Publicado em 24/04/2007 10:42

Festa brasileira

Para entendermos o comportamento de algumas pessoas é melhor contar uma estória...

Para entendermos o comportamento de algumas pessoas é melhor contar uma estória:

Houve uma briga na floresta acerca da dieta a ser adotada por todos os bichos. De um lado estavam as vacas, as galinhas, os macacos, os bichos-preguiça, que diziam que a melhor dieta era a vegetação, capim, folha e frutos. Do outro lado estavam as piranhas,  hiena,  lobos, onças que, ao contrário, afirmavam que o melhor mesmo era uma dieta de carne, porque a carne é rica em proteínas. A briga foi tamanha que os bichos resolveram decidir o assunto de forma democrática. "Vamos fazer uma eleição!"

Todos concordaram. "Pela eleição vamos escolher os bichos que vão decidir a questão, por meio de leis". Concordância total. E assim aconteceu. Formaram-se dois partidos. Os vegetarianos deram ao seu partido o nome de Partido das Bananas. Os carníveros   o nome de Partido da Lingüiça.

Mas os carnívoros eram espertos. Sabiam que a verdade nem sempre deve ser dita. Perceberam que nenhum membro do Partido das Bananas iria votar num candidato do Partido da Lingüiça. Por uma razão simples: os bichos vegetarianos seriam aqueles que seriam transformados em churrasco: os bifes das vacas, as lingüiças dos porcos, peitos dos frangos, os perus assados. Todas as pesquisas do IBOPE indicavam que os vegetarianos ganhariam as eleições, por serem em número muito maior que os carnívoros. Assim, astutamentre, reuniram-se para saber o que fazer. Um camaleão chamado Duda, carnívoro, apreciador de rinhas de galo, o sangue sempre o excitava, pediu a palavra: "Companheiros, guerras são ganhas enganando-se o inimigo. Essa é uma lição que aprendemos dos humanos. Os soldados se camuflam para chegar perto de suas presas. Vestem-se de forma a parecer árvores e folhagens. Quando os inimigos se dão conta é tarde demais. É assim que eu faço. Mudo de cor. Fico parecendo um galho de árvore. O inseto só me percebe quando minha língua visguenta o lambe. Queria sugerir, então, que usassem a minha tática. Se nos proclamarmos carnívoros os vegetarianos não votarão em nós. Vamos fantasiar de vegetarianos!" E assim foram os carnívoros. Duda, o camaleão, resolveu dar ao seu partido um nome bem ao gosto dos vegetarianos: Partido dos Abacaxis. Todo mundo gosta de abacaxis, tão doces, tão perfumados, tão brasileiros. Iniciada a campanha do Partido das Bananas contra o Partido dos Abacaxis. Os vegetarianos distribuíam bananas nos comícios. Os carnívoros promoviam grande churrasco só que, ao invés de picanhas sobre as brasas, eram abacaxis sobre as brasas. Faziam churrasco de tudo quanto é vegetal. Assim, os dois partidos tinham o mesmo programa: dieta vegetariana para todos.

Os membros do Partido das Bananas sentiam, de longe, o cheiro bom dos churrascos do Partido dos Abacaxis. E começaram a se aproximar. Perceberam que os membros do Partido dos Abacaxis não eram tão maus quanto se dizia. Chegaram mais perto. Provaram. Gostaram. "É, churrasco de banana é mais gostoso que banana crua", disseram. E Até os macacos aderiram.

Aí veio a eleição. O objetivo é escolher aqueles que terão o poder de fazer as leis. Vencedores, os carnívoros fizeram as leis. O bicho que recebeu mais votos foi a hiena, famosa por seu senso de humor: estava sempre dando risadas. Na sua posse ela fez um lindo discurso sobre as excelências da dieta vegetariana. E para terminar deu uma aula de filosofia. "Como disse o filósofo alemão Ludwig Feuerbach, nós somos o que comemos. Vacas e veados comem capim, portanto são capim. Macacos comem banana, portanto são bananas. Galinhas e patos comem milho, portanto são milho. Assim, onças que comem vacas e veados estão, na verdade, comendo capim. Uma cobra que come um macaco está, na realidade, comendo bananas". O discurso terminou com um "viva a República Vegetariana!"

O discurso da hiena foi saudado com uma grande salva de palmas, seguido por um festival gastronômico em que hienas, onças, lobos, gambás e gatos churrasqueavam vacas, veados, macacos, galinhas e passarinhos.

Aí os membros do Partido das Bananas perceberam que havia caído numa armadilha. Leis são armadilhas. Uma fez feita não podem ser desrespeitadas, a menos que sejam revogadas por aqueles que as fizeram, os representantes eleitos.

Mas quem teria poder para revogar essa lei? Olhando para os gordos animais do Congresso era claro que nenhum deles estava disposto a trocar costeletas, lombos e lingüiças por alface, couve e cenoura...

Concluíram, então, que com aquele Congresso de carnívoros a reforma política jamais seria realizada. Foi então que um leitão chamado Alfred Hichcock pediu a palavra. Ele já havia experimentado a dor da perda de sua mãe, comida por uma onça. Pois bem. O leitão ponderou: "Eu não posso enfrentar a onça. As galinhas não podem enfrentar os gambás. Os cordeiros não podem enfrentar os lobos! Mas os pássaros!

Milhares de pássaros em seu vôos rasantes e bicos ponteagudos! Que poderão fazer as onças, os gambás e os lobos contra o ataque de milhares e de pásaros? Vamos chamar os pássaros! Eles são vegetarianos! São nossos aliados!" E assim aconteceu. Vieram então, em bandos que tapavam o sol, milhares de andorinhas, pássaros-pretos, sabiás, pardais, tico-ticos, periquitos... Invadiram o edifício do Congresso. Foi um pandemônio. O espaço escureceu. O barulho dos pios e dos gritos dos pássarsos era ensurdecedor. Os representantes gritavam histéricos: "Isso é conspiração! Estão tentando desestabilizar o governo!"

Mas os pássros nem ligavam. Continuaram a fazer o que estavam fazendo, os gambás, onças, lobos e hienas fugiram e nunca mais voltaram, com medo de que os pássaros lhes furassem os olhos.

Gleidson Oliveira

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Lista de Comentários

Cristiano M. da Silva
14/11/2006 09:32

saudações

Saudações, professor Gleidson! Lembro-me sempre dos tempos em que falávamos ao rádio para telespectadores. Ainda hoje, como funciona? Escrevemos para leitores? O barato de tudo isso é perceber que em seus trabalhos há sempre a mestra brecha para o sublinhado. A possibilidade de ler o telespectador sem que o ouvinte perceba que o é ou está: telespectador. É sempre bom relê-lo. Um forte abraço!
Antonio Leonardo Bettanin
20/08/2006 22:23

Genial...

Mais uma vez o professor Gleidson nos presenteia com mais um de seus textos, é sabido que o mesmo é de um conhecimento invejável, e que todos os seus textos são pérolas, por isso somos privilegiados de podermos ter um intelectual deste nível em nosso meio. Abraços Antonio Bettanin
João Paulo Silveira
17/08/2006 16:51

signos

O professor tem a habilidade de transitar pelos símbolos constituidores de nosso imaginário político sem cair no diletantismo dicotômico que aniquila as percepções do mundo político. Ao problematizar sobre o tema nos vemos obrigados a decodificar os caminhos traçados dentro de nós, a observar aquilo que outrora passava vazio. Felicitações, JP