Dédalo e Ícaro
É dito que as palavras são como uma espada de dois gumes; têm o poder de ferir e reconstituir feridas...
É dito que as palavras são como uma espada de dois gumes; têm o poder de ferir e reconstituir feridas; poder de destruir e de edificar. Busco este pensamento para iniciar este texto que tem por finalidade descrever e refletir sobre a arte de ser professor.
A partir da leitura e reflexão de um texto feito em uma de minhas aulas no Ensino Médio, as palavras de um aluno revolucionaram meus conceitos e atitudes como professor. Líamos Dédalo e Ícaro de Ovídio, poeta romano (ano 8 a.C.), quando as palavras de um aluno vieram como a espada de dois gumes, ferindo, destruindo e reedificando meus conceitos sobre Educação. O Mito conta que:
Dédalo e Ícaro estavam numa ilha construindo um labirinto para aprisionarem uma criatura monstruosa que aterrorizava a população de sua terra. Quando pronto o labirinto, precisavam sair da ilha, porém necessitavam escapar de tal maneira que o monstro não conseguiria segui-los e conseqüentemente fugir da ilha. Assim, Dédalo percebeu que somente voando sairiam de sua prisão. Resolveu fazer asas para ele e para seu filho Ícaro, e utilizando cera e penas, arquitetou-lhes asas para escaparem da ilha e do monstro. Após ajustá-las em seus corpos, Dédalo instruiu seu filho ao vôo e o advertiu dizendo: não voe próximo ao sol, pois seu calor pode derreter a cera de suas asas, nem próximo ao mar, pois as águas ao evaporarem agregarão à cera e suas asas ficarão pesadas demais para seu vôo. Procure o caminho do meio e siga-me. Após a instrução Dédalo alçou vôo e atrás do pai o jovem filho. Ícaro em sua juventude apaixonou-se pelo vôo e esqueceu-se dos conselhos do pai - voou o mais alto que pode. O calor do sol derreteu a cera de suas asas e Ícaro caiu no mar e morreu. Dédalo que voava na frente não percebera do desastre ocorrido com seu filho, porém ao verificar o vôo do filho, viu limpo o céu e as penas das asas e o corpo de Ícaro arremessados e estilhaçados sobre as águas.
A reflexão sobre o texto naquela aula foi intensa. A sala recordava de momentos em que não haviam sofrido por não ouvirem os conselhos dos pais ou de outros em que sofriam por terem pais autoritários e controladores. Falavam da importância de aprenderem a voar e serem livres para decidirem sobre suas vidas. Falavam dos momentos em que tiveram a cera de suas asas derretidas. Falaram dos tombos e quase afogamentos.
Os defensores do vôo livre pontuavam sobre a importância de caírem e justificavam suas falas na idéia de que: para conhecer é necessário experimentar. Outros eram eloqüentes contra esta idéia e defendiam o pensamento de aprendermos somente com os conselhos daqueles que já viveram experiências semelhantes às nossas, evitando assim tombos desastrosos e possivelmente afogamentos.
Éramos 38 alunos. Incluo-me entre os alunos, pois também compartilhei minhas histórias, angústias e medos tidos como filho. Literalmente a sala estava contaminada com a história de Ícaro, e foi no meio da turbulência das águas que a voz de um aluno foi como um vento que acalmou a tempestade: "Acho que Dédalo errou. Ele aconselhou o filho, mas não ficou ao lado dele. Se o pai tivesse voado lado a lado com o filho, ele não teria caído. O problema é que muitas vezes os pais falam pra gente fazer as coisas, mas sabemos que fazem diferentes". Este aluno em seguida desabafou, falou de suas angústias como filho, como aluno e como um "excluído". Suas palavras deixaram meus olhos marejados. Tinha ali à minha frente um aluno que pedia socorro, que queria desafiar os limites de seu vôo, mas ainda não havia encontrado alguém para voar com ele. Sua voz gritou em meus ouvidos durante muitos dias, o que resultou numa profunda reflexão sobre minha prática como professor. Vi as muitas vezes que havia motivado alunos a voarem e até os instruído a voarem; pude lembrar das vezes que havia voado na frente deles para mostrar-lhes o caminho do vôo, porém as cenas das penas e corpos que vi flutuando por sobre as águas insistiam em borbulhar em minhas lembranças. As palavras tipo espada de dois gumes de meu aluno fez-me ver que: dar instrumentos e instruções para o vôo não é suficiente para o alcance do sucesso no vôo; é importante compreendermos sobre a relevância de voarmos lado a lado como nossos alunos. É importante mostrar-lhes a força do sol e do mar ao voarmos com eles, deixa-los experimentar do derretimento das ceras e do acúmulo de água nas asas, porém se estivermos lado a lado com eles, haverá tempo para estendermos nossas asas e auxilia-los até o próximo porto. É necessário levarmos nossos alunos ao alcance da liberdade do vôo e conscientizarmos que a anulação de nossa participação durante o processo de liberdade pode alimentar o crescimento das catástrofes oriundas da libertinagem.
Com meu aluno aprendi que como professor precisamos aprender a participar dos sonhos, aventuras e medos de nossos alunos; temos que compartilhar momentos de tensão e euforia, dividir e construir com eles parte de nossa história. Aquela aula no 1º ano do ensino médio no Colégio Estadual Manoel Vilaverde fez-me voltar à ilha de Minotauro, repentinamente vi-me na posição de Dédalo, construindo as asas para o vôo da liberdade juntamente com tantos outros Ícaros. Vi a mesma euforia e inocência descritas por Ovídio brilharem nos olhos de cada um deles, e às vezes, vejo que nossas mãos esfriam e nossas gargantas secam frente ao céu desconhecido. Sei que a rigidez do sistema mar e o calor da rotina sol podem danificar as ceras de nossas asas, mas carrego comigo as palavras daquele aluno e sei que são sábias e fazem sentido: voar lado a lado faz a diferença.
daniel aldo
Graduado pela Universidade Católica de Goiás no curso de Letras Português/Inglês; Especialização em docência UniversitáriaProfessor na Universidade Brown - USA - Palestrante no Ensino de Línguas SENAC-SP. Professor de prática em ensino da língua inglesa na UEG - Inhumas, Professor de literatura do Ensino Público, Professor de literatura do ensino público, professor OLY - oficina de línguas YAHWE e Professor do projeto ARTs Lit na USP
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Com certeza esse aluno fez um comentário bem a "ALTURA" e foi MUITO coerente com o tema que o Sr° elaborou e apresentou para seus alunos. Gostei muita da parte em que você se incluiu como sendo, também, mais um aluno, mas deixo aqui mais um complemento sobre educar os filhos: " Educar não é cortar ou dar asas aos filhos, mas sim orientar o vôo."
Quando eu li a história de Dédalo pela primeira fiquei a me perguntar o por que ele não orientou e ficou lado a lado com seu filho.
Seu aluno esta de Parabéns!!!
Quando aparece um ótimo aluno em nossa turma e que faz perguntas de "prova" que nos deixa a pensar, ainda mais no seu caso que ficou até dias se perguntando a respeito daquele comentário feito por ele, não é porque somos bons professores, mas sim o aluno que se descobre e nós só devemos dar crédito e força para que ele tenha confiança em si próprio.
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