Teatralizando em Inhumas
Sei que viver da arte é quase uma utopia por aqui,embora pareça loucura, somos ...
Dia 14 de março último foi minha formatura em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Goiás.Finalmente depois de quatro longos anos de sacrifícios variados consegui chegar ao final deste curso.Não foi fácil.Enfrentei dificuldades enormes: horários de aulas que se estendiam da tarde à noite, um vai-e-vem pelos Araguarinas da vida e ainda ter que lecionar nos últimos horários do Colégio Estadual Manoel Vilaverde foram alguns dos percalços que tive que vencer.Mas acreditem: nada me abateu!
Sei que viver da arte é quase uma utopia por aqui.Mas que embora pareça loucura, somos apaixonados pelo que fazemos.A produção teatral em Goiás ainda está sendo impulsionada.Embora tenhamos grupos reconhecidos com bons trabalhos como o Guará da Universidade Católica, o QMário que nasceu no CEFET, o Nu Escuro e o Zabrinskie faltam mais investimentos nesta área.
É claro que a classe louva o Festival Nacional de Teatro de Porangatu (TENPO), bem como outras iniciativas daAgência Goiana de Cultura (AGEPEL), e a fundação pelo Professor Hugo Zorzetti do Curso de Artes Cênicas da UFG (representando um avanço nesta área).Sem falar nos Festivais da FETEG (Federação Goiana de Teatro): cenas curtas, monólogos, comunitário, estudantil e poesia encenada.Participei de vários deles, atuando e assistindo e pude perceber o esforço de cada um para sua realização.Porém, sempre se pode fazer mais.
A CIA Marula de Teatro da qual faço parte tem sua sede no Jardim Novo Mundo em Goiânia.Somos um grupo com diversas premiações em Festivais que sobrevive de suas apresentações. Temos que pagar iluminadores, cenógrafos e figurinistas.Nada acaba restando para o grupo.Fazemos teatro porque amamos a arte de representar.Quantas vezes fui ensaiar em pleno domingo tomando ônibus variados e pagando do próprio bolso.Às vezes dormia em Goiânia e já ia direto para a Universidade.Mas tudo vale a pena.
Quando estava ali, colando grau, me veio à mente quando comecei a fazer teatro em Inhumas.Inicialmente no Colégio Rui Barbosa, depois nas diversas animações de festas de aniversário com fantoches e palhaços das quais revertíamos em doações ao Sopão (Um grupo que até hoje auxilia as crianças da Vila Mutirão), ou as apresentações em lançamentos de livros de Helena Sebba e Umbelina Frota.Depois veio a Comunidade CICA da qual fiz parte por mais de dez anos.Relembrei o Fábio Pascoal (que hoje está em um Seminário), a Valéria da FAMI e a Joelma Pina.Quantas encenações na Matriz de Santana.Foi o começo de uma bonita história.Tudo isto passou pela minha mente naqueles instantes.
Nossa turma de Bacharelado e Licenciatura já estava bastante emocionada naquela formatura.Víamos de uma encenação muito marcante que nos consumiu durante todo o ano de 2005: Bodas de Sangue de Garcia Lorca.Durante todo esse ano dedicamos muito aquela peça.O texto, rico em imagens fortes, nos contagiou.A encenação, então, foi maravilhosa.Saímos marcados dela. A atriz que fazia um dos papéis principais foi brilhante em sua cena final.O texto de Lorca em sua interpretação ganhou uma força descomunal.E assim foi.Uma semana depois perdíamos, infelizmente, esta amiga de forma trágica.Nos víamos ali, em seu enterro, chorando e lamentando a grade estrela que partia.No ano anterior já havíamos perdido um outro colega também de forma marcante.Isto tudo nos emocionou no final desta etapa na Universidadade:vitórias, perdas e uma vontade louca de fazer teatro ainda mais.
Depois de quatro anos entrando em contato com ótimos profissionais como o próprio Hugo Zorzetti, Mauri de Castro (que já trabalhou com Chico Anísio),Carmelinda Guimarães e fazer oficinas com Fernanda Montenegro, Caio Blat dentre outros maravilhosos atores e diretores posso confessar que todo o sacrifício valeu a pena.
Assim conheci os percalços e alegrias desta profissão quase tão antiga quanto a humanidade.E sei que podemos fazer muito em Inhumas.Um exemplo foi minha monografia de final de curso na qual abordei a obra de um grande escritor: Miguel Jorge ( que passou sua infância aqui) e na qual analiso sua produção: A Dramaturgia de Miguel Jorge no contexto do GEN (Grupo de Escritores Novos).Tive o privilégio de tê-lo na minha banca de defesa.Escolhi Miguel Jorge por amor a Inhumas.Mas isto é assunto para outro momento.Agora tenho que pensar em alguns textos teatrais que me pediram, nas oficinas e encenações que estamos idealizando por aqui.O trabalho não pára.Que bom! Inhumas merece ver mais teatro.Eu, Rafael, Wilker e Wanderson estamos tentando fazer nossa parte.Já é um começo!
José Carlos
Formado pela Universidade Católica de Goiás no curso de História, Graduado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Goiás. Especialização em Educação Ambiental pela UCG.Professor na rede estadual de ensino, integrante do grupo Marula de Teatro e membro do conselho municipal de cultura
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