor, que me escolheu (...), me tenho alegrado (...), e das servas de quem falaste elas me honrarão (Samuel, II-6:16, 20, 21, 22).
No bar, o rei Davi, sumiu da minha memória. Voltei as vistas à mesa vizinha. O casal continuava o espetáculo, só interrompendo para saborear algum tira-gosto.
Ontem como hoje, parece que a exibição é um fato infinito.
Mas não fico abandonado. Para me fazer companhia, uma loira gostosa se aproxima e me beija goela abaixo, suavemente... seu nome é Brahma.
Valdemes Menezes
Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco VoadorRadicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.
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