O Caçador de Velórios
Inhumas já teve inúmeros personagens folclóricos. Quem não se lembra do Cambeta, do Berra-Boi. Bola Sete
Inhumas já teve inúmeros personagens folclóricos. Quem não se lembra do Cambeta, do Berra-Boi. Bola Sete, Cocão? Só os bem mais velhos, claro. Depois teve o Liga; o Tidim, que segundo se comentava na época, aliviava os meninos no fundo do Cine Inhumas; e o Codema? Gritavam as crianças: Cadê Codema? O que ele respondia é melhor não dizer. E o Chico Taboca? Uma história! Hoje o Bacuri e o Mudinho. O Edgar! Ah, o Edgar!... É desse que eu quero falar, mas antes, vamos nos lembrar da representação feminina: Maria Peteca, Maria dos Cachorros, Maria Nanica (essa eu inventei agora, porque achei o número de mulheres muito pequeno). Gozado, porque só Maria?
Muito bem. Vamos falar do Edgar, nosso personagem de hoje. O Edgar tomava suas cachaças e ficava na Rua Goiás, na Praça São Sebastião fazendo discursos. Não é que sua oratória tinha uma lógica? Ele falava do passado, como se o fato estivesse acontecendo naquele momento. Gostava de falar de política. Getúlio Vargas e J. K. eram seus ídolos preferidos. Muitos acreditavam que ele era muito instruído e que tinha ficado lelé da cuca de tanto estudar. Era, segundo alguns, até formado em Direito.
Em velório é que ele era mesmo notado. Aliás, não perdia um. Podia ser de pobre, de rico, de pessoa simples ou importante, que o Edgar estava lá. Ele e o André Pacheco, mas esse já é outro caso.
De forma que, qualquer velório realizado na cidade tinha a presença garantida e marcante do Edgar. Em qualquer ponto da cidade, sem exceção. Podia ser um casebre lá nos cafundós, que ele ia. Por outro lado, não se fazia de rogado, se fosse num palácio (maneira de dizer) lá estaria ele, firme e forte. Nem tão firme assim, diga-se de passagem.
Chegava falando alto, com seu andado de alcoólatra, a voz arrastada, pastosa, entortando a boca para pronunciar as palavras: boa noite, pessoal! Sempre era recebido cordialmente e com o devido respeito. Na verdade era esperado. Quando demorava a chegar, alguém comentava: Uai! O Edgar ainda não apareceu! O interlocutor respondia: Vai aparecer logo, com certeza. E de fato sempre aparecia. Podia demorar, mas aparecia. Sabe aquelas expressões que não faltam a nenhum velório, como: pra morrer basta tá vivo; tá tão bonito!; era uma pessoa boa; Deus que lhe dê o conforto?... Assim também era ele. Era tão estimado, que, quando de seu falecimento foi velado na casa do Deputado Roberto Balestra.
Certa feita faleceu um nipônico na cidade e um religioso lá da religião deles, começou uma reza em Japonês, sem tradutor. O homem ficava na cabeceira do falecido e falando e ninguém entendendo nada. Ninguém, vírgula, por que o Edgar entendia tudo, tanto que respondia da outra extremidade, imitando o homem. Se o homem tremia a voz, ele fazia o mesmo. Como ninguém ousou interromper, ficou assim, um falava de um lado e o outro respondia do outro e tudo terminou bem.
Nunca discriminou nenhum defunto e ia a todo velório, como já foi dito. Podia ter vários na cidade, que ia a todos. Passava a noite, mas que ia, ia.
Velório, no entanto, é igual a qualquer festa. Tem festa que você vai por obrigação social. Outras, por prazer. Tem festa que a gente não perde por nada deste mundo. Quem gosta de velório também é assim. Existe velório que não é para ser perdido por nada.
O Edgar, alcoólatra e muito humano, também tinha seus sentimentos e preferências. Aquela foi uma noite de muitas mortes. Poder-se-ia dizer que a bruxa estava solta naquele dia. Mortes por acidente, morte matada, enfarto. Foi uma mortandade democrática, porque atingiu igualmente a todas as camadas sociais. Evidentemente que morreu mais pobre do que rico, mas é porque pobre existe em maior número mesmo. Inhumas parecia Antares, quando do incidente.
Edgar andou a noite inteira de velório em velório. Chegou no último, já de manhã. Era de uma pessoa importante, que já havia ocupado vários cargos políticos. Cidadão de bens, como se diz. Ao chegar, deparou com aquela pompa e uma verdadeira multidão de gente vindo e indo. Café, leite, refrigerantes, biscoitos variados, salgados, tudo exposto em uma mesa, a ser servido à vontade. Ele aproximou-se do caixão, deu uma estacada e falou com sua voz pastosa e compassada de bêbado: Gente do céu! Um defuntão desse aqui e eu perdendo tempo com aquelas merrecas!?
Davi Isaias da Silva
Graduado em direito pela UFG, especialista em Direito agrário e Direito penalAdvogado militante em Inhumas e região, atualmente vice prefeito de Inhumas;editor do Jornal reflexo que circulou em Inhumas e região, colaborador do jornal 11 de Maio e Diário da Manhã;Livros Publicados: Cleide Campos pela editora Kelps; Contagem regressiva - contos, Ed. Deescubra, Crônicas da Goiabeira - Ed. América. Premiações: Gremi contos, As formigas, Cento e vinte e um, Metamorfose;Conto Crime Ambiental publicado na coletânea da ALCAI
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