Prostituição da Educação
Em se tratando de contramarchas da educação penso que a pior delas foi tentar encarar as instituições de ensin
Prostituição da Educação Básica e Suas Contramarchas
O processo educacional, tanto em nível nacional quanto em nível regional/local, na terra brasilis, tem apresentado mesma funcionalidade. Em meio à onda globalizadora, realidade sobrecarregada por interlocuções transnacionais (transnacionalização), por incrível que pareça, esse universo educacional ainda apresenta sinais de arraigamento ao modelo colonial sul-americano.
Como forma de fundamentar esta afirmação lançar-se-á mão de algumas reflexões acerca da dinâmica educacional no território brasileiro.
Com o advento da colonização só era possível pensar em educação se ela estivesse relacionada à instituição Igreja. Aos jesuítas foi confiada a tarefa de levar a cabo o processo educacional na América. No Brasil essa ordem religiosa, segundo a historiografia tradicional, processou a catequese, ação deletéria que promoveu verdadeiro genocídio entre os nativos. A catequese foi pano de fundo para a consolidação do escravagismo nativo, diga-se de passagem, que os inacianos se tornaram os maiores exportadores das drogas do sertão, e em específico da erva mate.
Com a consolidação do modelo agrário exportador dependente, justificado pela atividade açucareira, a prioridade instrucional recaia sob o ensino primário. Não houve incentivo por parte das capitanias em investir na complementaridade do ensino básico. Só cumpria todas as fases deste ensino a clientela oriunda do setor aristocrático. A razão deste descaso fez-se pela necessidade de garantir mão-de-obra, enquanto reserva de força de produção, para a lavoura.
Transitando da colônia para o império nota-se um conjunto de mudanças que foi processado pela transferência da Corte para o Brasil. Entre os benefícios acordados parte deles foi respectiva ao setor educacional (fundação de colégios de ensino fundamental e médio, implantação de faculdades, construção de bibliotecas, centros de estudos), contudo, essas benesses visaram incrementar o setor intelectual e instrucional para atender as elites de formação nobresca que aqui se acomodaram, uma vez que, se os acovardados lusitanos pensassem em migrar para a Europa, em busca de instrução sistematizada, seriam escalpelados por portugueses e franceses.
Mais uma vez transborda o perfil do processo educacional, cujas modificações se fizeram para atender as necessidades de um grupo restrito e não da maioria da população pária brasileira.
Com o golpe de 1889, aplicado por classes médias, profissionais liberais e oligarquias dissidentes, os monarquistas perderam influência e foram afastados do núcleo legitimador de dominação.
Inaugurou-se uma nova fase na história política e econômica no país. Paulatinamente desenvolvia-se o parque industrial brasileiro. Novamente o setor educacional foi convocado a forjar um modelo de educação que atendesse ao hibrido mercado econômico nacional (setor agrário reverberando o discurso industrial). Criaram assim as Escolas de Aprendizes e Artífices. Já na década de 1930 estas foram transformadas em Escolas Técnicas Federais, e hoje foram transformadas em Centros Tecnológicos Federais.
As universidades, USP, UFRJ, UFMG, UNB, foram instituições de representatividade cuja tarefa seria de aniquilar o índice de analfabetismo no Brasil. De antemão, dedicaram-se na formação de professores que promoveriam a expansão universitária brasileira, pra respectivamente ocorrer a formação de docentes, através dos cursos de licenciatura, que trabalhariam nos setores primários e secundários da educação.
Desta dinâmica sinto ao mesmo tempo saudade e nostalgia. As instituições educacionais até meados do século XX apresentavam uma qualidade docente e discente imensurável. Das escolas públicas eclodiram grandes intelectuais brasileiros e grandes profissionais liberais. Tenho saudade dos 180 dias letivos, dos três meses de férias, quem sabe lá do MOBRAL e da ADMISSÃO, do compromisso travado entre a família e a escola para com o processo educacional do aluno, este que segundo as leis de mercado tornou-se nosso cliente.
Os programas educacionais do séc. XXI, agregados à velocidade da modernidade, às necessidades de trabalho, à imaturidade e inconseqüência das famílias brasileiras, tem gerado um turbilhão de problemas. Neste ato entra em sena a escola. Os mestres deixaram de ser mestres e passaram a assumir funções diversas (pais, mães, namorados, amantes, médicos, enfermeiros, babás, polícia, etc.). O mestre transformou-se em palhaço (seja de circo ou de folia), tem dançado na corda bamba, engolido sapos, vive cuspindo fogo, chacoteado tanto pela comunidade escolar quanto pela estrutura que normatiza os padrões educacionais, e quando se depara com o seu salário pensa em até pedir bolas de sabão para amenizar suas despesas.
Percebe-se um verdadeiro processo de vulgarização e prostituição da educação não só em Goiás, mas em todo estado brasileiro.
A educação perdeu seu encanto. Não é atrativa. O patriotismo acadêmico evaporou-se. Não se fala em idealismo qualitativo, e sim, apenas em dados e recortes estatísticos. A educação deixou de zelar pela formação da cidadania e pelo preparo do sujeito para a vida. Zela agora pelo acréscimo de estatísticas e pela diminuição do índice de reprovação. É bom que avaliemos, pois isso corrobora o fato de que o número de analfabetos diplomados ou intelectualizados pela academia é assustador.
Em se tratando de contramarchas da educação penso que a pior delas foi tentar encarar as instituições de ensino como meras empresas. É bom que enxerguemos que a educação tem se transformado na maior empresa de dominação no Brasil.
Cleumar de Oliveira
Graduado em História pela UFG, Mestre em História das Sociedade Agrárias - UFGProfessor universitário na Faculdade de Anicuns; Professor nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação da UEG; Vice-Diretor e Professor dos programas de Graduação em Licenciatura Plena Parcelada em Pedagogia, Licenciatura em Pedagogia, Pós-Graduação em Docência Universitária da Universidade Estadual de Goiás;Presidente do Conselho Municipal de Folclore de Inhumas- UNESCO; Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Inhumas; Autor do Livro História do Legislativo Inhumense;
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