Canto do Pracista 4º Cap.
Confira as novidades do 4º capítulo do Canto do Pracista.
Desta união nasceram dez filhos. Cada um com personalidades bem diferentes. Não só de uns pelos outros mas também pela juventude da época. Eram polêmicos, destemidos, determinados, o que os fazia se diferenciarem totalmente no meio social.
Depois da família fazerem várias mudanças, Nelson comprou a casa da avenida Bernardo Sayão. Na época a rodovia GO-070 passava por dentro da cidade, na porta da casa do casal. E a profissão mais antiga do mundo tinha como logradouro o lado de baixo da avenida.
Nelson, depois de muito pensar em como distinguir sua família das demais ali estabelecidas, escreveu no muro a seguinte expressão AQUI FAMÍLIA. Isto fazia com quem ia em busca de divertimentos com mulheres não se atreviam a chegar nem perto da casa de Nelson.
Naquela época; época esta em que a vida sossegada estava chegando ao fim, e que já anunciava os sinais de progresso, os filhos do casal não pararam no tempo; a cabeça de cada um avançava conforme os fatos históricos relevantes que mais tarde iriam compor a história do mundo. Mesmo no anonimato esta geração que estava alcançando espaços faria uma modificação completa no planeta.
A infância foi muito gostosa e ao mesmo tempo, aconteceram fatos que marcaram e mudaram para sempre a vida de Nelson e Terezinha. Dinorah nunca deixou de ser quem era. Sempre colocando as pessoas contra a parede e praticando seus atos de maldades.
Era uma mulher bonita dos olhos azuis, a expressão do rosto marcante e dotada de uma personalidade difícil de ser contida. Até nas brincadeiras com seus netos ela não deixava muitas vezes de ser má. Era acostumada a colocar uma coberta nas costas um chapéu e encher o rosto de borra de café para passar medo nas crianças!
Brigava muito com seu Luiz, empregados e com os filhos. Mas ao mesmo tempo gostava de doar. Parte do terreno do cemitério Santana , o terreno onde hoje é a Agencia Prisional de Inhumas foram algumas de suas doações. Ajudava muito a igreja católica, enfim gostava também de fazer algo bom.
Num determinado início de noite, Dinorah e Luiz tiveram uma discussão, nunca souberam de fato o que aconteceu. Em meio ao silêncio ouve-se o estampido de um tiro. Luiz jaz sobre a cama.
Um tiro certeiro no coração, levou sua vida...
Muitos mistérios e mitos envolveram esta morte em Inhumas. Ninguém nunca conseguira explicar o fato, ainda mais quando envolvia a personagem Dinorah, nem autoridades se atreveram a desvendar o acontecido.
Tereza como era apaixonada pelo pai sentiu imensamente a partida repentina dele.
Ela estava grávida do seu penúltimo filho... Ficou acometida de uma profunda tristeza. Ninguém nunca lhe explicara de fato o que ocorreu naquela noite. Esta dúvida acompanhou Tereza por toda sua existência...
E a vida continuou em meio a tantas divergências...
Na casa da família, trabalhavam sempre pessoas prestando serviços. Havia uma pessoa para lavar as roupas, pois não tinha máquinas de lavar e as roupas usadas em oficina de carros eram muito sujas. D. Geraldinha lavava, fervia e passava a roupa da casa. D. Cota além de ser babá também cozinhava. D. Benedita ia aos sábados para fazer quitandas e encher as latas da dispensa para passarem a semana. Silvinha era a arrumadeira e passadeira de roupas da casa. A moça alta era a Gentil, que também ajudava nos afazeres da casa. Maria Manca ajudava nos serviços pesados. Era uma imensa residência com horta, pomar... e estava sempre em construção mudando algo de lugar.
A necessidade de ter tantas pessoas envolvidas com a casa tinha uma explicação.Tereza não enxergava o suficiente para a lida da casa e ainda mais com sete meninos. E todos tinham que trabalhar e ajudar o pai na oficina.
As três meninas: a mais velha se casou bem jovem e as outras viviam ali em meio a tanto tumulto que a catrelagem provocava no dia a dia. Ali vivia o casal e filhos,e mais filhos de vizinhos. Era uma meninada e tanto. As noites eram repletas de brincadeiras e confusões de crianças.
O casal sentava a porta da casa e Nelson tocava violão e cantava, nosso pracista nunca deixou de encantar com seu canto a sua amada. E em meio as canções de amor, Nelson também cantava músicas engraçadas ( o amor de duas caveiras), durante a música criava-se um suspense... era a brincadeira preferida da meninada com o pai... Enquanto isto brincavam de salve latinha, pique esconde, camoom, pulavam corda, jogavam peteca e contavam histórias, brincavam de circo.Os lençóis serviam para armar a tenda do circo e redes improvisadas serviam de trapézio. As sombrinhas tinham o papel de equilibrar nossos pequenos artistas em cima das cordas...
As histórias preferidas eram as de terror, que falavam sobre lobisomem, mula sem cabeça, conde Drácula e várias outras...Aquelas que de alguma forma pudesse passar um susto em alguém. De preferência algum visitante.
Nesta época era muito comum intimidar a criançada passando medo com algum tipo de história ou personagem, mas nossos pequenos não se intimidavam e tornava as situações em comédia e utilizavam disto para rir deles mesmos quando caiam na própria cildada.
Na cidade de Inhumas tinha um senhor bem baixinho, que andava de terno escuro quase sempre sem tomar banho, os pés bem pequenos e nunca fazia a barba. Era ele o Chico Taboca, o barbeiro oficial dos filhos de Nelson. Ele cortava os cabelos dos meninos todos de topete parecendo militar. Isto era a morte para esse meninos tão ousados.
Na verdade o que eles queriam mesmo era ter cabelos compridos, loiros mesmo que fosse a marra, dar cavalos de pau, brigar na escola, quebrar vidraças...
E para não ficarem por baixo de terem os cabelos cortados assim, por este homem e ainda por uma máquina de raspar manual que mordia e mascava os cabelos, a turma de moleques colocaram um apelido no tal homem. Diziam ser ele o próprio lobisomem.
Tereza vivia ali em meio a tanta confusão de meninos e praticamente sem enxergar. Ela conhecia os talentosos pelo andar, falar e até mesmo nas artes mais terríveis que por lá aconteciam. Nelson trabalhava muito na oficina; dia e noite, e ali juntos estavam Terezinha, as crianças e uma garrafa de café para os fregueses da oficina. Nunca que alguém chegasse por lá e que não tivesse o famoso cafezinho.
Os natais eram mágicos. Além das atividades natalinas da igreja tinham também as noites de Natal em casa. Durante os teatros da igreja os papéis preferidos dos filhos do Nelson era representar os anjos ou então os reis magos, uma contradição por tudo que aprontavam.
O cheiro de Natal pairava no ar. As crianças viviam num mundo tão mágico que podiam ver nos céus estrelados de Inhumas o vôo rasante das renas que puxavam o trenó do Papai Noel e ouvir as gargalhadas do bom velhinho.
Mas, acima de todos os sentimentos natalinos, Nelson e Terezinha conseguiram transmitir a seus filhos o verdadeiro sentido da data. O NASCIMENTO DE JESUS CRISTO EM CADA CORAÇÃO. Transmitiu também o amor uns pelos outros, o respeito e temor a Deus nosso criador.
Nelson era um homem muito religioso e austero. Mas a turma de filhos eram polêmicos e aventureiros.
No natal ele saia a procura de uma árvore de cipreste, cortava a guia e levava para casa... depois de colocada a àrvore na lata de areia, era toda enfeitada pela crianças. Este espírito do Natal iria acompanhar esta família para sempre de geração a geração.
As festas em casa eram preparadas com muito amor. Nelson ia pra São Paulo buscar presentes e cestas natalinas para a comemoração do nascimento do Menino Jesus. Tereza precisava da ajuda de todos. Uns arrumavam a mesa, outros a arvore,o lanche do papai Noel, a chave ( aquelas bem grandes ainda) era colocada fora da fechadura da porta principal da casa para que Papai Noel pudesse entrar sem problemas...
Sem contar que o sonho da meninada era ter uma lareira por onde o velhinho pudesse descer. Mas sempre aparecia algum dos pestinhas e aprontava uma arte, tiravam os melhores chocolates das cestas ( na época era o bombom prestígio ) quebravam as castanhas nos portais, comiam as castanhas e deixavam as cascas para enganar... rasgavam os papéis de presentes pelo cantinho para ver o que era ... e utilizavam de todas as artimanhas de crianças...
Na casa havia uma tuia onde se guardava feijão, arroz, latas de gordura com carne, caixas de doces de goiaba que era feito com as frutas da cidade, e também as cestas de vime onde ficavam guardadas as delícias do natal. As cestas vinham recheadas de guloseimas ainda raras por aqui, pois tudo vinha de São Paulo. Enfim uma infinidade de coisas que as crianças amavam, pois era difícil a família que tinha acessos a este tipo de alimentos. O refrigerante preferido de todos era a krush, uma bebida com sabor de laranja.
Mas este delicioso refrigerante trazia consigo uma terrível realidade para nossos adorados meninos. Na época cuidava-se bastante da questão de vermes, pois não tinha água tratada e nem sistema de esgoto. Então o tratamento era feito com um lombrigueiro chamado PANVERMINA que era ingerido de madrugada junto com o refrigerante. O remédio, se é que assim podemos chamar; era uma capsula enorme contendo óleo e quando abria dentro do estomago era aquele gosto horrível de NÃO QUERO NUNCA MAIS.
O carro da família sempre tinha que ser grande; pois para carregar este número de crianças era praticamente impossível. Certa vez Nelson chegou de São Paulo com uma caixa enorme dentro da Kombi...Adivinhem... era a primeira TV da família e uma das poucas existentes na cidade .Era preto e branco, mas com esta turma da pesada, até a TV até ficava colorida com papel solofane. Foi o melhor presente de natal que todos, inclusive as crianças da vizinhança já haviam recebido.
Nas tardes todas as crianças tomavam banho, esfregavam os pés com sabugo de milho torrado que era pra tirar o macuco...jantavam e iam todos para a casa do seu Nelson assistir TV. Mas nosso pai de família, não deixava que as crianças tivessem acesso a certos programas.Era proibido assistir novelas que tinham beijo (redenção) a família Brother, o Conde Drácula... Só se podia assistir desenhos. Mas era o máximo poder ver na TV todos os sonhos de criança se realizando.
Era um deleite para todos assistir a programação chupando pirulitos feitos de melado de cana pela Das Dores... aqueles feitos na forma de madeira usando um canudinho de papel de raia.As vezes no lanche era servido a espiga do milho cozido lambuzado com manteiga de leite.
Outras vezes pamonha quentinha, pé de moleque feito com rapadura, e leite com goiabada. Biscoitos de queijo, peta, pão de queijo, Mané pelado...
Era aquela meninada misturada com coelhos, miquinhos, papagaios, terra vermelha, casa de piso vermelhão... a criançada da vizinhança... e muita traquinagem cometida pelos anjinhos.
Ali vivia uma família que mesmo desde o início fugiam as regras da época.
Em 1968, aproximando as festas do Natal, a família é acometida por uma triste tragédia.
Mara Arantes Costa
Nasceu em Inhumas aos 24 dias do mês de dezembro de 1958, filha de Nelson Arantes Costa e Terezinha Lôbo Costa.Busca transmitir aos inhumenses a importância dos fatos históricos ocorridos e fundamentaram o passado da história dos cidadãos inhumenses. Busca mostrar a força contida nos filhos da cidade das Goiabeiras.
Lista de Comentários
BJOS
É o que vejo nesse seu trabalho de escritora: o ~exito superando as dificuldades. Abraços!
essa historia é realmente encantadora !
Um grande beijo e sucesso sempre para os próximos capítulos!
MUITO BOA A SUA HISTORIA, QUANDO SAI O 5° CAPITULO ??
BJOOOSS
TE AMO MUITO MINHA IRMÃ.
confusão de meninos na oficina . abraços
COMENTÁRIOS
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