Goiânia sem P
Os legisladores deveriam ouvir a voz do povo, que dizem ser a voz de Deus, oficializando o que estiver...
Meu amigo José (nome fictício) é do tipo comum, que não chama atenção. No entanto, costuma cativar; parece que entende as agruras humanas, o que lhe dá relativa sorte com as mulheres, apesar de não possuir, confessadamente, perfil de conquistador.
Ele me contou que estava feliz da vida. Viera de uma grande papelaria, onde aguardava na fila para pagar uns cartões de mensagens. Nisto, ganhou o olhar de uma jovem (não sabe a idade dela, mas, para José, mulher de até 30 anos é jovem); com recíproca amabilidade, acabaram trocando opiniões sobre as mensagens dos ditos cartões.
O amigo descreveu a aparência da fulaninha: magra, morena clara, olhos vivos (desses que miram dentro da gente), algumas espinhas no rosto, sem pintura, mas... uma lindeza! E felizmente, não há de ver!, quando ele acertou sua compra, a jovem mulher o brindou com um terno e demorado aperto de mão, afirmando que gostaria de encontrá-lo novamente, para conversarem com mais vagar. Deu-lhe o endereço, dizendo ser perto da Praça Comendador Germano Roriz, e se afastou sorrindo, abanando a mão.
Entusiasmado, meu amigo sonhador parecia ter ganho o dia.
Ao perguntar pelo nome e o endereço dela, o José me surpreendeu: "Sabe que eu esqueci de perguntar o nome dela?! Agora o endereço é perto de uma praça que eu nunca ouvi falar..."
Frustrado, José pediu meu socorro para encontrar a rua da lindeza. Quase descobrimos, esclarecendo um informante que o endereço parecia o de uma avenida perto da Praça do Cruzeiro, e que a Comendador Germano Roriz, infelizmente, ele não sabia onde ficava.
Uma pena. A felicidade do meu amigo se restringiria a momentâneas cortesias de quem parecia fugir da solidão. Tudo porque a bela Goiânia, às vezes, despreza costumes criados pelo povo.
Os legisladores deveriam ouvir a voz do povo, que dizem ser a voz de Deus, oficializando o que estiver consagrado. A maioria dos goianienses não sabe o nome oficial das praças "do Cruzeiro", "do Cigano", "do Ratinho"...
Também é deprimente homenagens de puxa-saquismo e macaquices inglesas. Caso parecido: em 1979, nosso vizinho Uruguai proibiu o uso da língua Portuguesa nos seus meios de divulgação, principalmente nas fronteiras com o Brasil, porque a região ficaria "híbrida, sem personalidade e até mesmo mais parecida com o Brasil do que com o Uruguai" (O Estado de S.Paulo, 26/05/79).
Quanto a nomes de logradouros, é justo homenagear personagens, porém, para locais não consagrados pela tradição.
A capital dos goianos merece ter mais P, não de puta, mas de Personalidade; largar de ser cópia e tratar de curtir autenticidade, que desperta admiração e dá lucro.
Valdemes Menezes
Trabalhos executados na área de cultura regional. Escreveu as seguintes obras: O Pistolão, O Portão de Deus, O Grande Momento, A Recuperação do Preso e a Segurança do Povo, A invasão do Brasil. Muito Prazer Europa, O Pai do Disco VoadorRadicado em GO e nascido em MG(Ituiutaba), já passou por muitas e outras, de menino rico a jovem pobre. Formou-se com dificuldade no RJ, e, sozinho conseguiu alçar seu próprio vôo: foi redator da então poderosa Rádio Nacional; funcionário do Ministério da Fazenda na ex-capital federal; controlador de vôo da Real(adquirida pela Varig); assistente do diretor de rádio e televisão da McCann Erickson(maior empresa de publicidade do mundo) e se confessa hoje como apaixonado escritor.
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